domingo, 10 de fevereiro de 2013

As contas da Europa

Na sexta-feira, gravei na RTP Informação uma conversa com o jornalista Manuel Menezes, no seu programa "Olhar o Mundo" (*). Durante 20 minutos, falámos da Europa que temos, do lugar de Portugal nela, de crise do euro e dos desafios da atual diversidade europeia. No momento da gravação, os números do compromisso financeiro obtido no Conselho europeu da véspera ainda não eram muito claros. Agora já o são.

Sobre o assunto, sublinhei o que considerei ser uma forte incoerência da política orçamental da União face ao caso português. Com efeito, num momento em que duas instituições comunitárias (o BCE e a Comissão Europeia) estão comprometidas com o processo de ajustamento português, é verdadeiramente chocante ver aprovado um orçamento, para sete anos, desenhado como se estivessemos num tempo normal, sem se entender que, perante os elevados constrangimentos orçamentais nacionais, um esforço específico deveria ser feito ao nível do reforço dos fundos comunitários para os países sob assistência, elemento essencial para o investimento público. Esse esforço de coerência deveria ter sido realizado pela Comissão Europeia e não o foi. O (antigo) "executivo" de Bruxelas mostrou aqui toda a sua flagrante irrelevância atual no processo comunitário. Espero que o Parlamento europeu não esqueça isto, no debate que agora se seguirá. 

Mas voltemos às "perspetivas financeiras". Devo começar por dizer que me impressionou a forma ligeira, muito ao modo do país de "prós e contras" que por aí anda, como a generalidade dos comentadores televisivos dessa noite de sexta-feira analisou resultado de Bruxelas. Salvo uma ou duas exceções, as pessoas ouvidas optaram por um registo de seguidismo face à leitura oficial do resultado ou de mera oposição não fundamentada, face à importância daquilo que Portugal obteve. Os "situacionistas" deliciaram-se em laudas às vantagens obtidas na PAC (e para a CAP) para o "desenvolvimento rural" e o "reviralho" passou o tempo a atacar a falta de "ambição" europeia, assim fazendo forte oposição... a Bruxelas.  

Ora, à luz de alguma experiência que julgo ter neste domínio, entendo que não é muito difícil chegar a uma conclusão sobre se Portugal saiu ou não beneficiado deste exercício. Para tal, deixo algumas pistas sobre a forma como se devem ler os resultados.

Sendo uma evidência incontestável, o facto do orçamento global ter, pela primeira vez, diminuído, e isso representar uma falta de vontade dos "vinte e sete" para reforçar o projeto europeu, é relativamente indiferente na análise do resultado português. Como também o é a circunstância de se poder arguir com a ideia de que as coisas acabaram por ser um pouco melhores do que aquilo que era a proposta original: todos sabemos que é sempre assim... Finalmente, e do mesmo modo, o volume global de recursos que foram alocados a Portugal, com os "envelopes" laterais que sempre fazem parte destes exercícios, sendo um dado concreto a ter em conta, acaba por ser menos relevante para a análise que importa fazer - isto é, saber se Portugal ganhou ou perdeu nesta negociação. Como se pode chegar então a essa conclusão?

Julgo que é relativamente simples. Registe-se a percentagem que o volume de recursos obtidos por Portugal no anterior quadro financeiro representava no total do orçamento plurianual 2007-2013. Faça-se, depois o saldo final deste recente exercício, à luz do mesmo critério, descontado o efeito do futuro alargamento à Croácia. E compare-se. Como alguém dizia: é fazer as contas...

* Pode ver o programa aqui

14 comentários:

Anónimo disse...

O bem se faz aos poucos. O mal, de repente.
Nicolau Maquiavel

Como embaixador experiente deve compreender a situação da Nação neste ano de 2013.

Dsde o inicio da 4ª República, alguns bem "dutrinados", fizeram tábua rasa de tudo o que era passado (bom ou mau)desde 1140.

