É num dia como o de hoje que me congratulo com o facto de ter decidido suspender o meu comentário regular sobre temas internacionais. É que, estou certo, seria tentado a "dar bitaites" sobre as medidas protecionistas de Trump, tema em que os economistas se dividem.
10 comentários:
Fez muito bem sair da equipa dos especialistas que massacram o Putin e o Zelensky, o Trump e o Xi, o Montenegro e o Pedro Nuno Santos, os juízes e o Sócrates, a economia e a saúde, a educação e a segurança social, os velhos e os que ainda não nasceram, deus e o diabo, todas as galáxias do universo.
Sinceramente, já não há a mínima paciência para as notícias e os comentários sobre Trump e, infelizmente, a Rússia e a Ucrânia. É um fastio imenso de repetições e opiniões completamente enviesadas. As TV podiam ir de férias uns tempos.
Não tenho a ideia que haja grande divisão entre os economistas à parte a divisão natural numa ciência social que em boa parte se ocupa a prever o futuro. Abstraindo dos economistas que sugeriram estas tarifas ao Trump, a esmagadora maioria dos outros prevê impactos negativos na maior parte do mundo e também nos Estados Unidos da América do Norte.
Quanto a mim, foi prudente o seu afastamento das televisões. Foi também aí que a sua experiência veio ao de cima. Percebeu atempadamente que as narrativas absolutamente fantasiosas (que ainda persistem nos comentadeiros cada vez mais descredibilizados) sobre o conflito a Leste mais tarde ou mais cedo iriam esbarrar no muro da realidade. O Senhor viu que os ingredientes estavam todos bem medidos para a coisa correr muito mal, como agora se confirma abundantemente e entendeu que devia sair, ou que, se fosse para falar com realismo, seria crucificado na praça pública, como intentaram fazer com major-general Agostinho Costa. Assim, como bom diplomata que é, ninguém o vai poder acusar de nada mais nada menos do que de uma absoluta neutralidade, apesar de vincada por elegantes "princípios" morais. Bela lição me deu, pode crer.
Senhor Embaixador
Sinceramente tenho pena de ter “decidido suspender os comentários regulares sobre temas internacionais”.
Se há algo que diferencia este blogue dos restantes, são precisamente as análises do Senhor Embaixador sobre a política internacional, sempre pautados por um mínimo de objectividade, equilíbrio e bom senso, que é o que falta aos ditos comentadores/especialistas que diariamente pululam nos diversos canais de televisão, alinhados que estão em espaços político-ideológicos, com os quais não me é possível deixar de os enquadrar.
Ainda hoje (3/Abril), o Embaixador não resistindo a mais um comentário sobre política internacional (espero que não seja o último!), afirma textualmente que “a Rússia é um "fait divers". Para os EUA, o que realmente conta é a China”, quando todos os dias somos bombardeados pelos ditos especialistas que são Trump e Putin, sob o pretexto do conflito da guerra da Ucrânia, que estão a redefinir a geopolítica mundial, ignorando que Xi Jinping à boa “maneira oriental” vai movendo, em surdina, os seus cordelinhos no sentido de erigir a China como a única superpotência ameaçadora da liderança mundial dos EUA.
Ou seja, a opinião do Embaixador da irrelevância da Rússia face à China no actual contexto geoestratégico mundial coincide com a de Garry Kasparov (Expresso Revista, 27 março 2025) “a Rússia ou se torna satélite chinês ou regressa à Europa. Acredito que muitos russos preferem o regresso à Europa. Os russos podem não aderir à democracia pelo que têm na cabeça ou no coração, mas podem ter de fazê-lo pelo estômago”.
Cordiais saudações
"opiniões completamente enviesadas"
As opiniões são sempre enviesadas. Mas em certos assuntos todas (ou quase) as opiniões que ouvimos são enviesadas no mesmo sentido. E aí é que está o problema.
Zeca
Curioso é que todos, mesmo todos, jornalistas e comentadores especializados (incluindo economistas) partilham a ideia de que Trump é o mentor das tarifas e de todo o mal que agora passaram a ver nos EUA. As tarifas serão apenas um dos instrumentos que os economistas, que assessoram Trump, entendem como útil para vitalizar a economia americana.
Curioso será saber o que os economistas europeus, que agora falam em abrir a Europa a novos mercados, irão propor às lideranças europeias que fecharam a porta aos mercados de influência russófona e acabaram de aplicar tarifas à China.
J. Carvalho
Carlos Antunes, não me levará a mal mas parece-me que estará a ver menos bem o assunto da importância geo-estratégica da Rússia. É certo que, em termos demográficos, a Rússia não tem nem um décimo dos recursos humanos da China (para esse efeito, também os Estados Unidos ficam muito aquém da China, com uma população de 340 milhões).
No entanto, estes assuntos nunca ficam só pela demografia, se assim fosse a Índia seria já a primeira ou segunda potência mundial.
O que a Rússia tem e mais ninguém tem é uma massa geográfica enorme, trata-se de um país pluricontinental. Tem recursos naturais em abundância, tudo, desde cereais, fertilizantes, até metais raros, petróleo, madeiras, gás natural e o que mais for para dar e vender. Aliás, esta história da Ucrânia tinha como um dos pressupostos não declarados — abertamente — o de cortar a Rússia às fatias, para lhes serem sacados os recursos ou em alternativa instalar por um novo Iletsin. Recursos esses que mais ninguém tem. Para além disso, disso, a Rússia tem capacidades tecnológicas avançadíssimas, ainda há uns dois anos, quando foi preciso ir à Estação Espacial Internacional sacar uns americanos que lá estavam atolados, quem julga que lá foi?
Não esqueçamos ainda o exército e a tríade nuclear. Ou a frota de centrais nucleares ambulantes corta gelo destinada ao Ártico, que também mais ninguém tem.
Concordo quando diz que a relação com a China é desigual, mas ambos os países (fora um curto período) sempre tiveram boas relações. Em 1945 a Rússia invadiu a Manchúria ocupada pelos japoneses e três anos depois retirou-se, entregando o território à China, num ambiente festivo.
Por outro lado, Trump poderá estar muito interessado em normalizar as relações com a Rússia; primeiro para ter acesso barato aos recursos; segundo, eventualmente, para colocar uma cunha entre Rússia e China.
Quanto a Kasparov, eu que o sigo nas redes sociais, devo dizer-lhe que a nível político não tem qualquer credibilidade. É respeitado pelo xadrezista que foi, mas enquanto político, coitado, faz uma oposição mesquinha a Putin a quem ninguém liga pevide (talvez por isso o Expresso lhe dar palanque). Saudações
Faço minhas as palavras de Carlos Antunes, mas lá vamos contando com "A Arte da Guerra" e com o blogue.
O tiro foi mais no próprio pé do que no porta-aviões chinês, como disse jj.amarante e como explica o editorial do The Economist de hoje. O que parece certo é que estas medidas serão prejudiciais para todos e não beneficiarão ninguém.
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