Cada vez mais, na minha vida, opto pelas reações mais simples e automáticas. Um amigo, há minutos, no Chiado, dizia-me que, no cinema, escolhe sempre cadeiras de coxia, para poder sair se o filme lhe não agrada. Há muitos anos que, sempre que posso, procedo de forma idêntica: se não estou a apreciar o que vejo, "desando" logo, vou "à vida", porque já não tenho idade para me aborrecer com histórias que me entediam. Se, na televisão, "zapamos" quando nos não apetece o que estamos a ver, se fechamos, sem cerimónias, um livro que nos não agrada, porque não sair de um filme (ou até de um teatro) a meio? É o que eu faço.
Vem isto a propósito, curiosamente, de um filme que me provocou uma reação contrária. Trata-se do "Os gatos não têm vertigens", de António Pedro de Vasconcelos. Há mais de quatro anos, escrevi neste blogue: "António Pedro de Vasconcelos pertence a uma raça muito rara de cineastas portugueses que conseguem cumular três características: terem indiscutível qualidade, não serem chatos e, seguramente por isso, terem, entre nós, um público que paga para ver as suas obras - essa coisa pouco comum, algo "suspeita" e até menos dignificante, no peculiar mundo da produção cinematográfica lusa".
O filme a que faço referência fez-me passar momentos deliciosos e divertidos. Construído com arte e graça, servido por um conjunto magnífico de atores onde se destaca - e não o digo por uma velha amizade - Maria do Céu Guerra, é uma obra que recomendo vivamente. Por ali estão a Lisboa contemporânea, os tiques da sociedade portuguesa de hoje, o problemas e as figuras de um país cheio de interrogações mas, igualmente, onde ainda é possível descortinar gestos de solidariedade e de generosidade que, afinal, também são belas caraterísticas nossas.
