... e lá tivemos hoje, agora no telejornal da noite da SIC, mais uma sessão de propaganda monárquica... a pretexto do centenário da República!
sexta-feira, outubro 01, 2010
Bonnie and Clyde
Li no site do "Público" um comentário de alguém segundo o qual Arthur Penn (agora desaparecido) terá, com "Bonnie and Clyde", sabido transportar para o cinema americano o espírito dos filmes europeus de autor. É isso mesmo!
quinta-feira, setembro 30, 2010
Coroas
Alguns comentadores deste blogue chamaram há dias a atenção para o facto da RTP, nos últimos tempos e neste ano de comemoração do centenário da nossa República, estar a dedicar particular atenção a alguns reis portugueses. Curiosamente, igual atenção não tem sido dedicada aos nossos presidentes da República, num momento em que tal se justificaria como nunca.
É claro que tudo isto pode ser fruto do acaso e não corresponder a nenhuma significativa infiltração "talassa". "Não há coincidências", mas "Sei lá!" - para utilizar apenas dois títulos da modernidade da nossa escrita urbana.
Recibo
Há um mistério que sempre me ultrapassou.
Por exemplo, no Brasil, quando se faz uma compra, não há mais nenhum talão de despesa que nos seja passado para a mão que não seja a "nota fiscal" (recibo). Em França passa-se o mesmo.
Em Portugal, no comércio, ao adquirir-se algo, dão-nos, na maioria dos casos, um papelinho que regista o valor dispendido e, depois, perguntam (quando perguntam): "quer recibo?" É claro que, muita gente, por inércia, acaba por não pedir recibo, o que faz com que o comerciante embolse o valor do imposto incluído na conta que acabámos de pagar. Por que razão não passa a ser obrigatória, em Portugal, a emissão automática de recibo e proibida a emissão de qualquer outro comprovante de despesa?
Se queremos caminhar no sentido de evitar, cada vez mais, a evasão fiscal, parece-me que esta seria uma medida óbvia. Mas, se não é praticada, então devo ser eu que estou a ver mal o problema...
Hoje
quarta-feira, setembro 29, 2010
"Egoísta"
Dizem-me agora que a "Egoísta" faz 10 anos. Trata-se de uma "aventura" dirigida por Mário Assis Ferreira, organizada por Patrícia Reis e "desenhada" por Henrique Cayatte, uma iniciativa de que todos os portugueses deviam estar orgulhosos.
A "Egoísta" é, provavelmente, uma das mais belas revistas do mundo e, ao que julgo saber, já ganhou, por essa razão, vários prémios. Na realidade, é menos uma revista e mais um "objeto" de culto, que varia na forma, surpreende pelo grafismo e pelas ousadias de produção. Nela se encontram, claro!, magníficos artigos. Além de outros, como um que por lá escrevi, vai para alguns anos, num número dedicado à Europa - porque a "Egoísta" tem sempre edições temáticas.
Possuir a coleção completa da "Egoísta" é um sonho de muita gente, muito difícil de realizar. Há números esgotadíssimos, disputados com fervor pelos colecionadores. Porque os tenho fechados a sete chaves, dou-me ao luxo de confessar ser um feliz possuidor da coleção completa da revista.
terça-feira, setembro 28, 2010
28 de setembro
A data de ontem dirá pouco às novas gerações. Contudo, em 1974, ela foi um dia-charneira na Revolução portuguesa, que assinalou a passagem entre dois tempos políticos bem distintos.
Em perspetiva do tempo, pode dizer-se, com alguma certeza, que o 25 de abril foi produto de um magnífico equívoco, que colocou, lado-a-lado, todos os adversários do regime que então se desmoronou. No 1º de maio que se seguiu, até parecia que todo o país havia saído à rua, talvez com exceção dos pides, da meia-dúzia de nostálgicos empedernidos e dos líderes apeados...
Mas as clivagens nas visões quanto ao futuro do país estiveram sempre presentes. Já no próprio dia 25 de abril, no "posto de comando" do Movimento das Forças Armadas, um conflito emergiu entre o general António de Spínola, convidado para "receber o poder" de Marcelo Caetano, e alguns elementos da "Comissão Coordenadora", que preparara o golpe de Estado, a propósito de certas passagens do Programa do MFA. Os portugueses que viveram esse período lembram-se, com certeza, que foi já muito tarde na noite que a Junta de Salvação Nacional falou ao país, numa muito aguardada emissão televisiva. A definição do texto do "Prograna do MFA", que o país conheceria em pormenor no dia seguinte, foi a razão principal desse atraso.
