13 setembro 2014

"Resarko"?

O neologismo é meu. Sarkozy vai voltar, contrariamente aos que o davam como politicamente "morto" na vida política francesa. A sua candidatura à presidência da UMP parece ser uma certeza.

O "ranger de dentes" na direita já se pressente: Alain Juppé pode perder "le dernier metro" para o Eliseu, François Fillon perceberá que a vingança se serve como a "vichyssoise", baronetes ambiciosos como Xavier Bertrand, François Baroin ou Bruno le Maire vão ter de repensar o seu tempo de entrada em cena. O humilhado François Copé sentir-se-á vingado. Imagina-se o sorriso, nem assim bonito, de Nadine Morano, ou bonito mesmo, muito BCBG, de Nathalie Kosciusko-Morizet. Mais amarelo, "très Vieux-Port", será o de Rashida Dati. Emergirá o gozo dos "barbouzes" da "politique politicienne" como Brice Hortefeux ou Christian Estrosi. E imagino que muitos dos meus velhos conhecidos do XVIème e seus arredores sociais vão fazer saltar rolhas no Fouquet's.

O eventual regresso de Nicolas Sarkozy à política francesa, colocando-se como potencial recandidato à presidência em 2017, não será um caminho sem espinhos. Ser líder da oposição, mesmo contra um governo que "está a pedi-las", é um "caminho das pedras", que as surpresas da Justiça francesa podem ainda tornar penoso. Sarkozy é um auto-convencido que o passado provou ser muito dado a erros, por precipitação, deficiente avaliação ou ambição desmesurada. O seu objetivo, para além da dimensão do projeto pessoal, pode vir a ancorar o eleitorado conservador um pouco mais distante de Marine Le Pen - e isso não seria uma má notícia para a França e mesmo para a Europa.

À esquerda, com ou sem Sarkozy, François Hollande já terá perdido as esperanças de reeleição. Para Manuel Valls, que poderá suceder-lhe como candidato apoiado pelo PSF, Sarkozy é um adversário temível, até porque Valls será co-responsável, enquanto primeiro-ministro de Hollande, de tudo quanto Sarkozy vier a combater nos próximos dois anos. E a menos que uma súbita retoma económica caia do céu, não se está a ver como o vento possa mudar. Valls, tal como aconteceu com Michel Rocard noutros tempos, já foi "a esquerda de que a direita gosta" - uma "raça" política que por cá também existe. Mas a direita só gosta dessa "esquerda" quando não pode exercer ela própria o poder. E, com Sarkozy, pode.

Dir-se-á que os franceses, em 2012, mostraram estar "exaustos" da "hiperpresidência" de Sarkozy. Talvez, mas os portugueses, em 1995, já "não podiam" com Cavaco Silva e, mesmo assim, viriam a colocá-lo em Belém, uma década depois. Agora, lembram-se bem; na altura, esqueceram-se. Repito uma banalidade: a memória dos povos é muito curta.