Ele, o meu vizinho de cadeira (do outro lado, tinha uma simpática "rapper"), era, em toda aquela mobilizada sala, a pessoa que mais direito teria de ali estar. E passava completamente desapercebido. Chama-se José Neves e há meio século que nos cumprimentamos com grande cordialidade, embora sem nos conhecermos bem.
Lembrei-lhe que ele seria ali o único membro que estivera presente na reunião fundadora do Partido Socialista, na Alemanha, a menos que o Alberto Arons de Carvalho andasse algures pela sala (o restante, Rui Mateus, há muito que "saiu" da História). "Tenho 94 anos, sabe?". Caramba! Eu não sabia.
Falei-lhe da famosa fotografia de 19 de abril de 1973, em Bad Münstereifel, na transformação da Ação Socialista Portuguesa em Partido Socialista, em que Mário Soares queria criar o partido e Maria Barroso se opunha e perdeu. "Eu apareço na parte de cima das fotografias, sou o mais baixo. Mas não estava em pé: estava sentado num banco..." E acrescentou: "Pensando bem, é muito estranho que tivesse havido fotografias: era uma reunião clandestina!" Assinalei que não surge, na imagem mais conhecida da reunião, Seruca Salgado, talvez por ter sido ele o fotógrafo. Mas José Neves notou: "Há outra fotografia em que ele aparece". Fui agora confirmar e assim é. E falou-me de uma outra reunião, em Paris, de que eu nunca tinha ouvido falar: "Foi num espaço arranjado pelos socialistas franceses. Dessa não há fotografias".
José Neves é uma figura histórica do socialismo português. Esteve exilado desde 1965 em Londres e só regressou a Portugal com a Revolução. Publicou, em 2023, "Partido Socialista: da Génese à Refundação (1875-1973). Muita saúde, foi o que lhe desejei com um abraço solidário, no fim da festa.
E vamos a isto!