Em perspetiva do tempo, pode dizer-se, com alguma certeza, que o 25 de abril foi produto de um magnífico equívoco, que colocou, lado-a-lado, todos os adversários do regime que então se desmoronou. No 1º de maio que se seguiu, até parecia que todo o país havia saído à rua, talvez com exceção dos pides, da meia-dúzia de nostálgicos empedernidos e dos líderes apeados...
Mas as clivagens nas visões quanto ao futuro do país estiveram sempre presentes. Já no próprio dia 25 de abril, no "posto de comando" do Movimento das Forças Armadas, um conflito emergiu entre o general António de Spínola, convidado para "receber o poder" de Marcelo Caetano, e alguns elementos da "Comissão Coordenadora", que preparara o golpe de Estado, a propósito de certas passagens do Programa do MFA. Os portugueses que viveram esse período lembram-se, com certeza, que foi já muito tarde na noite que a Junta de Salvação Nacional falou ao país, numa muito aguardada emissão televisiva. A definição do texto do "Prograna do MFA", que o país conheceria em pormenor no dia seguinte, foi a razão principal desse atraso.
Daí para a frente, a unidade no seio das Forças Armadas apenas uma figura de retórica. Entre os "spinolistas" e a "Coordenadora" as tensões foram subindo de tom, com pequenas vitórias de parte-a-parte, a equilibrarem o jogo. No campo militar, o "documento Engrácia Antunes" polarizou, a certa altura, o descontentamento dos mais moderados. No seio do 1º "governo provisório", chefiado pelo advogado liberal Palma Carlos, as tensões subiram e as tentativas feitas por alguns no sentido de reforçar a autoridade do executivo, em ligação com Spínola e em oposição à corrente prevalecente no MFA, conduziram à sua queda. O general Spínola sentiu-se progressivamente ultrapassado pela dinâmica que os militares tinham imprimido à descolonização e espalhava pelo país avisos dramáticos à desregulação "anárquica" da vida portuguesa, com especial referência aos atentados aos direitos de propriedade.
Durante todo o verão de 1974, Spínola foi conclamando à mobilização daquilo a que chamou a "maioria silenciosa" do país. No mês de Setembro, essa agitação, organizada em torno de personalidades conservadoras e de pequenos grupos políticos marcados pela saudosismo "estadonovista", que tinha por óbvio alvo a linha prevalecente do MFA - que confrontava Spínola, favorecia a descolonização e defendia políticas mais "progressistas", um tanto a reboque dos movimentos populares que explodiam pelo país -, acabaria por transformar-se na ideia de uma grande manifestação de apoio ao general e presidente da República, a ter lugar no dia 28 de setembro.
O que se pretendia com essa manifestação? Haveria, por detrás, uma tentativa de provocar um novo golpe militar, correspondendo a uma pretendida "vaga de fundo" de uma "maioria" da população, assustada com a dinâmica da Revolução? Haveria unidades ou comandos militares comprometidos? Haveria civis armados, prontos a criar um ambiente de anarquia, que justificasse uma intervenção autoritária com Spínola à frente? Há várias respostas para estas questões.
De seguro, apenas sabemos o que se passou. O MFA articulou-se com algumas forças sindicais e políticas - da extrema-esquerda a setores do PS - e lançou uma ação preventiva, impedindo os acessos a Lisboa dos potenciais manifestantes, que tinham a intenção de se apresentar em frente do palácio de Belém. Simultaneamente, na noite de 27 para 28 de setembro, o MFA procedeu à detenção de algumas dezenas de pessoas - na esmagadora maioria dos casos personalidades ligadas ao antigo regime - naquilo que aparentou ser mais uma ação de intimidação do que o desarticular de um verdadeiro "golpe reacionário" em preparação.
