quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Boa cama? Boa mesa?

Olha-se para as duas “news magazines” que saem à quinta-feira e nota-se claramente que se “policiam” uma à outra, em matéria de temas. Como ambas já perceberam quem as compra, a sociologia empírica de quem as organiza segue uma lógica compatível com os potenciais interesses de consumo desses extratos sócio-económicos. 

Tudo normal e, sejamos justos, o resultado é jornalisticamente bastante apreciável, se comparado com produtos similares estrangeiros - embora apenas se dermos por adquirido que a deriva para temáticas mais “light” é uma coisa inevitável nos tempos que correm.

Com Sócrates fora da prisão a ficar fora de moda (e que belo filão que ele foi, por alguns anos!), deu imenso jeito que o processo tivesse derivado para os Espírito Santo - porque isso misturava, no imaginário do leitor, negociatas, crimes, inveja, glamour social e, claro, Comporta. E quem diz Comporta diz Alentejo, diz praias, restaurantes e “dicas” para “escapadinhas” (termo que ganhou dignidade familiar, depois de décadas em que significou apenas infidelidade hábil ao serralho), agora que o Algarve já está um tanto “démodé” e as coisas com um toque de rústico têm outro charme (o tal “brincar aos pobrezinhos”, frase de uma senhora que, sem o saber, passou a clássico).

Esta semana, imagino o que deva ter sido o sufoco pelas redações da “Sábado” e da “Visão” - e não só devido ao calor. Os tremendistas devem ter puxado por lá pelo destaque de capa ao fogo em Monchique, mas nota-se, claramente, que, em ambas as revistas, ele perderam a luta interna em favor da agenda da rapaziada do “bem-estar”. No fundo, foi a vitória do “mon chic” sobre Monchique! É que o “numerozinho” de Verão alentejano que estava há muito preparado para sair, nesta semana sempre gloriosa de agosto, ou “entrava” agora ou já não ia a tempo. E lá se ia a enxurrada de casas de dormidas e de restaurantes que agora fazem parte obrigatória destes “Time Out” rural, em que os semanários se converteram.

Mas é ou não verdade que essa informação “dá jeito” para quem viaja ou anda de férias? Claro que sim, e eu próprio não a dispenso, embora reconheça que, neste domínio, são-nos dados mais endereços do que verdadeira informação. É que as casas divulgadas são sempre “confortáveis”, ”serenas”, com uma piscina “para refrescar o fim das tardes” e os imensos restaurantes aparecem regularmente edulcorados pela positiva - nos pratos, na variedade ou no serviço. 

Ora o que eu, como regular leitor (e sou dos que compram ambas as revistas, sem falhas, desde os seus “número um”), gostaria de poder obter era uma apreciação relativa, notas sobre não só sobre o que se destaca, mas também sobre as deficiências e limitações de cada local, de dormida ou comida, enfim, algo que me ajude a escolher. Mas como, afinal, ali “tudo é bom”, quase sem falhas, estas revistas acabam por se parecer como o volume que o “Expresso” edita todos os anos, o “Boa Cama, Boa Mesa”, onde se misturam alhos com bugalhos, coisas excelente com locais sofríveis, num reino de adjetivação gongórica que não serve minimamente o utente, exceto para obter o número de telefone e para lembrar um nome qualquer num lugarejo.

Mesmo assim, boas férias! Ah! E querem saber?, comi ontem muito bem no “Museu do Arroz”, na Comporta! Descansem que, um destes dias, digo por onde, nesta geografia, se come menos bem, onde o serviço é medíocre, o ambiente menos agradável.

6 comentários:

Anónimo disse...

Quanto a comidas sempre ouvi dizer:
Ainda no tempo em que não havia a massificação de restaurantes como os há hoje, ao avaliar o que se comia em casa de cada um, num dia não de festa, esperava-se para uma segunda ida para nos pronunciar. Ele há dias assim e há dias assado. Também se tinha de ver o equilibrio da ementa para não pesar muito e para avaliar as ligações entre os pratos.

Agora para os restaurantes podíamos fazer o mesmo. Perceber se foi o dia certo para lá ir. Perceber se o restaurante com menos gente poderia ter um serviço mais atento etc. etc.
Quanto aos pratos deve-se ter em conta os restaurante que qpenas querem encher a barriga ao cliente ou querem fazer uma sucessão de pratos que se completem no paladar especifico de cada um. Ainda me recordo, quando novo ouvir alguns Chefe de mesas declarar que a sucessão de pratos que eu tinha escolhido podia não se misturar bem na barriga. Reqiuintes hoje impensáveis como um whiskey antes do almoço e começar o almoço com ostras.....Etc. etc.
Quem é que aceita uma espera mais longa entre dois pratos? Niguém e poderiam até apreciar em virtude dos sabores dos dois pratos serem incompantíveis sem um "entremês" fosse ele um sorvete de limão.
Mas são gostos.

Luís Lavoura disse...

um destes dias, digo por onde, nesta geografia, se come menos bem, onde o serviço é medíocre, o ambiente menos agradável

O Francisco já uma vez disse num post que se recusa a dizer mal de um qualquer restaurante, porque isso seria pôr em causa a viabilidade de uma empresa e dos seus trabalhadores.
Ora, se o Francisco se recusa a fazer tal coisa, então é óbvio que nunca nos informará por onde, nesta geografia, se come menos bem, onde o serviço é medíocre, o ambiente menos agradável.

Mais, se o Francisco se recusa a fazer tal coisa, então deve aceitar e aplaudir que outros, nomeadamente revistas, façam a mesma coisa. Também as revistas, ao fim e ao cabo, não querem pôr em causa a viabilidade de empresas e os postos de trabalho dos seus funcionários.

Em suma, vivemos num mundo de socialistas - o Francisco e as revistas - em que tudo é perfeito, todos os bens de consumo são mais ou menos ótimos, todos os consumidores estão perto de felizes e todos os trabalhadores podem continuar a trabalhar nas suas empresas. Mais ou menos como na ex-URSS.

Maria Isabel Q. disse...

Há muita coisa que a doença oncológica e as finanças periclitantes me trouxe, entre elas ver a vida com outros olhos e a cozinhar as minhas refeições com qualidade.

Ana Vasconcelos disse...

As revistas dão algum jeito para alertar para a existência desses locais, mas sites como o Tripadvisor são muito mais úteis para depois decidir se vale a pena ou não lá ir. Dou-lhes suficiente valor para ter como princípio contribuir de volta com a minha opinião.

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Ana Vasconcelos. Tudo menos o Tripadvisor, que é uma plataforma falsa, onde cada um escreve o que lhe apetece, mesmo sem ter estado nos locais. São conhecidos os casos de restaurantes promovidos por um intenso número de comentários de gente amiga e de outros destruídos pelos adversários. NUNCA confio no Tripadvisor, que aliás, como é sabido, já incluiu restaurantes, sobre os quais foram feitos comentários elogiosos ou depreciativos e que, no fim de contas, veio a provar-se... que não existiam!

Ana Vasconcelos disse...

Caro Embaixador Seixas da Costa, o TripAdvisor tem tudo o que refere, mas também tem muitas avaliações genuínas e informativas. As melhores são mais detalhadas, mais factuais e menos adjectivadas do que o comum. Para os locais com centenas de reviews é relativamente fácil ficar com uma ideia do consenso e do que peca por exagero para um lado ou para o outro. Mas, na verdade, cruzando informação de fontes diversas, poucas coisas batem a chamada ‘word of mouth’ e a nossa própria experiência.