Em 2014, deveríamos estar
a celebrar a passagem de 25 anos sobre o fim do muro de Berlim, símbolo da
Guerra Fria. Ora a verdade é que, pelo contrário, estamos a assistir à rápida reconstituição
de um novo cenário de elevada tensão.
A Guerra Fria havia criado
algumas “regras” na ordem internacional, numa leitura quase comum que ambos os
lados iam aceitando daquilo que Ialta tinha desenhado. Fora desse indizível
consenso, em várias zonas do mundo, onde conflituavam os poderes, continuaram-se
a medir regularmente as forças, com avanços e recuos estratégicos que acabaram
por evoluir de forma muito díspar.
O final da União
Soviética mudou tudo isso e uma apressada revisão estratégica fez desaparecer
quase todas as anteriores “regras”. Do lado ocidental, tudo foi visto como uma
vitória, com maior ou menor exaltação. Do lado de Moscovo, nenhuma alegria foi
partilhada e, pelo contrário, o fim do país foi sentido, pelos russos, como uma
humilhação nacional.
Aproveitando a janela de
oportunidade criada pela fragilidade conjuntural de Moscovo, o Ocidente cuidou em
alargar o seu modelo de segurança e de desenvolvimento a Estados do centro e
leste do continente, na NATO e na União Europeia. Com os EUA como claro “backseat
driver”, os europeus entenderam – e bem – que o acolhimento das novas
democracias nesses “clubes” era, para além de um imperativo estratégico, um
gesto de justiça histórica. Como forma de “compensação”, a Rússia seria cooptada
para modelos de diálogo e cooperação cada vez mais integrados. Até na NATO, que
mudaria de paradigma e que quase já só se preocupava com questões “out of area”.
A UE deixou-se cair num diálogo economicista com Moscovo, descansada na miragem
liberal de que já não pode haver guerras entre países onde se vendem Mac’Donalds.
A ressaca histórica russa
gerou, entretanto, Vladimir Putin, que foi dando iniludíveis sinais da
reconstituição de um modelo autoritário com que o Ocidente fingia poder ir
convivendo. Do lado de cá, os traumas históricos bálticos e polacos, com uma cumplicidade
errática de Berlim, foram influenciando a UE no sentido de “esticar a corda”
com Moscovo. E viu-se então o espetáculo de Bruxelas a estimular, na Ucrânia, o
derrube, por um golpe de Estado, de um presidente que havia sido democraticamente
eleito, como forma a garantir em Kiev um governo favorável à relação
privilegiada com o Ocidente.
A UE já havia sido
complacente no modo inaceitável como as minorias russas foram tratadas nos
Estados bálticos e, de forma irresponsável, nada cuidou em as tentar proteger
na “nova” Ucrânia. O resultado está à vista: deu um pretexto nacionalista a
Putin, para quem um tratado de Direito internacional é uma obra de ficção, e ao
proteger sem limites nem moderação a tática prevalecente em Kiev, colocou-nos agora
na soleira de uma guerra. Para regredirmos 25 anos, já só falta fazer ingressar
a “Ucrânia de Kiev” na NATO.
Texto do artigo que hoje publico no "Diário Económico"