Como consequência deste novo estado de coisas, que desequilibrou politicamente a relação de forças no país, o general António de Spínola demitiu-se de presidente da República, tendo a chefia do Estado passado a ser assumida pelo general Francisco da Costa Gomes. O primeiro-ministro, general Vasco Gonçalves, que já chefiava o 2º "governo provisório" desde a demissão de Palma Carlos, formou então um 3º "governo provisório", com uma orientação mais "à esquerda", que marcou um novo passo no acelerar da Revolução. Os acontecimentos do dia 11 de março do ano seguinte tornariam ainda mais radical a Revolução portuguesa.
Pedras Salgadas
Temos feito eco neste blogue da luta da população das Pedras Salgadas pela recuperação do seu parque termal e pela necessidade da empresa Unicer cumprir com aquilo a que se comprometeu.
Depois da manifestação popular de 23 de Setembro, corre agora uma petição para a qual são pedidas adesões. Quem a quiser subscrever pode fazê-lo aqui.
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Pedras Salgadas
segunda-feira, setembro 27, 2010
O custo da vida
É de todos os tempos. Ficar isolado numa conversa cruzada, durante um jantar oficial, mantida entre vizinhos situados à sua esquerda e à sua direita, é uma situação inconfortável, particularmente se se tratar de uma mesa longa, em que não dê para falar com um terceiro parceiro. Se a educação dos vizinhos o permite, ou se a nossa imaginação conseguir descortinar uma aberta, pode ser que tenhamos oportunidade de entrar na charla, embora, às vezes, um tanto "à bruta" ou a despropósito.
Aquele diplomata estava a passar horrores, num jantar chato e longo. Quase desde o início, as suas duas vizinhas, desinteressadas dos comparsas que tinham do seu outro lado, mantinham-se a falar entre si, inclinadas para a frente. Conferiam preços, falavam do custo de vida. De início, o diplomata fez de conta que estava interessado naquele tráfego de custos, olhando alternadamente para as suas companheiras de mesa, qual árbitro de um jogo de ping-pong. Mas os números continuavam a fluir, em torno de produtos completamente alheios ao seu círculo de interesses: alimentação, higiene e roupa de senhoras eram temas escalpelizados ao cêntimo, com informações detalhadas sobre os locais de compra mais favorável. Mas, no geral, a queixa assentava na exorbitância do custo de vida local.
A certo passo, o diplomata "encheu-se" e não resistiu:
- Têm toda a razão. Isto está "pela hora da morte". Já nada é barato! Sabem o preço dos leões?
As duas "gralhas" silenciaram de surpresa e o nosso homem prosseguiu:
- Pois fiquem a saber que um leão jovem custa hoje 100 mil dólares! Pensarmos nós que, há meses, se comprava o mesmo leão por 30 mil...
E o nosso diplomata continuou, detalhando o preço dos macacos, dos canários, das galinhas-de-angola, etc.
As vizinhas calaram-se, finalmente.
Li esta história num livro que vivamente recomendo: "Os bastidores da diplomacia", de Guilherme Leite Ribeiro, um diplomata brasileiro com boa escrita e humor.
Miliband
Ed, o mais novo, e politicamente mais à esquerda, dos irmãos Miliband, ganhou, por uma "unha negra", ao seu irmão mais velho a liderança do Partido Trabalhista britânico. Ambos tinham sido membros do último governo trabalhista, dirigido por Gordon Brown. Por razões que a ideologia explica, pode presumir-se que o pai, Ralph Miliband, se ainda fosse vivo, teria ficado contente com este desfecho.
Na vida internacional, os sinais são contraditórios. Não deixa de ser curioso que o "labour" britânico escolha uma figura mais progressista para encarnar as suas esperanças de regresso ao poder quando, quase simultaneamente, os social-democratas* suecos são estrondosamente derrotados pelos conservadores, assistindo mesmo a uma significativa emergência parlamentar da extrema-direita no seu país.
O mínimo que se pode dizer é que a Europa está complicada!
* Já agora, em dia de preciosismo estilístico, conviria que alguns dos nossos jornalistas e locutores aprendessem que se escreve e diz "social-democratas" e não "sociais-democratas".
Acordo Ortográfico
O (para muitos "irritante") Acordo Ortográfico da língua portuguesa tem vindo a ser utilizado pela Embaixada de Portugal em Paris, desde o início deste ano. Prática que obteve - "cela va sans dire!" - aprovação prévia das autoridades centrais portuguesas.
