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quinta-feira, setembro 11, 2014

O dia da América

Precisamente há 13 anos, o extremismo islâmico atacou violentamente a América. Uma confusa leitura do modo como esse mundo estava a ser humilhado pelo ocidente havia criado uma espécie de "internacional" do desespero, que tinha na sua origem remota a injustiça que Israel continuava a infligir, em cumplicidade com esse mesmo ocidente, aos palestinos. Constatou-se que o Afeganistão se havia tornado no santuário privilegiado dessa nova "movida" política radical. O mundo foi plenamente solidário com a tragédia sofrida pelos Estados Unidos e, com assentimento da ONU, montou uma operação para perseguir os culpados, com Bin Laden à cabeça. O foco da "doença" foi assim atacado, pareceu mesmo inicialmente controlado, mas, como muitas vezes acontece, as "metástases" espalharam-se e a maleita ficou fora de controlo. Do Paquistão ao deserto do Saara, passando pelas periferias urbanas de grandes cidades da Europa, um mundo de novos prosélitos "enragés" foi-se criando. Enquanto isso, os EUA, de há muito conhecidos por só tomarem a boa decisão depois de tentarem todas as erradas, acompanhados pelo punhado dos "suspeitos do costume", decidiram atacar, sem mandato legitimador, a ditadura iraquiana, sob um pretexto falso, como que convencidos que iriam por ali criar um tampão geopolítico que sossegasse os seus (petro) amigos do Golfo, aquietando de vez o Irão e assim estabilizando o ritmo dos fluxos energéticos. O erro foi de palmo. Desfeita a tensão laica com que Sadam Hussein forçava a convivência no "melting pot" de um país que fora desenhado no rasto da presença colonial britânica, o Iraque "balcanizou-se" rapidamente, sob um "template" diário de inaudita violência. Com expectável naturalidade, cresceram ao seu lado as ambições regionais do Irão, anteriormente equilibrado pelo vizinho inimigo e, agora, já com uma vontade nuclear que alarmou o ocidente e deixou em pânico as monarquias do Golfo, cuja pusilanimidade e temor religioso, diga-se, muito ajudaram e continuam a ajudar à reprodução da vaga estremista. A revolta da "rua árabe", potenciada pelas redes sociais, chegaria entretanto às ditaduras instaladas, desde há muitos anos, no norte de África e no Mashrek. Uma vez mais, o ocidente "foi na onda". Convencido do mito de que é possível construir democracias "à Suíça" por todo o mundo, fontes de paz e felicidade eterna para os povos e para as almas, qualquer que seja a divindade destas, confundiu pulsões protodemocráticas com prenúncios de estabilidade, desejo de eleições com expetativas de alternância política. E assim assistimos ao que aconteceu no Egito, na Líbia e na Síria, com a Tunísia a ser o menos instável de todos esses modelos, com a Argélia a representar já bem o formato "pós-democrático" que parece vir a ser o destino comum, muitos milhões de dólares e euros em ajudas depois. E muitos mortos, claro. Na desorganização instalada - fortemente potenciada pelo clamoroso erro no Iraque, nunca é demais relembrar - nasceu entretanto uma entidade que se auto-intitulou de "Estado Islâmico" e que se propõe, nada mais nada menos, do que reconstituir pelo terror um patusco "califado" que, a ocidente, iria de Sagres à Galiza. Se isto não fosse trágico, seria motivo para um sorriso. Mas não é. E esse "Estado", servido por uns assassinos barbudos à solta, integrado por uma espécie de "Brigadas Internacionais" em que Maomé faz a vez de Lenine, teve o desplante de degolar dois americanos à vista do mundo e, em particular, sob os olhos horrorizados da América. Obama, no estertor de dois mandatos presidenciais que o fizeram cair da maior esperança da História global recente a uma das suas desilusões mais profundas, de cuja ressaca nos EUA ainda (infelizmente) muito ouviremos falar, achou que tinha de aproveitar esta indignação mediática interna para lançar um gesto de força contra a barbárie. E fez bem. Cioso do simbolismo, anunciou hoje a nova determinação de Washington, que necessita agora de uma "coalition of the willing", precisamente no dia 11 de setembro. Para lembrar o terror novaiorquino que arrasou as "torres gémeas" - eu vivia então por lá, a escassos quilómetros delas - nesse sinistro dia de 2001. Se a América tivesse aprendido com os erros, talvez pudesse entretanto ter feito "mea culpa" por ter sido a instigadora de um outro "11 de setembro", mas esse em 1973, quando deu alento político e financeiro à ditadura militar iniciada nesse dia no Chile, sob a mão criminosa de Pinochet. Mas nem mesmo Obama não consegue fazer tudo, nem sequer o que há uns anos tanto o escandalizava e solenemente prometeu: fechar Guantanamo. Apesar de tudo, porque o ótimo é o pior inimigo do bom, hoje é o dia para estarmos ao lado da América.

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