domingo, 19 de agosto de 2018

Um diplomata do bem

Era um homem que projetava serenidade. Kofi Annan, que agora desaparece, tinha uma postura e um leve e constante sorriso que logo criavam um excelente ambiente para as conversas que tinha com os seus interlocutores. Quando nos falava, olhando-nos sempre nos olhos, transmitia confiança e inspirava seriedade. Recordo bem a primeira conversa que com ele tive, comigo acabado de chegar a Nova Iorque, em 2001. Falou-me logo de Timor e, com simpatia, dos seus interlocutores portugueses nesse processo: Jorge Sampaio, António Guterres e Jaime Gama.

A diplomacia portuguesa e a coerência da nossa política externa mereciam grande respeito a Kofi Annan, que tinha mantido uma forte relação de amizade com o meu antecessor, António Monteiro, a qual tinha sido muito importante para todo o delicado processo timorense, em especial ao tempo em que Portugal integrou o Conselho de Segurança. Devo-lhe também, pessoalmente, algumas atitudes de forte simpatia, que nunca esquecerei.

Quando assumi funções na ONU, em 2001, a principal questão que se nos colocava era garantir, por parte dos cinco membros permanentes daquele Conselho, o financiamento com vista a manter em Timor-Leste as forças militares que acompanhavam o processo de transição. Annan era um “aliado” nosso nesse esforço.

A “arte” de qualquer secretário-geral da ONU é conseguir levar à prática a agenda na base da qual foi escolhido, e a que depois dá substância e coerência no cargo, conseguindo para ela o apoio do Conselho de Segurança. Se este último apoio falhar, em especial por parte dos cinco membros permanentes, o trabalho do SG fica totalmente comprometido. Kofi Annan cedo percebeu que o êxito da independência de Timor-Leste dependia da eficácia que só o completo acompanhamento internacional do processo poderia assegurar. Sérgio Vieira de Mello era o seu homem no terreno e, com Portugal e alguns outros parceiros “like-minded”, ele soube criar as condições para, com realismo e sentido da medida, assegurar esse apoio. 

Annan viveu tempos muito diferentes à frente da ONU. Com Richard Hallbrook como representante na ONU da administração Clinton, Annan foi capaz de transmitir à organização o dinamismo e a esperança que se consubstanciaram na Cimeira do Milénio. A chegada de George W. Bush à Casa Branca representou uma completa reversão na atitude americana, que iria ter o seu auge na invasão do Iraque, sem mandato internacional - um desafio à legitimidade que a própria ONU representava.

Kofi Annan foi um arauto do multilateralismo e um promotor da paz global. Não por acaso, foi-lhe atribuído o Prémio Nobel, simbolizando a confiança que o mundo depositava naquele que foi o primeiro secretário-geral de origem africana da organização.

Com a desaparição de Kofi Annan, Portugal perde um grande amigo na cena internacional. Uma grande figura de bem, um excelente diplomata, um homem de boa vontade a quem a paz e a segurança internacional muito ficam a dever.

2 comentários:

A Nossa Travessa disse...

Meu caro Franciscamigo

No meio da confusão em que vivemos quotidianamente venho hoje aqui só para te dizer duas coisas:

a) Tive o privilégio e a honra de conhecer bastante bem Kofi Annan antes, durante e depois de ter sido secretário-geral da ONU. Posso dizer que ficámos verdadeiros amigos. Como também conheci relativamente bem Aretha Franklin em quatro dias estou de luto carregado.

Um destes dias será a minha vez e então não sei se serei capaz e terei tempo de dizer como o Vasco Santana antes de falecer. Foi o meu xará Henrique que me contou a cena. O Ribeirinho foi ver o Vasco na véspera da morte dele. O quarto estava com as cortinas corridas portanto na semi-obscuridade.

E o Ribeirinho perguntou: "Então Vasco, como vais?" E ele: De preto e de sapatos de polimento.

b) E lá nos vamos safando e o Nani dando um ar, ou melhor dois ares da sua graça!

Um abração deste teu amigo e admirador
Henrique, o Leãozão

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Boutros Ghali foi secretário-geral da ONU antes de KOffi Annan. O primeiro era egipcio, o segundo ganês.
Não entendo portanto quando diz "naquele que foi o primeiro secretário-geral de origem africana da organização".
Penalizo-me por qualquer ignorância da minha parte. Mas a não ser assim, também para si só as pessoas de pele negra têm origem africana?

Cumprimentos,
Fátima Silva