domingo, 5 de agosto de 2018

Miguel Chalbert


O Luis Gomes de Abreu, que o tempo já levou, falou-nos um dia de um colega e amigo, como ele também arquiteto, que estava a trabalhar em Angola. O nome dele era Miguel Chalbert.

Eu estava então colocado na embaixada em Luanda, mas nunca me tinha cruzado com ele por lá. Numa vinda a Lisboa, a mulher do tal Miguel, a Filomena, foi-nos apresentada e pediu-nos se podíamos levar ao marido já não sei bem o quê. Da conversa, recolhi a impressão de que ele estava desencantado e infeliz no seu “exílio” angolano. E fiz um retrato mental da personagem: um lingrinhas enfezado, deprimido e macambúzio, um imenso chato, perfil comum de alguns expatriados lusos que paravam por Luanda, à cata dos Kwanzas convertíveis nos então Escudos, que faziam o seu possível contentamento. Por isso, apiedámo-nos do amigo do amigo e levámos a encomenda, seguramente umas vitualhas para acalentar a boca, porque Luanda era então um imenso supermercado “do nada”.

Pouco depois, mandámos recado ao tal “solitário” Miguel Chalbert, convidando-o para jantar. Quando abrimos a porta, chegou-nos um gorducho bem disposto, ótima onda, humor de primeira, com uma gargalhada magnífica, grandes histórias, um companheirão, que passou a ser “peça” indispensável nos fins de semana no Mussulo e em Cabo Ledo, e nos jantares “soltos“ do pessoal da embaixada - pdo António Pinto da França ao Fernando Andresen Guimarães e ao Zé Stichini Vilela, com a Élia Rodrigues à inevitável mistura. E que foi também “adotado” pelo Vasco Correia Mendes, para as noitadas incontáveis da casa dos “Guedais”. 

Ouvir da boca do Miguel os episódios da guerra da Guiné - onde tinha tido um colega que, num grupo que fora a Alemanha e onde ele era “o único que falava alemão”, berrava aos colegas, na travessia das passadeiras “Atchung!”, versão lusa do “Achtung!” - era garantia de excelente companhia, de horas bem passadas, bem comidas e bem bebidas. A estucha que Luanda podia ter sido, nesses anos de recolher obrigatório e prateleiras vazias, acabou por se transformar, também muito graças ao Miguel, num tempo divertido, rico, de muito boa memória.

Falo agora do Miguel, porquê? Ora bem, porque a Filomena, a Mena, que também ficou muito nossa aniga, anunciou hoje no Facebook que o Miguel faz 75 anos. De lá roubei esta fotografia dos dois. 

A vida, nos últimos anos, tem pregado ao Miguel algumas partidas chatotas, mas tenho a certeza de que a sua inseparável gargalhada vai hoje ajudar a compor o dia festivo. Um imenso abraço para ti, “Miguelaço”, como cá na família, como sabes, és também conhecido.

1 comentário:

Anónimo disse...

Cadê a fotografia?...