sábado, 13 de fevereiro de 2016

Aeroporto Humberto Delgado


O governo decidiu dar ao aeroporto da Portela o nome de Humberto Delgado. Uma excelente decisão, consagrando alguém que foi o fundador da TAP e diretor-geral da Aeronáutica Civil, uma das pessoas que impulsionou, como ninguém, a aviação comercial em Portugal. Mas há mais razões para além disso.

Depois de ter sido um grande apoiante da Ditadura Nacional, no período imediatamente subsequente ao golpe militar de 28 de maio de 1926, o general Humberto Delgado viria, nos anos 50, em especial depois da sua passagem por Washington como adido militar, a manifestar um afastamento crescente face ao regime salazarista. Pouco antes das eleições presidenciais de 1958, chegou a setores da oposição democrática a informação de que um general, antes ligado ao regime, se mostrava crítico de Salazar. Foi António Sérgio quem canalizou essa informação para o seio das forças oposicionistas mais moderadas, que então buscavam um candidato presidencial, depois de terem pensado em Jaime Cortesão e Mário de Azevedo Gomes. Aproximado por esses democratas, Delgado decidiu arriscar a aventura.

Mais à esquerda, o PCP mostrou-se inicialmente cético. Curiosamente, os comunistas tinham chegado a encarar a possibilidade de apoiar uma figura clássica do anti-salazarismo, Cunha Leal, personalidade da Primeira República que tivera uma posição algo equívoca no 28 de maio, mas que cedo se confrontara com Salazar. Ao conhecerem a hipótese Delgado, e sabedores das ligações deste aos EUA, os comunistas logo o rotularam, no "Avante!", de "general Coca-Cola", avançando como seu candidato com o nome de um advogado que era seu "compagnon de route", Arlindo Vicente. Porém, percebendo o potencial de mobilização de Humberto Delgado, o PCP acabaria por aceitar apoiá-lo, num acordo que ficou conhecido como o "pacto de Cacilhas".

A campanha de Humberto Delgado assustou o regime, com nunca antes tinha acontecido. As cidades por onde o general passava enchiam-se de adeptos e houve, no Porto e em Lisboa, manifestações públicas de uma dimensão nunca vista. A repressão policial acabou por se exercer, o que não deixou mesmo de provocar tensões fortes no seio da "situação" - como era designado então o ambiente do regime. 

A imagem que ilustra este texto foi tirada na minha terra, em Vila Real, em 22 de maio de 1958, em frente ao antigo Hotel Tocaio, julgo que depois de um almoço oferecido ao candidato oposicionista. Antes disso, Delgado depositara um ramo de flores no monumento ao herói republicano Carvalho Araújo. A uma centena de metros de distância, com os meus 10 anos, recordo vivamente ter estado ao lado do meu pai, cujo "republicanismo" (à época um sinónimo de partilha de ideias democráticas), foi superior à prudência que sempre aconselharia um funcionário público a não ser visto nesse contexto.

Delgado viria a perder umas eleições marcadas por imensas fraudes, as quais, mesmo que não tivessem tido lugar, talvez não tivessem obviado à sua derrota, atento o forte condicionamento da opinião pública que então existia. Na sua campanha, ficou famosa a frase que pronunciou no Café Chave d'Ouro, no Rossio, quando perguntado o que faria com Oliveira Salazar, se acaso fosse eleito: "Demito-o, obviamente demito-o!". Muitos são de opinião de que o destino de Delgado, que veria vários dos seus momento públicos fortemente reprimidos, ficou selado naquele instante. Creio que se enganam: Salazar sabia bem que, em caso de vitória de Delgado - o seu opositor e vencedor do sufrágio foi o contra-almirante Américo Tomaz, uma figura risível do refugo do regime - seria, com toda a naturalidade, afastado. E há muito que decidira não arriscar.

O período posterior às eleições foi complexo para Delgado. Demitido das funções oficiais que desempenhava, procurou manter o movimento que estivera na base da sua campanha, o que motivou uma constante atenção da polícia política. Tendo sido advertido de que estaria iminente a sua prisão, pediu asilo político na embaixada brasileira em Lisboa, ironicamente instalada num edifício ao lado da polícia política, a PIDE. Depois de meses de negociações, o embaixador brasileiro, o intelectual e democrata Álvaro Lins, conseguiu negociar a saída de Delgado para o Brasil.

Atravessado o Atlântico, o general, em lugar de ser um fator de união dos democratas portugueses, acabou por criar imensos conflitos no seio dos exilados lusos, sobre os quais pretendia manter uma chefia, num modelo algo autoritário, que muitos não aceitavam. Humberto Delgado, muito simplesmente, entendia ser o "presidente" legítimo do país, cuja vitória fora usurpada.