Só em 25 de Novembro de 1975 se conseguiu estabelecer uma "paz", sem vencidos ou vencedores.

A democracia começou nesse dia, mas sempre os lobos espreitaram e espreitam sob diversas formas, baseados no principio politico de tomar conta do País até se instalarem definitivamente na administrações do Estado e sobrepor este a toda a Economia.

Segue-se, anos a esa parte o tempo dos "finórios" e pouca paciência tenho para estes "dejá vu"!

Só a imaginação e a ironia me dão força, actualmente em Portugal !


Alexandre



Anónimo disse...

Gostei muito de o ouvir. Vai mesmo reformar-se? Não acredito e não merecemos isso. Pense bem.

Anónimo disse...

http://ec.europa.eu/budget/figures/interactive/index_en.cfm


"Sobre o assunto, sublinhei o que considerei ser uma forte incoerência da política orçamental da União face ao caso português."

incoerencia?


nem a republica tem tres mamas, sr embaixador...


bh

Defreitas disse...

O Senhor Embaixador apresentou muito bem o problema e sinceramente tenho a mesma opinião.
Mas para ser mais directo, acho que o resultado desta cimeira de Estrasburgo, foi uma vitória para aquele país que menos coopera na construção europeia, não aceitou a moeda única nem Schengen, e só pretende confortar a posição da finança da City - la taxe Tobin est passée à la trappe ! - isto é, o Reino Unido, e é adepto, desde Thatcher, duma política conservadora que não permite de avançar; uma vitória para Madame Merkel, que espera convencer os eleitores de Setembro que a sua política de austeridade é uma boa politica, e duma certa maneira mesmo para a França que não viu amputada a sua politica agrícola, ou muito pouco.

Os outros países do norte da Europa caminham de mãos dadas com a Alemanha.
Os grandes vencidos são os países do sul da Europa. A austeridade vai continuar. E o que é lamentável, é que precisamente numa altura em que seria preciso injectar confiança e os meios que permitiriam lançar o crescimento, única solução para o desemprego, a Europa decidiu o contrário. E aqui o presidente francês perdeu o match contra o eixo anglo germânico. A Europa é mais que nunca dirigida por Berlim. O futuro é sombrio. Quando as forças reunidas dos povos do sul disseram basta! eles compreenderão o erro desta decisão.

J. de Freitas

Defreitas disse...

Canto X estânc. 145-156
152
Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, e Ingleses,
possam dizer que são para mandados,
mais que para mandar, os Portugueses.

gherkin disse...

A sua intervenção no programa “Olhar o Mundo”, cuja existência desconhecia, particularmente também o facto de ser conduzido por um ex colega e amigo, Manuel Menezes, constituíu – e não me canso mui justificadamente de afirmar – mais outro invulgar “show” de SABER! Felizmente vejo confirmada a minha expetativa do seu regresso a Portugal: regresso de alguém com uma invulgar experiência que, felizmente, está ser notado e APROVEITADO! Parabens, mais uma vez pela clareza e profundidade das suas afirmações. E, referindo-me ao “meu” cadinho – Reino Unido – embora concorde com a sua opinião quanto ao risco do anúncio do referendo, como sabemos, o isco lançado ao eleitorado a fim de contrapor o avanço do UKIP, caso venha a realizar-se, o que duvido, dada o conhecido pragmatismo do povo britânico se houver referendo e nele constar a saída da GB da EU, não obstante certa e influente media (The Sun, Daily Telegraph, Daily Express e Daily Mail), embora a classe etária acima dos 60 possa ser a favor, a mais jovem não. E, no fim, embora a vociferente e influente ala eurocética seja estridente, o eleitorado terá a última palavra, como o provou, particularmente em relação à Europa, com clareza, nas eleições de 1997. No fim e embora em termos de vida política 2017 esteja a anos-luz de distância, com problemas económicos ainda certamente não resolvidos, a EU não será a preocupação prioritária. Abraço e…continue. Ah, a propósito, colunista num importante jornal diário como o Público, ou semanário como o Expresso? Espero que sim! Gilberto Ferraz

EGR disse...

