Imagino que a idade - e, neste caso, a minha - possa contribuir bastante para o modo como cada um “sofreu” a recente onda de calor. Devo dizer, com a maior sinceridade, que, a certo passo, comecei a preocupar-me sobre se aquilo por que estávamos a passar era compatível com a vida corrente de um país como o nosso, com a nossa situação geográfica, com a nossa pobreza relativa. Um país onde, por exemplo, o ar condicionado não é ainda, infelizmente, um bem comum muito difundido, em que os hospitais e centros de atendimento em matéria de saúde são o que são, em que de há muito se instalou uma visível “orfandade”, em que o cidadão olha para o Estado, e para a palavra deste, com alguma falta de confiança. Parece que isso agora se atenuou ou passou, que o clima “apanhou juízo”, pelo menos até ao dia em que algo de similar volte a passar-se de novo. E é isso que temo: que situações como a que vivemos nestes últimos três dias possam voltar a ocorrer no futuro e que não tenhamos aprendido a lição de que, como diria Dilan, os tempos estão a mudar. É que isso implica planos ativos de prevenção em caso de futuras ondas de calor, medidas de adaptação habitacional para contrariar os efeitos dessa inevitável deriva, educação maciça sobre os modelos de comportamento pessoal a adotar em casos futuros, etc. Um bom instrumento para nos “ajudar” a preocuparmo-nos seria a rápida divulgação de estatísticas fiáveis sobre as mortes “em excesso”, para os valores normais, que possam ter sido derivadas desta conjuntura. A boa notícia é que corre lá fora um simpático “fresquinho”. E, como dizia há pouco um amigo com gosto para o exagero, com ele até já parece setembro...