Olha-se para as duas “news magazines” que saem à quinta-feira e nota-se claramente que se “policiam” uma à outra, em matéria de temas. Como ambas já perceberam quem as compra, a sociologia empírica de quem as organiza segue uma lógica compatível com os potenciais interesses de consumo desses extratos sócio-económicos.
Tudo normal e, sejamos justos, o resultado é jornalisticamente bastante apreciável, se comparado com produtos similares estrangeiros - embora apenas se dermos por adquirido que a deriva para temáticas mais “light” é uma coisa inevitável nos tempos que correm.
Com Sócrates fora da prisão a ficar fora de moda (e que belo filão que ele foi, por alguns anos!), deu imenso jeito que o processo tivesse derivado para os Espírito Santo - porque isso misturava, no imaginário do leitor, negociatas, crimes, inveja, glamour social e, claro, Comporta. E quem diz Comporta diz Alentejo, diz praias, restaurantes e “dicas” para “escapadinhas” (termo que ganhou dignidade familiar, depois de décadas em que significou apenas infidelidade hábil ao serralho), agora que o Algarve já está um tanto “démodé” e as coisas com um toque de rústico têm outro charme (o tal “brincar aos pobrezinhos”, frase de uma senhora que, sem o saber, passou a clássico).
Esta semana, imagino o que deva ter sido o sufoco pelas redações da “Sábado” e da “Visão” - e não só devido ao calor. Os tremendistas devem ter puxado por lá pelo destaque de capa ao fogo em Monchique, mas nota-se, claramente, que, em ambas as revistas, ele perderam a luta interna em favor da agenda da rapaziada do “bem-estar”. No fundo, foi a vitória do “mon chic” sobre Monchique! É que o “numerozinho” de Verão alentejano que estava há muito preparado para sair, nesta semana sempre gloriosa de agosto, ou “entrava” agora ou já não ia a tempo. E lá se ia a enxurrada de casas de dormidas e de restaurantes que agora fazem parte obrigatória destes “Time Out” rural, em que os semanários se converteram.
Mas é ou não verdade que essa informação “dá jeito” para quem viaja ou anda de férias? Claro que sim, e eu próprio não a dispenso, embora reconheça que, neste domínio, são-nos dados mais endereços do que verdadeira informação. É que as casas divulgadas são sempre “confortáveis”, ”serenas”, com uma piscina “para refrescar o fim das tardes” e os imensos restaurantes aparecem regularmente edulcorados pela positiva - nos pratos, na variedade ou no serviço.
Ora o que eu, como regular leitor (e sou dos que compram ambas as revistas, sem falhas, desde os seus “número um”), gostaria de poder obter era uma apreciação relativa, notas sobre não só sobre o que se destaca, mas também sobre as deficiências e limitações de cada local, de dormida ou comida, enfim, algo que me ajude a escolher. Mas como, afinal, ali “tudo é bom”, quase sem falhas, estas revistas acabam por se parecer como o volume que o “Expresso” edita todos os anos, o “Boa Cama, Boa Mesa”, onde se misturam alhos com bugalhos, coisas excelente com locais sofríveis, num reino de adjetivação gongórica que não serve minimamente o utente, exceto para obter o número de telefone e para lembrar um nome qualquer num lugarejo.
Mesmo assim, boas férias! Ah! E querem saber?, comi ontem muito bem no “Museu do Arroz”, na Comporta! Descansem que, um destes dias, digo por onde, nesta geografia, se come menos bem, onde o serviço é medíocre, o ambiente menos agradável.