Custa-me ter dizer isto, mas eu percebo muito bem Wolfgang
Schauble!
Quando, há dois dias, observei o coro ofendido de vozes
lusitanas a adjetivar de insultos, por vezes soezes, o ministro das Finanças
alemão, tive um sentimento de compreensão pela atitude daquela figura, que, com
determinação germânica, teve a coragem de apontar, com dedo disciplinador, o
rumo que entendia melhor para esse relapso país do Sul que nós somos. Um Estado
que se permite, de forma que ele lê como absolutamente irresponsável e
irracional, colocar no terreno algumas políticas que abertamente contrariam a
lógica que ele, e quantos pensam como ele – muito em especial, neste
respeitável jornal que tão generosamente me acolhe no seu seio -, acarinham as
ideias que ele perfilha, para bem da estabilidade da Europa, da sanidade das
suas políticas públicas, das “contas certas” de quantos pensam que, se se quer
pertencer a um “clube”, se deve subscrever, custe o que lhes custar, as regras
que se assinaram.
Não sou alemão, mas percebo-os muito bem. Os leitores não necessitam
sequer de ir a um atlas para se darem conta do que mudou, nos últimos anos, no
panorama de segurança do continente. Basta que recuem até ao fim da Guerra
Fria, que olhem para a Alemanha desse tempo, pelo meio da qual passava então a
fronteira entre o mundo democrático e a Europa autoritária de Leste, tutelada
por Moscovo. Pela RFA desses tempos passava a “cortina de ferro” (para utilizar
a expressão forte de Churchill, no discurso de Fulton), a senhora Merkel gozava
então as delícias frugais de ser uma jovem “pioneira” na RDA, os pacifistas
estavam a Oeste e mísseis a Leste, como lembrava Mitterrand. Depois, a URSS
implodiu, económica e politicamente, e Reagan e um papa amigo ganharam essa
guerra sem necessidade de disparar um tiro. A União Europeia e a NATO
limitaram-se a integrar institucionalmente essa nova realidade, como a América
indicou que seria a coisa mais sensata a fazer.
Olhem agora, caros leitores, para a Europa de hoje: a
Alemanha está, de novo, centrada em Berlim. Entre as suas fronteiras e as da
Rússia, sucessora da URSS, há uma “buffer zone” de segurança que lhe confere
uma centralidade única. Até se pode permitir adubar as pulsões traumáticas
dessa “nova Europa”, criada a Leste pelos alargamentos, esse mundo de aventuras
de proselitismo democrático ocidental por terras georgianas e ucranianas, suportado
por dinheiros de Bruxelas.
Agora, os britânicos avisam que querem sair da Europa. Em
Berlim, passado o primeiro momento de espanto, fazem-se as contas. Que tal
recompor, sob a tutela germânica, o “núcleo duro”, agora que Londres desaparece
como constante ameaça da afirmação soberanista? A França está em frangalhos,
com Hollande a não ser levado a sério por ninguém. A Itália, numa crise só disfarçada
pelos esgares de Renzi, é hoje um “joke” na equação europeia. O Benelux é o
Benelux, isto é, uma periferia alemã sem identidade e prestígio, desejosa de
ser cooptada para um futuro onde possa sobreviver, com bicicletas e bem-estar.
Fora dos “seis”, a Espanha e a Polónia não contam, pelas diferenciadas
fragilidades que conjunturalmente atravessam.
A Eurozona tutelada por Berlim é, assim, o “core” do futuro.
Todo? Não. Expurgado dos relapsos, Grécia e Portugal, num tempo em que as
aritméticas políticas retiraram do poder os obedientes amigos locais de Berlim.
Fazê-los cair, agravar os sinais que os mercados possam ler como
desestabilizantes, fará com que Lisboa e Atenas abandonem progressivamente o mundo
“puro” do regenerado euro. Às tantas, até nos podemos dar ao luxo de fazer um “haircut”
compensatório na sua dívida, para atenuar o seu “phasing out” do clube, deve
estar a pensar Schauble. Como eu o compreendo!
