sábado, abril 13, 2013

A democratização da Economia

A crise e a abundância das "narrativas" sobre ela converteram todos os portugueses em economistas de trazer por casa, num espécie de instantâneas "novas oportunidades" tiradas na "tele-escola". Há um ano, um taxista falava-me, com desembaraço, dos "spreads". Depois, o país acordou na rua a berrar contra uma TSU de que até à véspera desconhecia a existência. Ontem, num café do Porto, o rapaz do balcão perguntava-me se eu achava bem "os gajos só nos darem sete anos nas maturidades".

Isto vai bonito para o pessoal da Economia, vai! A verdade é que, dada a sua brilhante "performance" nestes últimos anos, eles legitimam que cada um possa "mandar bitaites" à vontade sobre a sua "ciência". É bem feito! Estavam mesmo a pedi-las...

14 comentários:

  1. ao menos isso, perdemos num lado, ganhamos no outro (em sabedoria económico-financeira, dará licenciatura?)

    ResponderEliminar
  2. A verdade é que muito do "prestígio" dos economistas provem do uso de palavras "difíceis" com que mascaram conceitos corriqueiros, sobretudo quando falam "em estrangeiro".
    "Spread" e "maturidades" são bons exemplos.
    É bem conhecida a técnica do "latinório" usado para infundir respeito ou temor, do uso das palavras para obscurecer em lugar de esclarecer.
    No dia em que a populaça perceber que o rei vai nu e que o economês é uma gíria e não uma língua, cai o Carmo, a Trindade e a finança.

    ResponderEliminar
  3. Anónimo21:36

    No Porto têm, as famosas "contas à moda..."

    ResponderEliminar
  4. Anónimo22:16

    Este post é um dos mais sábios da notável existência deste blogue.

    A economia e a política. Quem deve comandar?

    Eu sei, mas não digo...

    Saudações rejuvenescidas.

    Guilherme.

    ResponderEliminar
  5. Senhor Embaixador: devo dizer-lhe que já me escasseia a paciencia para ouvir os tais economistas.
    E,ainda, falavam dos juristas.

    ResponderEliminar
  6. E não é bom sinal que as pessoas andem atentas, leiam e ouçam as notícias e conversem a propósito?
    Ou certos temas são apenas para os especialistas e afinal o povo não deva imiscuir-se naquilo que não 'domina'?
    A economia e os sarilhos adjacentes levaram-nos a perceber o mínimo e a sentir necessidade de trocar ideias pela insegurança que sentimos.
    Depois de 74 houve maior acesso à escolarização,pelo que é normal que, com informação livre e diversificada e os problemas a atormentarem-nos a vida, qualquer trabalhador, seja de que profissão for, tenha umas 'luzes' e saiba umas expressões mais esdrúxulas. É que lhe 'mordem' todos os dias e assombram todas as noites. Pelo menos, que lhes conheçamos os nomes...
    Ou não?

    ResponderEliminar
  7. Ó meu caro Francisco que injusto. Isto é apenas a globalização da economia feita pelos politicos comentadores ou pelos comentadores saídos da política
    É verdade que certos economistas não deviam fazer previsões. Nem deviam ir à televisão.
    Mas se assim fosse de que é que se alimentava a política?!

    ResponderEliminar
  8. ""Esses" economistas que se encontram nos cafés ou nos taxis, ainda não sabem exatamente o que esses termos significam. Mas no dia em que se aperceberem das conseqüências que esses termos têm na vida de todos os dias, talvez a reação venha a ser brutal. Mas há outros termos. Existe a palavra "hold-up", por exemplo, da riqueza nacional, que se chifra em milhares de milhões escondidos nos paraísos fiscais ( termo aliciante !) que escapam ao imposto, que as grandes empresas multinacionais pagam uma parte do salário indecente dos dirigentes em contas off shore,( mais um termo ! ) enquanto que os assalariados e a classe média não podem escapar ao imposto. Quando souberem que faltam à chamada em Portugal 42 mil milhões , que não pagaram impostos , "escondidos" nesses paraísos, "exportados" fraudulosamente ! Que só na Suíça "dormem mais de 900 mil milhões que escaparam ao fisco de vários países!
    E agora imaginemos o "tesouro" das Ilhas Caimão, das Bermudas, das Seychelles, de Singapura, do Luxemburgo, de Mônaco, de Jérsei, etc.etc.etc. !!!
    E que ninguém venha explicar-lhes que esta Mega renda de alguns beneficia à libre troca de todos! Este tributo imenso da globalização dos países industrializados e não só, é o sangue daqueles trabalham, que se escoa inexoravelmente.

    No dia em que compreenderem que existe agora uma nova oligarquia, que inclui políticos de todos os bordos e os mandões da economia com quem colaboram, bancos e empresas, solidários entre eles, apesar dos discursos enganadores, que se exoneram das leis comuns, demonstrando todos os dias ao povo que se desinteressam da sua sorte, e que se importam pouco ou nada da sua consideração, exceto do seu voto no momento oportuno, talvez eles reajam doutra maneira.

