sábado, 19 de dezembro de 2015

Muito lá de casa...

Um dos candidatos que estas eleições presidenciais oferecem à escolha dos portugueses é uma figura que, durante anos, entrou na nossa casa com grande frequência. Não tocou à porta, mas esteve connosco na sala, conversando sobre tudo e sobre todos, de futebol a política, de “faits divers” às finanças, da justiça aos espetáculos, da lombada de livros às questões de saúde, etc, etc.

Sobre tudo tinha ideias, de tudo parecia que sabia um pouco, num modelo a que os italianos chamam de “tudólogo”. Diz coisas certas? Claro que sim, a par de outras que são tão discutíveis como as que qualquer um de nós costuma ter. Educado, inteligente, informado, às vezes um tanto “pela rama”, outras um pouco mais profundo, o tal candidato provou que quase nada do mundo lhe era alheio. Ou parecia ser. A sua melhor definição foi-me dada um dia por um amigo: “estou quase sempre de acordo com ele, exceto quando conheço bem os assuntos!”
No cenário de fundo da vida da esmagadora maioria dos portugueses adultos, o tal candidato é uma figura que nunca esteve distante. