Era sempre assim, lamentava-se o embaixador. Os nacionais do país em que estava acreditado só convidavam para as suas casas durante os fins-de-semana. Quando muito, na sexta-feira à noite. Isso destruía-lhe o sossego do sábado e do domingo, que tanto prezava, utilizado para passeios pelos arredores da capital. Mas, que se havia de fazer?!, era quase sempre assim...
Pelo menos, naquele sábado, os anfitriões seriam um casal simpático, com o qual os embaixadores se haviam cruzado diversas vezes e que tinham já ido jantar à embaixada. A informalidade do convite levava a que não tivessem recebido sequer um cartão escrito, mas uma simples indicação do endereço, surgida numa conversa no meio de uma receção. Sendo assim, seria adequada a hora escolhida para aparecerem? Que tipo de vestuário seria mais próprio? Era uma pena não terem esclarecido isso, a tempo. Pelo sim pelo não, o embaixador levava um "blazer" com gravata. Se a informalidade fosse muita, logo poderia tirar o adereço do pescoço... ficando com o traje a que os brasileiros chamam "esporte fino".
O embaixador e a sua mulher tocaram à porta. Tiveram esperar alguns minutos. (Ora bolas! Parece que chegámos demasiado cedo). Seria o dono da casa, ele próprio, a vir abrir a porta, conduzindo-os para a sala. Estava de "jeans" e "pullover" (Que chatice! Viémos um pouco 'overdressed'). Foi muito simpático e, rapidamente, ofereceu bebidas. A dona da casa demorou um pouco mais a aparecer e, quando surgiu, denotava ter-se arranjado um tanto à pressa. (É isso! Chegámos muito cedo. Das próximas vezes, temos de saber a hora exata). A embaixatriz tinha-lhe trazido flores, que a senhora agradeceu muito.
A conversa fluiu, durante as horas seguintes. Os anfitriões eram gente interessante e culta. E muito mais simples do que os embaixadores supunham. A dona da casa, a certo passo, deslocou-se para a cozinha. Afinal, seria ela própria quem faria o jantar. (Que casal encantador!). A embaixatriz ofereceu-se para ajudar e o embaixador acabou também por ir abrir o vinho, selecionado na pequena adega, numa incursão feita com o dono da casa. O jantar, muito simples mas saboroso, acabou por ser bastante tardio, num ambiente verdadeiramente familiar. (Gente muito agradável e simples! Mas, claramente, esperavam-nos mais tarde).
E a noite chegava ao fim. Os embaixadores agradeceram a simpatia do jantar, sublinhando, com sinceridade, o caráter intimista do acolhimento, dizendo as tradicionais amabilidades sobre as capacidades culinárias da dona-da-casa e sublinhando, com sinceridade, o excelente ambiente que haviam partilhado.
Foi então, à saída, que o anfitrião comentou: "Amanhã, domingo, teremos cá os embaixadores franceses e também um casal de médicos, nossos amigos". (Por que diabo se lembrou agora de nos revelar quem serão os hóspedes de amanhã?). "E, como lhe disse na semana passada, cá os esperamos também. Oito e meia é uma boa hora?"