    Esta gente não tem fila de espera nas urgências dos hospitais, não paga impostos, ou muito pouco, pode mandar os filhos estudar para o estrangeiro, nas melhores escolas privadas, indiferente aos outros, considera-se libre de toda e qualquer obrigação social. A crise enriquece-os ainda mais.


    J. de Freitas

    ResponderEliminar
  9. Não desfazendo no brilhantismo do Mote, os comentários, hum...Idem idem...

    Adorei o comentário de ARD, mas o meu carinho especial e identificação plena vai para a minha querida Maggie.

    Agora Sr. Embaixador está visto que de economista/politico e ou de politico /economista e louco todos temos um pouco...

    Mas não se vá sem resposta veja-se o caso da saúde mental, a área cientifica mais complexa da saúde, mais dificil de investigar dada a subjetividade fenomenológica, de uma diversidade impossivel de extrapolar para comportamentos generalistas, onde as idiosincrasias se veem ao espelho e mesmo assim com margens de erro...E toda mas toda a gente dá bitaites, ó se dá...

    Então como cidadâ gostaria imenso de consultar o atestado de sanidade mental e o certificado de caráter dos comentadores atetados é claro por pessoas crediveis e com licenciaturas Pré Bolonha que atualmente têm correspondêcia direta a doutoramentos pós doutoramentos agregações e cadeiras no podium do senado...

    Lembre-se que nas licenciaturas pré bolonha não era incluido no trabalho dispendido do aluno na aquisição de conhecimento

    ( ou seja os designados créditos[ECTS European Credits Transfer System-Sistema europeu de transferência de créditos] aos quais se convencionou atribuir entre 25 a 30 horas, a cada crédito, e em que se contabiliza o tempo de estudo individual do estudante em conformidade com o tempo em média que leva a apreender o conhecimento, acrescido do tempo que o docente gasta em sala de aula, sendo muitas veses a proporção de 24h dispendidas pelo aluno/discente/ mais adequado Estudante por razões óbvias,para ingerir e metabolizar 4 h de conhecimento debitado pelo docente/professor/orientador pedagógico...)

    e sim só o tempo de banho de assento em sala de aula com o docente a debitar matéria/conteúdos teóricos.

    http://www.dges.mctes.pt/DGES/pt/Estudantes/Processo%20de%20Bolonha/Objectivos/ECTS.

    As licenciaturas pré bolonha são agora os Mestrados ou Doutoramentos( pese embora a maioria não terem tido investigação, o que poderia desvirtuar a conceção de mestre e doutor ).

    Como Sabe Sr. Embaixador tem créditos para gerar Do Seu Pós Doutoramento já Catedrático "UI há Boé"na sua área, a uma chaise long ou bergére (Já tem direito a optar pelo tipo de conforto ) que é como quem diz espreguiçadeira ou cadeirão com reforço lombar e e eleva Pés no pódium do Senado da Sua Universidade...

    ResponderEliminar
  10. Devia ser a isto que alguns dos ilustres membros deste governo se queriam referir quando, no início do mandato, falavam de "democratizar a economia", lembram-se? C'est chose faite...

    ResponderEliminar
  11. FALA DE UM VIAJANTE DE TERCEIRA CLASSE


    "Venho de longe. Meu nome?
    Meu nome é terra. Está escrito
    Na palma da minha mão.
    Meu tempo de não ter fome
    Foi o tempo de eu mamar.
    Aos seis meses era um homem:
    Davam-me sopas de vinho
    E eu ficava na canastra
    Ficava quieto a dormir.
    Minha mãe não tinha tempo
    Para ter tempo comigo:
    Dava-me sopas de vinho.
    Talvez por isso este fogo
    Que sempre tive no peito
    Que aos seis meses eu ficava
    Dormindo podre de bêbado.

    E assim cresci por acaso,
    Minha escola foram campos
    Ribeiros árvores montes.
    Meus livros foram os ninhos
    Lagartos cobras besouros.
    Aprendi tudo nas ervas
    Aprendi tudo nos bichos.
    Meu professor foi o vento.
    Nunca soube ler meu nome.
    Para quê? Meu nome é terra.
    Está escrito na minha mão.

    Não perdi nada que nunca
    Tive nada que perder.
    Há quem diga que perdi
    Só o futuro. É possível.
    Mas eu creio que nasci
    Com tudo perdido antes.
    Adiante. Desde cedo
    Trabalhei por conta alheia
    Sachei a terra mondei
    Dei à terra o meu suor
    Lavrei plantei. Não colhi.
    Em casa levei porrada
    Comi boroa dura
    Chorei lágrimas de raiva.
    Não que meu pai fosse mau.
    Era a terra que comia
    Seu coração sua vida.

