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terça-feira, fevereiro 05, 2013

A mensagem

O conselheiro fuzilou, com um olhar severo, o contínuo, de nacionalidade brasileira, que assomara à porta do gabinete onde, na embaixada portuguesa num grande capital europeia, uma conversa amena se estabelecera, naquele final de tarde. 

- Quantas vezes já lhe disse, homem, que não quero que você interrompa as conversas?!

Era um hábito, muito tradicional nos grandes postos diplomáticos, nesse outro tempo em que havia tempo para tudo, os diplomatas reunirem-se, ao fim do dia, num dos gabinetes, numa amena cavaqueira, para trocarem impressões e historietas. Muitas vezes, os mais velhos debitavam informações só acessíveis a quem "bebia do fino", os mais novos apreciavam a partilha dessa experiência e isso constituía um caldo de cultura corporativa que ajudava a forjar o espírito de uma carreira.

Aquele conselheiro era um homem com tiques autoritários, um pouco auto-convencido da sua própria importância, pelo que reagira, desagradado, à intromissão do contínuo. Este, vergado pela reação do diplomata, ficara, qual Martim Moniz, prudente mas teimosamente encolhido na porta entreaberta, à espreita de uma oportunidade para debitar a mensagem que trazia.

Acabada a história, que vira quase interrompida de forma inoportuna, o conselheiro voltou-se, displicente, para o expectante contínuo, e lançou-lhe, generoso:

- Diga lá, homem! O que é que você quer?

-  Só queria dizer que a casa ao lado está pegando fogo...

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