Há um mundo de "não ditos" na relação entre os povos, nas mútuas perceções. Neste tempo de emoções coletivas fortes, que o futebol proporciona, alguns sentem-se legitimados para deixar escapar aquilo que lhes vai no fundo da alma, da mesma forma que o empolgamento de uma bancada permite exprimir a muitos aquilo que, com serenidade, nunca diriam.
Na nossa vida diária, nunca dizemos "tudo" aos outros, tudo aquilo que deles pensamos, com o objetivo de salvaguardar o essencial, que é a relação pessoal. Por isso, e até por vício profissional, sempre entendi que, no tocante aos países estrangeiros e ao que deles pensamos (naquele redutor e caricatural "eles"), há que procurar manter alguma contenção, embora perceba que este tempo de "pátria em chuteiras" não ajude muito a isso.
Centenas de milhares de cidadãos portugueses vão continuar a viver em França, depois de segunda-feira, independentemente do que vier a passar-se no domingo. Muitos terão, nas suas famílias e nos seus amigos, quem esteja muito dividido ou quem seja ferrenhamente por um dos lados. Espero, com sinceridade, que as tensões destes dias, os exageros verbais de parte a parte, não acabem por ter um efeito negativo no quadro de relacionamento entre muitos franceses e outros tantos portugueses que vivem em França. Seja lá isso o que for, na realidade dos factos, para além da mútua retórica.