    "Trabalhar de sol a sol?
    - queixava-se ele - para quê
    Se são os outros que comem
    tudo o que a gente semeia?
    Na colheita que nos roubam
    Roubam a vida de um homem.
    Meu nome meu filho é terra:
    Está escrito na minha mão".
    E às vezes dizia: "Não!
    Antes a morte ou a guerra
    Do que ser escravo da terra
    Que não é de quem trabalha".

    Um dia meu pai matou-se.
    Abriu os pulsos rasgou-os
    com a ponta da navalha.
    E o sangue correu correu.
    Gravou na terra a vermelho
    Esse nome que meu pai
    Trazia escrito na mão.

    Assim fiquei de repente
    A ser o homem da casa
    (...)
    Na mesma escola em que andei.

    Foi num Domingo de Ramos
    Que pela primeira vez
    Eu soube o que era mulher.
    E foi meu leito de núpcias
    Um chão de pedra e carqueja.
    (porém com penas e rosas
    No corpo da minha amada).
    E foi então que aprendi
    Que morrer deve ser isto:
    Uma vertigem uma queda
    Até ao centro da terra.

    Manuel Alegre

    (...) Continua

    ResponderEliminar


  12. Assim cresci. Fiz um filho.
    Dei porrada na mulher
    Que meu amor era raiva.
    Não tinha beijos na boca
    Não tinha festas nos dedos.
    (...)
    A terra levava tudo.
    Primeiro foi minha mãe
    (...)
    Mas a terra é uma rameira
    A terra sugou meu sangue
    A terra comeu meus dedos
    Meu coração minha vida.
    Fiquei seco seco seco.

    Cada ano fiz um filho
    Dei porrada na mulher
    E na taberna voltei
    A ter um fogo no peito
    Como quando era menino.
    Porém já meu coração
    Não voava como dantes
    Quando eu tinha no meu peito
    Uma estrela um vento um pássaro.
    Era raiva o que sentia.
    E não sei se era do vinho
    Se da raiva que sentia
    (...)
    Vi a sombra duma estrela
    Vi o nome de meu pai
    Escrito com sangue vermelho
    Nas palmas da minha mão.

    Trinta e sete anos correram
    E em cada dia morri
    Cada dia que vivi.
    (...)
    Alguns dentes mastigavam
    A farinha do meu corpo.
    Algumas bocas bebiam
    O vinho que era meu sangue.
    Fiquei seco seco seco.

    Até que um dia me disse:
    "Trabalhar de sol a sol
    Quando são outros que comem
    O pão que a gente semeia?
    Vou-me embora desta terra".

    Vinham notícias de França:
    "Cá a gente tem trabalho
    Tem sindicatos bières
    Vacances securité.
    Deixa a terra. Vem-te embora!"

    Então um dia levei
    Minha mulher para a cama.
    Poucas palavras lhe disse.
    Apenas disse: "Mulher
    Eu quero um filho que seja
    O homem que nunca fui.
    É meu sangue que te deixo
    Minha vida que te dou.
    Que ele cresça no teu corpo
    Como a flor cresce na terra
    Porque toda a minha vida
    Se perdeu - mulher - na terra.
    Que seja eu próprio o teu filho".

    De novo na minha boca
    Nasceram beijos. De novo
    Meus dedos tiveram festas.
    E então de novo senti
    Esse modo de morrer:
    Uma vertigem uma queda
    Até ao centro da terra.

    Quando veio a madrugada
    Eu disse: "Mulher adeus.
    Vou-me embora para França".

    E quando o dia chegou
    Já estava longe de casa.

    "Adeus prados e montanhas
    rios árvores adeus.
    Aqui fica minha vida.
    Eu por mim vou seco seco".

    E não sei se era saudade
    Se eram lágrimas nos olhos
    Mas de repente ao olhar
    Eu vi os campos em volta
    Cheios de espigas vermelhas:
    Era o meu sangue florindo
    Gota a gota em cada espiga.

    Meu nome? Meu nome é terra.
    Está escrito na minha mão."

    Manuel Alegre.

    Continuação do poema

    FALA DE UM VIAJANTE DE TERCEIRA CLASSE

    ResponderEliminar
  13. Anónimo16:00

    Só é pena que os "bitaites" que o "pessoal" manda não consigam que os jornalistas do jornais da "inteligenzia bem pensante", tipo Zé do Laço, não liguem os factos e investiguem as causas desses "bitaites económicos" na maioria dos casos resultantes das corrupções "mentais e físicas"!

    Ler os "processos" em França, Nouvel Observateur e Mediapart não são "exemplo para os moços que escrevem (?)aqui no país !

    Em Portugal para ("povoléu") quem é, bacalhau basta.....

    Alexandre

    ResponderEliminar
  14. Caro Alexandre
    Tem toda a razão. Tenho seguido o folhetim de um Presidente normal, normalíssimo, diria mesmo, semanalmente, no Nouvel Observateur.
    Mas aqui o pessoal já não fala francês. É isso!

    ResponderEliminar

Ai Brasil !

Fosse eu brasileiro e, depois da intervenção de ontem de Marco Rubio no congresso americano, na interpretação do "droit de regard"...