A crónica do nosso reino consagrou, em 2004, a subida a S. Bento do então "número dois" do PSD, Santana Lopes, por simples substituição de Durão Barroso, emigrado para Bruxelas.
Devo dizer, em pouco discreta confidência, que a opção acabou por me satisfazer bastante. Por quatro razões cumulativas: o país teve a honra de ver um dos seus na presidência da Comissão Europeia (o que por lá se passou depois já é outra história), vimo-nos livres de um péssimo primeiro-ministro, inaugurámos um governo de "trapalhadas" que nos divertiu por um ano e, finalmente, "the last but not least", isso abriu caminho à recolocação dos socialistas no poder. No que me toca, continuo a pensar que foi um belo "pacote".
Hoje, os britânicos colocaram Theresa May no nº 10 de Downing Street quase da mesma forma. Enquanto, por cá, Jorge Sampaio foi criticado (bem ou mal) pela opção feita, no Reino (cada vez menos) Unido a raínha não tugiu nem mugiu e lá vai ter de aceitar o 13° primeiro-ministro do seu reinado.
Para quem não saiba, o sistema decisório do Partido Conservador britânico tem regras muito próprias. Quem dirige o partido é o grupo parlamentar. É exclusivamente no seio deste que as decisões sobre a liderança são tomadas. O partido, à escala nacional, "não existe" como poder permanente de direção política. Às "constituencies" locais cabe apenas organizar o Congresso anual (sob controlo discreto do "central office") e escolher os deputados, mas estes, depois de eleitos, ficam de mãos livres, embora respondam permanentemente na defesa dos interesses locais, sendo julgados no final do mandato. (Uma curiosidade: muitas "constituencies" conservadoras preferem designar deputados sem ligações locais, para evitar caciquismos: os candidatos às vagas, não importando a sua origem, são-lhes propostos pelo "central office" e depois escolhidos através de um exame oral. É verdade!)
É por virtude dessa dependência parlamentar que, quando a vontade maioritária dos deputados começa a apontar numa determinada direção para a definição da liderança partidária, os contendores potenciais se afastam logo.
Veja-se o que aconteceu a Boris Johnson ou a Michael Gove, os quais, não obstante terem sido os "vencedores" do Brexit, desapareceram quase sem combate. Já assim tinha sido em 1990, quando Michael Heseltine não conseguiu substituir Margareth Thatcher e John Major ascendeu a primeiro-ministro.
Nos tempos mais remotos, estas decisões eram tomadas nos clubes londrinos (onde os deputados da província pernoitavam e os caciques londrinos conciliabulizavam), podendo imaginar-se que as coisas, nos dias de hoje, estejam um pouco mais profissionalizadas.
Mas, enfim, hoje é um dia de "vingança" para Santana Lopes.
