12 setembro 2014

O pêlo

 
Na minha terra, em Vila Real, havia um "crava" tradicional de tabaco. Diz a lenda que não terá nunca comprado um maço de cigarros. Passava a vida a chatear os amigos, os conhecidos ou ainda menos. Entre outros, tinha um célebre truque. Aproximava-se das pessoas e, com um gesto simpático, olhando para o casaco alheio, dizia: "Olha, tens aí um pêlo!". E, com delicadeza, fazia "de conta" que tirava um cabelo do ombro do casaco do parceiro para, logo de seguida, tentar ganhar uma retribuição ao gesto através de um "tens aí um cigarro?".

Um dia, um dos amigos - o qual, por acaso, é hoje o meu médico de família, em Lisboa -, à viciosa aproximação do truque, e ao ouvi-lo dizer o clássico "tens aí um pêlo!", não foi na conversa e travou-lhe o gesto com um "deixa estar o pêlo!". Ainda hoje, na minha terra, alguns amigos usam a expressão para reagir a gestos de generosidade suspeita.