Do Brasil, Delgado partiria tempos mais tarde para a Argélia, onde se tornaria a figura de topo de uma organização que federava a oposição ao regime de Lisboa: a Frente Patriótica de Libertação Nacional. Descontente com o funcionamento da organização, que acusava - não sem alguma razão - de estar dominada por alguns egos e tutelada politicamente pelo PCP, o general cedo entrou em dissídio com a maioria dos exilados portugueses na Argélia. Isolado e vulnerável, alguns serventuários da polícia política portuguesa viriam a montar-lhe uma armadilha numa aldeia espanhola próxima de Olivença. sendo morto a tiro. Faz hoje precisamente 51 anos.

Humberto Delgado foi uma figura politicamente controversa, e até frequentemente contraditória, dotado de um temperamento impulsivo, algo arrogante e muito conflitual. Porém, representou para os democratas portugueses dessa passagem dos anos 50 para os anos 60, um sopro de esperança de uma dimensão nunca antes atingida. Por tudo isso, que o consagrou na História contemporânea, e pelo que fez pela aeronáutica portuguesa, merece amplamente que o aeroporto de Lisboa passe, de futuro, a ter o seu nome.

Um belo gesto que honra o governo de António Costa.

17 comentários:

Reaça disse...

Muito bem, se temos Viaduto Duarte Pacheco, porque não com Humberto Delgado o Aeroporto?

E Já agora porque não Ponte José Canto Moniz?

O seu a seu dono.

E como o meu ídolo escolhia os melhores, mais honestos, mais responsáveis e mais patriotas, para quando um Panteão em Santa Comba?

Anónimo disse...

Decisão que me deixa algumas duvidas. Tal como o senhor ai diz ele continuou a ser algo truculento e autoritário, penso que por isso mesmo é que tirando o momento da eleição de 58, esvaziou ai muito do seu apoio. Não esquecer que mesmo assim foi fascista por vinte e tal anos.

jose reyes disse...

Estou de acordo com um panteão em Santa Comba. E que varram para lá o Eusébio e a cantora, e lá enfiem todos os reaças salazarentos mais os coelhos e os relvas e todos os miguéis de vasconcelos deste país.

Anónimo disse...

É pena o Humberto Delgado ter sido um defensor de Adolf Hitler: «O ex-cabo, ex-pintor, o homem que não nasceu em leito de renda amolecedor, passará à História como uma revelação genial das possibilidades humanas no campo político, diplomático, social, civil e militar, quando à vontade de um ideal se junta a audácia, a valentia, a virilidade numa palavra.» in Revista AR, n.º 44, p. 2, junho de 1941.

Anónimo disse...

Não tivesse abortado o assalto ao Quartel de Beja, em que Humberto Delgado estava, desde o início, implicado e o 25 de Abril não teria acontecido. Teria sido melhor?..

Anónimo disse...

Olhem para mim será e tão só como sempre foi aeroporto de Lisboa, assim como para mim sempre foi a ponte do tejo. Já agora que sou de Vila Real, para mim foi sempre Bairro da Aurocária e não Francisco Sá Carneiro. Ou o Bairro da concha, que nunca lhe chamei de António Sérgio e por ai vai.

Anónimo disse...

O embaixador aquele senhor da boina que ás vezes aqui vem, por estes dias estava todo contente pelo Venfique dele, ter ganho 2 pontos ao nosso Sporting, por onde andará ele agora que já está a 3 pontos de atraso? por certo por esse mundo fora a chorar como um bom filho do venfique.

alvaro silva disse...

Caros :
Para saber quem era este militar aconselho-vos a fazer "Dowloing" do magnífico livro " Da pulhice do homo sapiens" e depressa se concluirá da sanidade mental deste sr e do que seria capaz se alguma vez montasse o cavalo do poder. Aconselho vivamente a leitura desta obra que está disponível na internet.

Anónimo disse...

Tal como desde o 5 de Outubro, a esquerda continua a ser mestre em homenagear-se a si mesma.

Gonçalo Pereira disse...

Houve mais um nome discutido em 1957 como presidenciável, mas rejeitado pelo próprio: o escritor Ferreira de Castro.

Isabel del Toro Gomes disse...