Ao longo destes meses, a representação diplomática em França esteve isolada, no mapa diplomático português, na antecipação da obrigatoriedade (que aí virá, daí a pouco) de utilização das escassas mudanças que o Acordo introduz na escrita do português. Hoje, porém, reparei que já não estamos "orgulhosamente sós". Estas coisas levam tempo, mas lá vão andando...
domingo, setembro 26, 2010
Vinho do Porto
"É lá da quinta!". A quinta não era dele, mas o nosso jovem diplomata, convencido que isso lhe conferia o "coté" finaço de proprietário rural no Douro, utilizava a quinta da tia como origem do vinho do Porto que oferecia, com orgulho, aos seus convidados, em garrafas sem rótulo, que entendia darem maior genuinidade ao afirmado néctar.
Naquela noite, tinha o seu embaixador para jantar. Apurado "gourmet", o velho diplomata tinha fama de ser um "connoisseur"* de vinhos. Os Portos seriam, aliás, a sua grande especialidade, pertencendo até à respetiva confraria.
O jovem anfitrião não resistiu enquanto não passou um cálice do Porto "lá da quinta" ao Embaixador, não se coibindo de adiantar: "O senhor embaixador vai deliciar-se com este Porto!". Fez-se na sala um silêncio ansioso, enquanto o embaixador degustava um trago do Porto "lá da quinta". O velho diplomata rolou com calma o líquido na boca e, para satisfação maior dos donos da casa e instrução definitiva dos restantes convidados, disse: "estupendo!".
Só o empregado português, contratado à hora pelo diplomata, que o embaixador encontrava por todas as receções naquela capital, terá notado que, segundos depois, com a discrição coreográfica que a carreira ensina a quem a sabe aprender, o embaixador pousou na sua bandeja o resto do cálice daquela zurrapa "lá da quinta", que tentava passar por um Porto, e optou por um seguro copo de água.
Em tempo: Um amigo referiu o meu "lapso" de ter escrito "connoisseur" em lugar de "connaisseur". Não foi lapso. De facto, em francês diz-se "connaisseur" mas, devo confessar, habituei-me, de há muito, a utilizar a consagrada corruptela anglosaxónica de "connoisseur". Mas, de futuro, e enquanto por aqui andar, reconheço que tem sentido vergar-me às origens etimológicas do vocábulo. Obrigado pela nota.
Só o empregado português, contratado à hora pelo diplomata, que o embaixador encontrava por todas as receções naquela capital, terá notado que, segundos depois, com a discrição coreográfica que a carreira ensina a quem a sabe aprender, o embaixador pousou na sua bandeja o resto do cálice daquela zurrapa "lá da quinta", que tentava passar por um Porto, e optou por um seguro copo de água.
Em tempo: Um amigo referiu o meu "lapso" de ter escrito "connoisseur" em lugar de "connaisseur". Não foi lapso. De facto, em francês diz-se "connaisseur" mas, devo confessar, habituei-me, de há muito, a utilizar a consagrada corruptela anglosaxónica de "connoisseur". Mas, de futuro, e enquanto por aqui andar, reconheço que tem sentido vergar-me às origens etimológicas do vocábulo. Obrigado pela nota.
sábado, setembro 25, 2010
Selos ministeriais
Acaba de ser revelado um bem guardado segredo desta classe política: desde há várias décadas, os correios franceses emitiam selos, em folhas não picotadas, uma espécie de "provas de luxo", que se tornavam rapidamente em raridades, muito valorizadas no mercado filatélico. Estas folhas eram destinadas aos ministros que tinham a seu cargo o serviço de correios, mas também primeiros ministros e presidentes da República. De todas as orientações políticas e em tempos muito diversos. Alguns dos beneficiados transacionavam essas raridades e garantiam, assim, um valor interessante, que se agregava ao respetivo salário mensal. Esta prática terá acabado durante a presidência de Jacques Chirac e é agora tornada pública num livro de um ex-ministro do atual governo.
