sexta-feira, julho 08, 2016

Consensos externos



Um dos consensos entre nós teoricamente mais estimado nas grandes questões de Estado prende-se com a política externa e de defesa. O Portugal democrático revelou que as opções centrais em matéria desse espetro de relações internacionais do país – Europa, lusofonia e diáspora, relação transatlântica e NATO – constituem um corpo de prioridades que colhe um apoio maioritário dentre as forças políticas com representação parlamentar.

Por alguns anos o CDS/PP “foi ali e já veio” em matéria de política europeia, flirtando o soberanismo. O PCP, herdeiro do alinhamento soviético, mantém o natural ódio de estimação à NATO, tendo-se aculturado criticamente à União Europeia, com a entrada no euro nunca devidamente digerida. O Bloco alimenta uma agenda de coloridas reticências, refletindo o que for popular e ecoe nos potenciais votantes, embora as mais das vezes acabe próximo das posições dos comunistas – com a relação com Angola como uma flagrante diferença.

Na prática, contudo, os grandes consensos revelam algumas falhas. Basta lembrar que, no tocante à política europeia, onde se porfiou por muito tempo para garantir uma forte atitude nacional comum, o último quinquénio fez emergir uma polémica governação que se furtou a todos os entendimentos que não significassem um mero “ámen” às suas muito discutíveis opções, aliás com a notória cumplicidade do chefe de Estado de então.

Um outro tempo houve também em que PSD/CDS não cuidaram em preservar a unidade de ação com os socialistas, numa vertente tão importante para Portugal como é a política transatlântica. Estou-me a referir à irresponsável colagem de Portugal, simbolizada pela organização da famigerada “cimeira da Lajes”, àqueles países que, sem mandato internacional legitimador, decidiram em 2003, sob impulso americano, atacar o Iraque, lançando as sementes de toda a tragédia que desde então inflama o Médio Oriente, levando ao caos sem fim e à morte de centenas de milhares de pessoas.

Por estes dias, foi publicado em Londres o relatório Chilcot, que demonstra que a mentira das “armas de destruição maciça” foi utilizada, com total má-fé, pelo governo de Tony Blair, para justificar a participação na agressão. Estranho muito não ver por cá questionado que foi precisamente com base nas mesmas “evidências” que o governo PSD/CDS de então arrastou Portugal para essa vergonhosa opção seguidista com a administração Bush, rompendo sem o menor pudor o consenso interpartidário, numa área tão importante para a imagem do país. No Reino Unido, Blair é hoje quase unanimemente condenado. E por cá? Será que toda a gente esqueceu já os nomes de quem, sobre o mesmo assunto, mentiu então descaradamente aos portugueses?

7 comentários:

  1. O Francisco continua neste texto a singularizar o ataque ao Iraque, esquecendo que a ele se seguiram os ataques à Líbia e à Síria, com consequências tão desastrosas como as do ataque ao Iraque.
    Parece que o Francisco considera que o ataque ao Iraque foi um erro, mas que o ataque à Líbia foi correto e o ataque à Síria também. E isto é um gravíssimo erro em que o Francisco incorre.

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  2. Anónimo11:48

    Deixe o Iraque, pense na gerinçonça,sobre a batuta do Sr.Costa, a caminho, mais uma vez, da bancarrota.

    Tivemos a dupla Sócrates/Teixeira dos Santos continuada agora pela dupla Costa/Centeno

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  3. Sim, sim, sim, ódios de estimação, ou amores de perdição, são maus conselheiros . . .

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  4. realmente há situações deveras interessantes. ontem apetecia-me pisar, até ao esmagamento, o dedo mindinho do pé direito do Luís Lavoura. Hoje, estou 120% de acordo com ele, se não mais.
    Quanto ao MRPP, aplica-se perfeitamente o dito popular; no melhor pano caí a nódoa. no caso vertente deve-se trocar o "no ...cai" por "do ...saí"
    e mais não digo (vontade não falta), porque vou almoçar.

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  5. Contrariamente ao que escreve o Senhor Luis Lavoura, nao creio que o Embaixador « esqueça » os crimes ocidentais, particularmente da NATO e dos EUA, na Líbia e na Síria.

    De qualquer maneira um diplomata não esquece nada! E o mundo inteiro sabe que a cimeira do Açores, a vergonhosa “tramóia” liderada pelo Bush, na qual os outros três comparsas, Aznar, Durão e Blair, se emporcalharam até à medula, e deixaram uma nódoa indelével , a nódoa do sangue de centenas de milhares de mortos, nos países respectivos, e que deviam ser punidos no TI da Haia, vai arrastar - se durante anos e anos, porque as guerras religiosas não se extinguirão tão cedo.

    O único comentário negativo que faria ao texto do senhor Embaixador, é quando escreve que o PCP “mantém o natural ódio de estimação à NATO, tendo-se aculturado criticamente à União Europeia, com a entrada no euro nunca devidamente digerida.”

    Mas que diabo, quem não viu o objectivo da criação da NATO pelos EUA, em 1945, posto hoje bem em evidência com as manobras de intimidação à porta da Rússia? Quem não vê que a PAZ está a ser posta em perigo cada vez maior nestes últimos tempos pela acção dos aprendizes feiticeiros da NATO e da U E? Quantos Europeus crêem hoje na E U e no Euro ?


    E quando escreve: “O Bloco alimenta uma agenda de coloridas reticências, refletindo o que for popular e ecoe nos potenciais votantes”.
    Creio que todos os partidos “ecoam o que agrada “ aos seus votantes. E quando não é o caso, desaparecem na agenda dos votantes!

    A flecha mergulhada no “curare”, enviada aos partidos de governo da direita portuguesa, que se enxovalharam nos assuntos do Iraque e nos outros, e no seguidismo atlântico, e não só, foi perfeitamente enviada.

    No fundo, um excelente texto do Senhor Embaixador.

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  6. Acabo de vir do almoço e em continuação do meu escrito acima acabo de levar um murro no estomago: durão barroso vai ser presidente não-executivo da Goldman Sachs !
    DISGUSTING !
    Será que se quer “limpar” e levar à falência essa organização como conseguiu levar à falência moral a União Europeia.
    Com vergonhas nacionais destas, como é que o meu Amigo Carlinhos me consegue criticar quando eu apoio incondicionalmente o Sr. Donald Trump !?
    when the lack of dignity is at least disgusting !
    é por causa de gente desta que o meu lema é: TRUMP ! TRUMP ! TRUMP ! always TRUMP !

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  7. Um dos principais responsáveis, senão o principal, o senhor Durão Barroso, depois do "prémio" que teve, precisamente pelo apoio à invasão do Iraque, ao ser designado presidente da CE, teve agora outro "premiozinho" pelo seu comportamento, e pelo comportamento que dele se espera, ao ir para presidente da Goldman Sachs. Há muito que se sabe qual o papel deste senhor, mas há quem pareça esquecê-lo, nomeadamente na cobertura dada enquanto presidente da CE às políticas de austeridade, que tanto mal têm feito à UE.

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