Um dos consensos entre nós teoricamente mais estimado nas
grandes questões de Estado prende-se com a política externa e de defesa. O
Portugal democrático revelou que as opções centrais em matéria desse espetro de
relações internacionais do país – Europa, lusofonia e diáspora, relação
transatlântica e NATO – constituem um corpo de prioridades que colhe um apoio maioritário
dentre as forças políticas com representação parlamentar.
Por alguns anos o CDS/PP “foi ali e já veio” em matéria de
política europeia, flirtando o soberanismo. O PCP, herdeiro do alinhamento
soviético, mantém o natural ódio de estimação à NATO, tendo-se aculturado
criticamente à União Europeia, com a entrada no euro nunca devidamente digerida.
O Bloco alimenta uma agenda de coloridas reticências, refletindo o que for
popular e ecoe nos potenciais votantes, embora as mais das vezes acabe próximo
das posições dos comunistas – com a relação com Angola como uma flagrante
diferença.
Na prática, contudo, os grandes consensos revelam algumas
falhas. Basta lembrar que, no tocante à política europeia, onde se porfiou por
muito tempo para garantir uma forte atitude nacional comum, o último quinquénio
fez emergir uma polémica governação que se furtou a todos os entendimentos que
não significassem um mero “ámen” às suas muito discutíveis opções, aliás com a notória
cumplicidade do chefe de Estado de então.
Um outro tempo houve também em que PSD/CDS não cuidaram em
preservar a unidade de ação com os socialistas, numa vertente tão importante para
Portugal como é a política transatlântica. Estou-me a referir à irresponsável
colagem de Portugal, simbolizada pela organização da famigerada “cimeira da
Lajes”, àqueles países que, sem mandato internacional legitimador, decidiram em
2003, sob impulso americano, atacar o Iraque, lançando as sementes de toda a
tragédia que desde então inflama o Médio Oriente, levando ao caos sem fim e à morte
de centenas de milhares de pessoas.
Por estes dias, foi publicado em Londres o relatório
Chilcot, que demonstra que a mentira das “armas de destruição maciça” foi
utilizada, com total má-fé, pelo governo de Tony Blair, para justificar a participação
na agressão. Estranho muito não ver por cá questionado que foi precisamente com
base nas mesmas “evidências” que o governo PSD/CDS de então arrastou Portugal
para essa vergonhosa opção seguidista com a administração Bush, rompendo sem o
menor pudor o consenso interpartidário, numa área tão importante para a imagem
do país. No Reino Unido, Blair é hoje quase unanimemente condenado. E por cá?
Será que toda a gente esqueceu já os nomes de quem, sobre o mesmo assunto,
mentiu então descaradamente aos portugueses?