As raridades filatélicas fazem parte da mitologia de quantos, como eu, se dedicaram na sua juventude a essa aventura magnífica que era a filatelia, por onde aprendíamos geografia, história e paciência. Recordo a emoção que tive, a primeira vez que estive em Paris, ao deparar com a casa "Yvert & Tellier", editora daquele que foi, durante muitos anos, o grande catálogo filatélico mundial. No nosso burgo, vivia-se então apoiado nos catálogos "Eládio de Santos", "Simões Ferreira" e "Mercado Filatélico", bases orientadoras das nossas coleções.
Nos dias que correm, em que já quase ninguém escreve cartas, onde os selos deram lugar a carimbos, a filatelia já não é o que era. Nem sei bem onde pára a minha coleção... Mas, depois da notícia de hoje, pergunto-me: e em Portugal, alguém beneficiou de "borlas" dos CTT? Há por aí alguma "dupla impressão" disponível?
Deixo-os com uma imagem que, estou certo, criará saudades aos filatelistas da minha geração.
"e-mail" corporativo
De há uns anos para cá, o Ministério dos Negócios Estrangeiros criou, para cada um dos seus funcionários - diplomatas, técnicos e administrativos -, um endereço de e-mail próprio. A ideia, inteligente, seria proporcionar um canal de ligação entre a administração e os funcionários, servindo, ao mesmo tempo, de subliminar estímulo à sua desejável conversão às novas tecnologias.
Todas as boas ideias têm um "mas". No nosso caso, houve um "leak" que permitiu que todos passássemos a conhecer os endereços de e-mail de todos os outros. Mas qual é o problema, perguntar-se-á o leitor? É muito simples: quando alguém ou algum serviço quer dar notícia de alguma coisa, por mais irrelevante que seja, manda indiscriminadamente (sem ter em conta se se trata de funcionários em Lisboa ou no estrangeiro, se somos solteiros ou casados, se temos filhos ou não) um mail a mais de um milhar (nunca os contei, mas anda nessa dimensão) de colegas.
Todas as boas ideias têm um "mas". No nosso caso, houve um "leak" que permitiu que todos passássemos a conhecer os endereços de e-mail de todos os outros. Mas qual é o problema, perguntar-se-á o leitor? É muito simples: quando alguém ou algum serviço quer dar notícia de alguma coisa, por mais irrelevante que seja, manda indiscriminadamente (sem ter em conta se se trata de funcionários em Lisboa ou no estrangeiro, se somos solteiros ou casados, se temos filhos ou não) um mail a mais de um milhar (nunca os contei, mas anda nessa dimensão) de colegas.
Recordo que, uma vez, alguém se lembrou de avisar que a água ia faltar, no palácio das Necessidades, no dia seguinte. Com a maior das latas e displicência, a mensagem foi enviada a todos os funcionários do quadro do MNE, de embaixadores a contínuos, de Camberra a Washington, de Tóquio a Kiev. Todos fomos "obrigados" a perder algum tempo a ler uma mensagem perfeitamente escusada para quem vive no estrangeiro. Idêntica atividade tivemos que exercer quando, um dia, mudou, conjunturalmente, o horário de fecho do bar do palácio.
De outra vez, um guarda da Securitas deixou o serviço do MNE. Logo, carinhoso, escreveu-nos a todos - às largas centenas que estamos espalhados pelo mundo, para benefício dos administrativos da cidade do México ou de Nairobi, bem como dos embaixadores na Croácia ou em Seoul - lembrando, com frases sentidas, as boas horas em que tinha tido à sua cuidadosa guarda a sede da nossa diplomacia.
Uma descoberta - "foram encontrados junto à saída do Protocolo, uns óculos de marca Vogue, com hastes pretas e brancas" - mobilizou também, há alguns meses, a atenção de milhares de pessoas, que perderam o seu tempo a abrir e ler o mail que revelava o importante achado. Isto para não falar dos amáveis (mas impessoais) votos de boas-festas que aí se anunciam ao aproximar da quadra natalícia, dos convites para lançamento de livros que causam angústias - por impossibilidade de tomarem um avião a tempo - aos funconários em Sidney, Toronto ou Belém do Pará. E muito mais...
