terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A mensagem

O conselheiro fuzilou, com um olhar severo, o contínuo, de nacionalidade brasileira, que assomara à porta do gabinete onde, na embaixada portuguesa num grande capital europeia, uma conversa amena se estabelecera, naquele final de tarde. 

- Quantas vezes já lhe disse, homem, que não quero que você interrompa as conversas?!

Era um hábito, muito tradicional nos grandes postos diplomáticos, nesse outro tempo em que havia tempo para tudo, os diplomatas reunirem-se, ao fim do dia, num dos gabinetes, numa amena cavaqueira, para trocarem impressões e historietas. Muitas vezes, os mais velhos debitavam informações só acessíveis a quem "bebia do fino", os mais novos apreciavam a partilha dessa experiência e isso constituía um caldo de cultura corporativa que ajudava a forjar o espírito de uma carreira.

Aquele conselheiro era um homem com tiques autoritários, um pouco auto-convencido da sua própria importância, pelo que reagira, desagradado, à intromissão do contínuo. Este, vergado pela reação do diplomata, ficara, qual Martim Moniz, prudente mas teimosamente encolhido na porta entreaberta, à espreita de uma oportunidade para debitar a mensagem que trazia.

Acabada a história, que vira quase interrompida de forma inoportuna, o conselheiro voltou-se, displicente, para o expectante contínuo, e lançou-lhe, generoso:

- Diga lá, homem! O que é que você quer?

-  Só queria dizer que a casa ao lado está pegando fogo...

8 comentários:

Defreitas disse...

Le serviteur discipliné et obéissant , était de la trempe dont on a fait les musiciens du Titanic!
Mais il est vrai, que bon nombre de nos actions est dirigé de haute main par le hasard . Nous ne dirigeons que le reste.

J. de Freitas

Julia Macias-Valet disse...

Pobre homem !

EGR disse...

Senhor Embaixador: os tiques autoritários-mesmo quando são apenas isso- acabam sempre dando mal resultado.
Mas hoje não resisto a deixar aqui uma nota acerca do comentário de J Freitas no sentido de dizer que isto de já ter uns bons anos tambem tem vantagens; de facto se eu não fosse do tempo em que estudava cinco anos de françês não poderia apreciar os seus interessantes textos.

Anónimo disse...

Defreitas, as promessas são para cumprir: deixe-se lá de "tiques" e escreva em Português.

PS: "De Freitas" não é apelido. Só Freitas" o é.

Defreitas disse...

Caro EGR : Procuro sempre , nos textos curtos, escrever em Português , antes de passar para o Francês. A razão é que não consigo traduzir a "nuance" exacta , não porque a nossa língua não seja rica, mas porque o meu Português tem mais de 50 anos e não o utilizei durante esse tempo. Recupero todos os dias um pouco na vivência deste e doutros blogues.
Obrigado pela apreciação dos meus comentários. Cordialmente.
J. de Freitas

Anónimo disse...

Acredito que depois de ter recebido a mensagem a eminência deve ter respondido:
Por que não falou logo seu idiota!

Defreitas disse...

Caro anónimo , sem apelido, (et pour cause), das 08:49 : "Defreitas" não é um apelido, mas sim um endereço e-mail. O meu comentário está assinado.

Isabel Seixas disse...

Teve piada
Nada melhor que gritar logo fogoooo...
De qualquer forma bem traduz o provébio que:

"A coisa mais fácil de fazer é aconselhar e repreender"