Gostei da sua resenha da vida de Humberto Delgado.
Um fait divers da minha infância: nasci e morei muitos anos na Rua Filipe Folque, São Sebastião da Pedreira mesmo em frente ao prédio em que habitava Humberto Delgado e família. Prédios muito antigos agora, mas que à época eram belas habitações, com enormes corredores e muitas assoalhadas, habitadas pela burguesia mais ou menos endinheirada. Eu morava num 3º andar, mesmo em frente ao rés-do-chão onde H. D. vivia. Tinha apenas 4 anos em 1958, mas os meus primos mais velhos que viviam no mesmo prédio que eu, num dia de agitação ou manifestação na rua, não sei bem, foram para a janela gritar coisas, por brincadeira. Um pide que estava vigiando por ali, quis entrar no nosso prédio brutamente, para «prender» ou averiguar o caso, e a porteira do meu prédio (pequenina e franzina mulher) zeladora das suas funções, não deixou entrar o pide, dizendo que ali ninguém entrava, etc. O certo é que eles desistiram, livrando os meus primos e pais deles de um grande embaraço. Esta história ficou na memória da família e contada como anedota claro.

Joaquim Carreira Tapadinhas disse...

Na verdade toda a actuação cívica de Humberto Delgado foi ao serviço da ditadura. O seu aparecimento como candidato à presidência da República é apenas um episódio, na verdade importante para a época, pois ao ter afirmado na resposta a um jornalista, o que faria a Salazar após ser eleito presidente, respondendo "obviamente, demito-o", entrou na história da oposição ao regime. Essa frase que lhe deu notoriedade política, foi sentida pelos esbirros defensores da situação como uma ofensa à pátria. Daí, após o resultado eleitoral, ter sido emitida ordem de prisão,a qual não foi concretizada porque o general se refugiou na embaixada brasileira e daí fugiu para fora do país. Como foi um general do ramo da Aviação deve ser por isso que o honram com tal distinção, pois como político democrático acho a sua acção demasiado curta.

Anónimo disse...

Tambem eu recordo a campanha de H.D. Era sabado,tinha 14 anos na altura e o reitor do meu liceu, nao fosse o diabo tece-las inventou ja nao sei que competicao desportiva amigavel ou ginastica. Meninas e meninos nos ginasios, corredores etc esperavamos em grande confusao indignados nessa manha de sabado roubado com ameaca de falta de castigo a quem nao respondesse a chamada, enquanto H.D. chegava a Guarda, com rota desviada dentro da cidade. Nos ginasio das meninas na confusao gerada, algumas mais afoitas pularam pela janela e acabaram em frente do Hotel Turismo.

Uma imagem me ficou. Uma colega cujo pai ja tinha fama de "Comunista" (cobria todo o leque a esquerda de Salazar) aproximou-se de H.D. pela mao o pai e entregou-lhe um ramo de flores. Eram vermelhas (cravos ou rosas nao recordo. Sei que eu tinha 14 anos e, sempre desageitada, torci um pe ao fugir pela janela do ginasio. Nao consigo recordar o nome da colega. Nao esqueci o sentimento de injustica pela convocacao num sabado para desporto extra curricular,o numero de policias a dirigir o transito e o pai da menina a dar-lhe a mao ate entregarem o ramo de flores a H.D.

Quando passar pelo aeroporto de Lisboa recordarei Humberto Delgado e Olivenca.

Bom domingo com sol.

F. Crabtree

Reaça disse...

É gente como Humberto Delgado, Henrique Galvão, Álvaro Cunhal, Norton de Matos e mais outros portugueses notáveis, que agigantam e imortalizam a figura de Salazar.

Salazar, foi um parêntese na normalidade da República Portuguesa.

Estamos à espera de outro parêntese, mas nunca aquele alemão em cadeira de rodas, tem que ser um português excepcional novamente.

Anónimo disse...

É bem merecido! Felizmente há muitos portugueses que aceitam o nome de Humberto Delgado para o aeroporto de Lisboa com naturalidade e agrado. Já podia ter sido há mais tempo.

Manuel do Edmundo-Filho disse...

Ao ignorante anónimo das 20:53,

"ás vezes" não leva acento agudo, leva, sim, um acento grave: às vezes! A mim, a boina não me impede de saber distinguir um acento grave de um agudo... nem de reconhecer o mérito dos rivais.

Quanto à (acento grave...) actual diferença pontual, obviamente que estou triste e, ao invés, está você contente! Vão à (acento grave...) frente. Merecidamente. Parabéns. Se forem campeões, parabéns ao Jorge Jesus. É um grande treinador! Será o primeiro treinador português a ser tri-campeão! E será uma grande derrota, igualmente merecida, do Luís Filipe Vieira!

Como vê, a boina não me venda os olhos.

Anónimo disse...

Já temos professor de português por aqui. O senhor da boina não brinca em serviço.