Por agora, parece terem abrandado um pouco aquilo a que eu chamo os "attachments da paz" - aquelas patéticas mensagens furtacores, em estilo de "power-point", tendo como fundo música de elevador ou de "crooners" românticos, com fotografias de paisagens serenas, crianças ou velhinhos, passando ditos de natureza comportamental ou de auto-ajuda, quase sempre redundantes conselhos à "la Palisse", na busca da felicidade perdida (pelos que têm tempo para andar a escrever aquele tipo de coisas), com citações "sábias", com um "lettering" de zoom, letras ou palavras a pingar sobre o écran, às vezes em "brasileiro", muitas outras com clamorosos erros de ortografia. Temíveis são os que pedem, no final, que se circule a mensagem por "amigos", já não por ameaças tenebrosas do nosso destino por quebra das "cadeias", mas pela poluição informática que potenciam.
Enfim, o meu endereço de "e-mail corporativo" tem sido tudo menos útil, até porque tem um espaço de armazenamento que, naturalmente, se esgota com facilidade, porque não se previam estas inusitadas "encomendas".
Enfim, o meu endereço de "e-mail corporativo" tem sido tudo menos útil, até porque tem um espaço de armazenamento que, naturalmente, se esgota com facilidade, porque não se previam estas inusitadas "encomendas".
Apesar de tudo, tem algumas "vantagens". Há dias, por ele recebi um mail (oficial, de um departamento do MNE) convidando-me a fazer um curso...de francês. Normalmente, tomaria isso como uma graça provocatória ao embaixador em Paris. Sosseguei, ao ver que os funcionários das nossas embaixadas em Montevideu ou em Otava, dos consulados em Manchester ou em Xangai, também tinham recebido. E que todos partilhavam comigo das dificuldades de podermos estar presentes em Lisboa, às horas previstas para tal curso.
sexta-feira, setembro 24, 2010
Diplomata
Teve vários e prestigiantes postos na sua vida, que cumpriu com inteligência e estudado enfado. Mas só tinha um único lema, seguindo o "motto" de Clemenceau: "o meu antecessor é sempre um imbecil e o meu sucessor é sempre um incompetente".
quinta-feira, setembro 23, 2010
Romance de uma conspiração
Pode ter acontecido já a algum leitor ter lido um romance com cenas passadas em locais e circunstâncias em que esteve envolvido. É uma sensação estranha cruzarmo-nos com uma ficção que desenvolve uma trama que teria decorrido, sem o sabermos, ao nosso lado, envolvendo figuras que, embora sob pseudónimo, reconhecemos sem dificuldade. Aconteceu agora comigo, ao ler o "Romance de uma conspiração - Portugal no centro de uma intriga internacional", editado pela "Oficina do Livro" escrito pelo meu amigo João Paulo Guerra, um credenciado jornalista de quem já aqui se falou. Grande parte do texto situa-se no tempos quentes da Revolução de abril, em assembleias, estruturas e espaços militares por onde eu andava então.
Curiosamente, nunca tinha abordado com o autor o tema que trata no livro, sobre o qual, aliás, sabia muito pouco. Trata-se de uma interessante mescla entre ficção e realidade, em torno de uma investigação jornalística sobre uma rede internacional de extrema-direita que, até aos anos 70 do século passado, teve Portugal no seu centro. Ao ler livros como este, começamos a perceber que houve muita coisa, na nossa história recente, que, afinal, correu ao nosso lado mas que só agora, com o passar do tempo, nos vai chegando.
Pedras Frustradas
Sob o título deste post, publiquei ontem no "Jornal de Notícias" o seguinte artigo:
"Durante muitos anos, Pedras Salgadas foi do que havia de melhor em matéria de parques termais portugueses. Entretanto, os tempos mudaram, o “charme” termal entrou num certo declínio e, apenas nos últimos anos, se registou, um pouco por todo o país, a recuperação de alguma da antiga vitalidade do sector.
Nem todas as estâncias termais tiveram, contudo, a mesma sorte. As Pedras Salgadas arrastaram-se, por algumas décadas, num processo de mera sustentação, a qual, no entanto, dava alento económico à vila e conforto sazonal ao seu comércio. A empresa das “Águas das Pedras”, nas gestões de Souza Cintra e Jerónimo Martins, mantiveram um mínimo de capacidade hoteleira local – que é a condição absolutamente essencial para a sobrevivência desse parque termal.
