Morreu Michel Rocard, uma das figuras mais brilhantes da esquerda francesa. Foi o criador do PSU (Partido Socialista Unificado) que, para alguns, nos quais me contava, muito inspirou essa aventura improvável que foi o nosso MES (Movimento de Esquerda Socialista).
Rocard teve um percurso interessante na vida política da França. Foi primeiro-ministro de François Mitterrand, que nunca o apreciou e desconfiava imenso da sua evidente ambição. A modernidade e o brilho da suas ideias, onde assentava uma capacidade extraordinária de olhar o futuro, com criatividade e inteligência, chegou a seduzir áreas fora do mundo socialista. Talvez por isso, o rótulo de "Rocard d'Estaing" foi-lhe colocado um dia, de forma crítica, pelos setores do PSF que sempre cuidaram em "fazer-lhe a cama", travando, com sucesso, a sua ascenção ao Eliseu.
Rocard tinha amigos portugueses, entre os quais se contava António Guterres, que muito admirava, como um dia me disse em Estrasburgo, depois de uma intervenção do primeiro-ministro português no plenário, que o deixou entusiasmado. Havia qualquer coisa de comum entre essas duas figuras.
Tive pena de, nos quatro anos que passei na embaixada em Paris, não ter procurado o seu convívio. Nunca me perdoei disso.
