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domingo, abril 20, 2025

O que aí pode vir

Desde o início da guerra na Ucrânia, o discurso de alguns por cá passou sempre por um esforçado otimismo, quase mimético do de Moscovo: desde 2022, a Rússia terá estado sempre numa posição relativamente confortável, as suas forças armadas terão conseguido grandes sucessos no terreno, a sua economia manteve-se sólida, contra todas as expetativas, não obstante as sanções e as tentativas de isolamento que o mundo ocidental procurou promover. 

Fui acompanhando com curiosidade este discurso que, deliberadamente, pareceu esquecer que a "performance" militar russa esteve muito longe daquilo que era expectável de uma potência que, ao que se dizia, tinha passado por um processo profundo de investimento em modernização militar, durante mais uma década. Era assim estranho que o poder efetivo das forças de Moscovo tivesse estado bem distante daquilo que seria de aguardar. As centenas de milhares de baixas em combate, as destruições maciças de material militar que veio a registar, a limitação dos ganhos territoriais no espaço ucraniano - tudo isto prova que alguma coisa correu muito mal no planeamento russo. 

Desde logo, e para começar, a possível ilusão de que o regime de Kiev iria colapsar em escasso tempo, somada ao óbvio erro de que a Europa, porque dependente energeticamente da Rússia e seguramente pouco motivada para alimentar uma guerra em terra alheia, acabaria por se dividir a prazo. Finalmente, a ideia de que os EUA, humilhados no Afeganistão, não quereriam comprar tão cedo outras guerras, mesmo feitas por "proxies". As coisas não só não correram bem assim, como não correram mesmo nada bem.

Esses tais otimistas caseiros, sem surpresas, foram acompanhando a narrativa de Moscovo: perante as evidências, reciclaram os seus argumentos, justificaram os desaires da Rússia com o poderio da frente ocidental que passou a apoiar desmesuradamente a Ucrânia em termos militares. Se, ao fim de três anos de guerra intensa, ainda não tinham sequer conseguido dominar todo o Donbass, isso era um detalhe. E se as "nacionalizadas" Kherson e Zaporíjia estavam longe de estar totalmente ocupadas, e Odessa era vista apenas por um canudo, nada disso era decisivo. Tinham tempo e gente para morrer. E rezavam pelo regresso de Trump.

Quando Trump chegou, sem surpresas, deixou claro que a Rússia não estava no topo das suas preocupações estratégicas, que não queria arriscar com o caso ucraniano um conflito que poderia vir a ter um preço nuclear. Na Ucrânia, queria apenas recuperar o "investimento". A China e o Irão (por causa de Israel) estavam no radar prioritário de Washington. O novo dono da Casa Branca tornou muito evidente que não estava disponível para partilhar a obsessão securitária que atravessava a Europa e, em especial - e isto continua cada vez mais evidente -, que não contassem com ele para proteger qualquer aventureirismo europeu face à Rússia, a promover na Ucrânia. Em outras palavras: o Artigo 5° da NATO deixava de se aplicar se os europeus atravessassem as linhas vermelhas de Moscovo. Ficavam por sua conta, risco e armas.

Marco Rubio terá vindo à Europa dizer mais ou menos isto, com Trump irritado por ver o velho continente a estimular a resistência de Zelensky à entrega dos pontos. E prestes a perder a paciência, tanto mais que ia perdendo a face - afinal, iam ser necessários mais do que dois dias para "fechar" a guerra na Ucrânia. Ou não.

A meu ver, entramos agora no tempo mais perigoso: aquele em que os europeus, em desespero estratégico e órfãos da América, acham que podem fazer das suas fraquezas forças. O discurso jingoísta de Bruxelas ecoa o temor dos Bálticos, pela voz de Kaja Kallas. Afinal, e de outra forma, a Europa também não quer perder o "investimento" que fez na Ucrânia. E em Zelensky.

Nestas condições de pressão e temperatura, não me admiraria se a Rússia pudesse achar que, sem os americanos por detrás da Europa, e com esta ainda indecisa nas suas eternas cimeiras, se pode dar ao luxo de voltar a pisar algum risco. Com Biden ou Trump, os EUA eram, de qualquer forma, os adultos na sala da Europa. Agora, com a nossa senhora de Bruxelas a soltar os cordões militares aos orçamentos nacionais, com dois mini-poderes globais entretidos a contar ogivas, com um terceiro a aproveitar a novidade da sua nova cara para se auto-absolver da eterna vergonha histórica (mas não em Gaza) e com três outros a porem-se já em bicos de pés, um deles mesmo aqui ao lado, temo francamente o pior. "And I mean it".

Poetas com taxímetro

Dizia-me ontem um taxista, descontente com o clima: "Já reparou que desapareceram as estações?! A mim, faz-me muita falta o outono!...