Uma luz emergiu ao fundo do túnel com o projecto, anunciado pelos novos proprietários das “Águas das Pedras”, a UNICER, da recuperação do balneário e do parque, assente na construção de um novo hotel, que iria ser uma obra de Álvaro Siza Vieira – e cuja designação teria, aliás, o próprio nome do arquitecto. A obra enquadrava-se no projecto Aquanattur e surgia como a contrapartida pelas vantagens da exploração do rentável negócio das águas. Os autarcas locais e, inicialmente, grande parte da população, logo se entusiasmaram com as perspectivas de desenvolvimento que daí poderiam advir, que a propaganda da UNICER espalhava aos quatro ventos.
Depois, veio uma nova administração da UNICER, logo seguida de uma dura realidade: a empresa não apenas encerrou o único hotel então existente como passou, de forma escandalosa, a violar todos os prazos de execução de obras a que, sucessivamente, se ia comprometendo, sob uma inexplicada complacência da AICEP – à qual, em princípio, competiria exigir tal cumprimento e a denúncia dessas violações temporais.
Há cerca de um ano, sob pressão de um movimento cívico local, que reclamava desses recorrentes atrasos, a actual administração da UNICER anunciou, em comunicado, que, até ao fim de Maio de 2010, iria apresentar o projecto do tal novo hotel, desenhado por Siza Vieira, cuja construção se iniciaria (finalmente!) em 2011. Maio já lá vai há muito, nenhum projecto surgiu e – posso garanti-lo! – é completamente falso que Álvaro Siza Vieira tenha entre mãos qualquer projecto encomendado pela UNICER.
Cansada de esperar, a população das Pedras Salgadas vai sair para a rua, no dia 23 de Setembro. A UNICER – cuja excepcional saúde financeira não lhe permite utilizar o argumento da “crise” – será agora obrigada a explicar o verdadeiro logro em que tem mantido a população das Pedras Salgadas."
Se estiver interessado noutros textos aqui publicados sobre este tema, clique, abaixo, em "Pedras Salgadas" no Marcador deste post.
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quarta-feira, setembro 22, 2010
Rádio portuguesa em francês ?
Falar em francês para portugueses? A questão surgiu no domingo, durante o programa "Génération Portugal", realizado no âmbito da rádio RGB, de Cergy Pontoise, animado por Patrick Caseiro e Aida Cerqueira. Ao longo das várias horas de emissão, em que intervim, o francês foi a única língua usada. Alguém acha isso estranho?
Eu não acho. A comunidade de origem portuguesa em França é muito diversa: há quem fale correntemente português, há quem apenas perceba um pouco de português e há quem se sinta muito pouco à vontade a falar ou a ouvir falar a nossa língua. Sendo este um programa que pretende entrar num "mercado" de ouvintes de uma terceira geração de origem portuguesa, que tem o francês como língua comum, considero perfeitamente natural que o idioma utilizado seja apenas o francês. Quanto ao resto - à música, à cultura, aos temas de conversa - tudo foi sobre Portugal, sobre os portugueses.
Combinei ir falar, no futuro, ao mesmo programa, sobre o tema da língua portuguesa em França. E vamos ter essa conversa em francês, claro! Essa será uma oportunidade para tentar explicar aos setores da comunidade luso-descendente que não têm o português no seu dia-a-dia as vantagens que a nossa língua hoje lhes pode oferecer. Esse foi, aliás, o mote de um artigo que publiquei este mês na revista da associação de jovens luso-descendentes "Cap Magellan", precisamente sob o título "Porquê o Português?", e que pode ler aqui.
Monet
Não é muito "decente" - reconheço! - estar a sublinhar uma "vantagem comparativa" de quem vive em Paris. Mas não posso deixar de recomendar, a quem por aqui vive ou por aqui vier a passar, até 24 de Janeiro de 2011, que visite a extraordinária exposição de Claude Monet, em exibição no Grand Palais. Fui ontem vê-la e, confesso, fiquei deslumbrado. Há 30 anos que não se reunia um conjunto tão rico de obras deste grande pintor do impressionismo.
Estando longe de ser uma obra típica de Monet - e talvez por isso -, apetece-me deixar aqui a sua "rua Montorgueil".
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Verdades
De quando em vez, acontece-me ter de apresentar um livro. Na maioria dos casos, trata-se de obras de não-ficção, porque romances ou contos (...

















