domingo, fevereiro 13, 2011

Vergès

Jacques Vergès é uma espécie de "advogado do diabo". Aos 86 anos, esteve, há semanas, na Costa do Marfim a preparar a fundamentação para sustentar juridicamente a teimosia de Laurent Gbagbo em não abandonar o poder. No passado, entre muitas outras figuras, defendeu o terrorista Carlos, o nazi Klaus Barbie, o exterminador Pol Pot e outras figuras de recorte controverso. Saddam Hussein e Slobodan Milosevic estão entre os que não aceitaram a sua ajuda. George W. Bush é um nome que já anunciou desejar defender, no caso de ser possível a sua inculpação.

Membro da resistência francesa na 2ª guerra mundial, foi militante comunista e anti-colonialista, mantendo-se sempre próximo das ideias radicais de esquerda. É filho de pai francês e de mãe vietnamita, tendo vivido na ilha de Reunião e na Argélia, onde se tornou mundialmente famoso pela defesa com sucesso de uma militante da FLN, que viria a ser sua mulher. A sua história pessoal tem um "buraco negro" entre 1970 e 1978, período em que, sem explicação até hoje, desapareceu  de cena - o que gerou lendas sobre a sua eventual presença junto dos Khmers Vermelhos, do Cambodja, ou em campos da guerrilha palestiniana.

Mas a que propósito falo hoje dele aqui? Porque Vergès, numa iniciativa inédita mas muito curiosa, apresenta, duas vezes por semana, um espetáculo num teatro parisiense. Num monólogo de mais de hora e meia, em cenário do um escritório de advogado, fala dos criminosos e dos seus casos, contando histórias e desenhando perfis, tentando demonstrar que a sua famosa "estratégia de rutura", com que orienta as defesas, acaba por ser um modo de melhor fazer conhecer as pessoas por detrás dos crimes. A forma como apresenta a sua relação com a justiça torna a sua apresentação, apesar de algo monocórdica, bastante atrativa na substância. Com o caráter chocante que sempre confere a tudo em que se envolve, Vergès dá à sua prestação teatral o título de "Serial plaideur", da mesma forma que, em 2007, se prestou a ser a cara do filme com o nome de "O advogado do terror".

A juristas conhecidos que venham a Paris - com especial dedicatória ao meu velho amigo Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados - recomendo esta provocatória "performance" do seu incómodo confrade francês, em cena até 11 de abril.

9 comentários:

  1. Haveriam de se dar bem, os dois 'incómodos' juristas :)
    O seu amigo também vai fazendo uns 'estragos' por aqui! ;)

    ResponderEliminar
  2. Cara Margarida: Ele nunca me desiludiu, na incomodidade que provoca em outros - alguns dos quais, diga-se, também são meus bons amigos.

    ResponderEliminar
  3. O cinismo de Vergès -o mais controverso e carismatico advogado francês- é-me insuportavel sobretudo quando defendeu K. Barbie. Ha tempos ouvi-o, numa entrevista, contar a historia da sua vida. Muito interessante!

    ResponderEliminar
  4. Anónimo08:06

    Bem dá para perceber que no conteúdo funcional do advogado tanto se se advoga a defesa do ataque como o ataque da defesa...

    Depois a Ética e Deontologia assumem uma dinâmica... Exótica/Bizarra; de bem e Mal?...

    Agora não estou para ir a Paris(Tenho aqui o dinheirinho sachadinho...)

    Mas nunca fui a um desses palcos de Teatro prefiro ver na televisão (exatamente...Também... Não tenho outra alternativa, e ostento-o sem vergonha)

    Agora se o Sr. conseguir um diferido...
    Claro que aguento um monólogo de hora e meia, oh se aguento, bem sabe que sou Mulher, e não só...
    Isabel Seixas

    ResponderEliminar
  5. Mister MagOOOO ??????

    Nao o acham parecido ? : )))

    Ahhh...a atracçao das luzes da ribalta...ele é modelos, ele é jogadores de futebol, ele é empresarios/ministros, ele é advogados...fins de carreira ou carreiras decadentes ?

    Ainda assim acho que sao os advogados os que estao melhor preparados para esta recorversao : afinal depois de tantos anos a "engolir" Codigos, decorar uns textositos nao deve ser tarefa ardua, e falar em publico ja nem se fala ; ))))

    ResponderEliminar
  6. Essa do "monocórdico", Sr Embaixador, esfriou-me o impulso de ir a Paris, tb para assistir ao espectáculo...

    ResponderEliminar
  7. Anónimo17:41

    Não foi por acaso que Marinho Pinto renovou o mandato, Margarida. O homem é teso. E incomoda muita gente que não está habituada a ser incomodada.
    P.Rufino

    ResponderEliminar
  8. Anónimo21:16

    Aqui vai o link para ver uma série de 4 videos onde Vergès conta a historia da sua vida. Muito interessante!

    http://www.culturclub.com/circus/grandeparade/grandeparade-0020_jacques-verges/grandeparade-0020_jacques-verges_destin_1.html

    ResponderEliminar
  9. Anónimo14:23

    Não é por acaso que Marinho Pinto tem tantos admiradores!

    ResponderEliminar

O lugar de Portugal

Na Casa do Meio-Dia, em Loulé, com moderação da diretora do Jornal do Algarve, Luísa Travassos, falei ontem sobre o lugar de Portugal num mu...