Senhor Embaixador: hoje apetece-me dizer-lhe,apenas, obrigado; para quem,como eu, vai tentando manter algum sentido critico face ao ouve e lê, eis que encontro no post de hoje uma analise que me parece colocar a questão no seu devido lugar.
Não me apercebi,que anteriormente, alguém o tenha feito.

Anónimo disse...

encontrei contas feitas de fresco

Economista Português é a primeira publicação a dar-lhe valores quantificados sobre o que perdemos na cimeira europeia de sexta-feira passada

htpp/oeconomistaport.wordpress.com

Orçamento da União Europeia: Os Recebimentos de Portugal caem 20% e os da UE caem 4%

Defreitas disse...

Relendo o meu comentário constatei que escrevi Estrasburgo, onde deveria ter escrito Bruxelas. Mas , aproveitando a oportunidade, seria interessante que o Senhor Embaixador nos desse a sua opinião sobre a possibilidade dum golpe de estado democrático, que seria precisamente em Estrasburgo , única estância democrática européia, a votação negativa do tratado assinado entre os chefes de estado em Bruxelas. Porque, finalmente, os deputados "unidos" podem dar uma volta ao problema e demonstrar assim a independência do Parlamento.
Faço confiança ao Cohn Bendit para incendiar o hemiciclo!

J. de Freitas

Anónimo disse...

Várias vezes comentámos "as andanças" em que gostaríamos de ver o Senhor Embaixador depois do seu regresso a Portugal e dispensado das "obrigações" da sua carreira diplomática. Se era notória a sua vontade de participar no dia a dia das nossas tristezas.. com o seu sentido de humor bem temperado por uma ironia inteligente, agora ficámos contentes pela coragem com que vai abordando os assuntos. Não há em si "medos" ou "interesses"! Assim, ganhámos um Embaixador de todos os portugueses que querem ver as "coisas" tratadas HONESTAMENTE. Por mim, não lhe peço mais.

Anónimo disse...


Há duas maneiras de mentir .

Uma é não dizer a verdade e a outra é fazer estatística .

Restam-nos assim as suas análises bem fundamentadas e sem demagogias manhosas .

RuiMG

Isabel Seixas disse...

Concordo com a opinião do comentador anónimo das 10:32.

Helena Oneto disse...

Carissimo Senhor Embaixador,

Tenho lido, ouvido e visto o que diz nos media. E gostei porque diz com clareza o que pensa e o que sabe. E sabe e pensa muito bem.
Sobre o acordo, que a maioria dos media, aqui, denuncia como “inacceptabe” e/ou “indigent, os quatro principais grupos politicos com assento no Parlamento europeu (PPE, socialistas, liberais e verdes) ja avisaram que recusam votar o budget “en l’état”.
O “Les Echos” (que não é un jornal "reviralho") de ontem, tem varios artigos que, à quelques détails près, dizem o que o Senhor disse na RTP Informação na 6 feira passada.
Para quem estiver interessado:
Editorial, assinado Nicolas Barré
(http://www.lesechos.fr/opinions/edito/0202557611885-inacceptable-budget-europeen-537002.php),
artigo “Le Parlement Européen menace de veto l’austérité du budget décidée par les vingt-sept” (http://www.lesechos.fr/economie-politique/monde/actu/0202557567769-budget-europeen-le-parlement-menace-de-veto-l-austerite-decidee-par-les-vingt-sept-537024.php)
e a excelente analise de Anne Bauer e Renaud Honoré “Une défaite pour l’Europe” (http://www.lesechos.fr/economie-politique/monde/actu/0202557559189-une-defaite-pour-l-europe-537077.php).

Bien à vous!

Defreitas disse...

Madame ONETO : Qual é a traduçao da palavra "reviralho" em francês, por favor? Merci.