sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Loureiro dos Santos


Um dia, nos tempos em coincidimos numa aventura de aconselhamento universitário, em conversa com o meu saudoso chefe da “tropa”, o general Gabriel do Espírito Santo, vieram à baila nomes dos tempos do “verão quente” de 1975. Embora tivessem decorrido algumas décadas, o impacto desses dias comuns mantinha em nós fortes impressões sobre algumas figuras, embora nem sempre coincidentes. Ele conhecia-as mais de perto, eu tinha criado uma visão mais ligeira, feita nos corredores e nos episódios vividos no seio do MFA, por onde tinha “passarinhado” como civil fardado. 

Recordo-me de lhe ter então dito que tinha pena de não ter conhecido bem o general Loureiro dos Santos, de quem tinha uma excelente opinião, em especial depois de ter lido algumas reflexões teóricas que ele vinha a fazer sobre estratégia e política de defesa. Os olhos do “meu general” arregalaram-se: “O Loureiro dos Santos?! Ó homem! Esse é o melhor de todos nós!”

Luisa Meireles, uma jornalista cujo rigor, infelizmente, começa a ser muito raro na nossa imprensa, acaba de publicar uma excelente biografia de Loureiro dos Santos. Li-a de um trago. E através dela pude “recortar”(utilizando uma expressão do léxico das “informações”, que aprendi com Espírito Santo) a figura de Loureiro dos Santos, percebendo assim, não apenas as razões de algum do seu comportamento naqueles tempos revolucionários mas, principalmente, esclarecendo as motivações do seu posterior envolvimento governativo e em funções de chefia militar.

Loureiro dos Santos nunca foi verdadeiramente um político, mesmo quando exerceu funções dessa natureza. Percebe-se bem por este livro que foi sempre um militar, fiel às determinantes de uma condição que, para ele, foi muito menos uma profissão e muito mais uma vocação, um empenho quase obsessivo numa certa forma de ser servidor público. Pelo que a biografia de Luisa Meireles agora nos traz, confirmando o que dele já se conhecia, pode mesmo imaginar-se alguma angústia que o terá atravessado, nesses dias de abril, obrigado ao dever cívico da revolta contra o respeito hierárquico em que fora educado. Este livro ajuda-nos a entender bem que o 25 de abril não foi apenas, contrariamente à perceção comum, uma Revolução “de esquerda”. Foi também, para gente conservadora e patriótica como Loureiro dos Santos, uma revolta essencialmente ética e democrática. Sem gente como ele e como Ramalho Eanes, no seio do MFA, pergunto-me hoje se poderíamos ter escapado então a uma guerra civil.

7 comentários:

Anónimo disse...

que belo comentario final.

Joaquim de Freitas disse...

Conheci mal e de longe a acção de Ramalho Eanes. Mas ficou na minha memória como aquele que permitiu a vitória de Cavaco Silva, apesar de um dos piores resultados do PSD (29%). Com as consequências desastrosas da governação de Cavaco cujos efeitos se fazem ainda sentir hoje em Portugal.

“não foi apenas, contrariamente à percepção comum, uma Revolução “de esquerda”. Foi também, para gente conservadora e patriótica como Loureiro dos Santos, uma revolta essencialmente ética e democrática.”

“ética e democrática”, certo , mas que não resolveu os problemas de fundo da sociedade portuguesa, Senhor Embaixador. Portugal continua classificado na cauda da Europa e os seus filhos continuam a ser obrigados a emigrar para viver dignamente.

E talvez mais que nunca a presa duma corrupção desenfreada, que permitiu a alguns de fazer desaparecer milhares de milhões dos dinheiros comunitários, a banqueiros de roubar descaradamente os emigrantes. Mesmo as dádivas para os desgraçados de Pedrógão…

“Sem gente como ele e como Ramalho Eanes, no seio do MFA, pergunto-me hoje se poderíamos ter escapado então a uma guerra civil” Ninguém pode provar que as reformas da Revolução, previstas, dariam numa guerra civil. Mas era mais fácil anular as reformas que implementá-las. Isso sim. .

Se Lincoln quisesse “economizar” a guerra civil americana, a escravatura seria ainda hoje legal nos EUA.

Anónimo disse...

E em que lado esclarecido estaria o embaixador?

Jose Correia disse...

Fique esclarecido "definitivamente":

-,O 25A,foi uma reivindicação corporativa !!!

Capitães Q.P. vs Capitães Milicianos.
E tem a sua génese no decreto lei 353/73 -General Horácio Sá Viana Rebêlo.

O resto é conversa da treta !!!

Anónimo disse...

Guerra civil ainda era o menos.

Este país não tinha uma dimensão geográfica para se poder ter uma guerra civil nessa altura.
No tempo dos liberais ainda se podia, pois as comunicações eram muito complicadas mas depois disso com os caminhos de ferro Portugal ficou mais pequeno tal como agora com as auto-estradas.

O pior que nos podia ter acontecido era que a Europa nos tivesse deixado cair e...... ficarmos uma espécie de Cuba da Europa.

Mas quem por cá andava sabia que não era possível o PREC durar muito mais tempo do que durou. Enquanto houve dinheiro, anteriormente acumulado, mais os capitais dos imigrantes, ainda cantámos de galo; depois quando se viu o fundo ao tacho......
Oh da guarda venha a Europa para nos tirar o pé da lama e aceitámos o inaceitável.

dor em baixa disse...

Foi exatamente nesses termos que o Almirante Vítor Crespo colocou a sua participação no levantamento, conforme ouvi numa longa entrevista que concedeu à Antena 2 quando dos 40 anos do evento.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao anónimo dos 15:15. Não tenha a menor dúvida: estava então contra a linha de Loureiro dos Santos, do lado revolucionário. Sempre o disse. Tinha dúvidas?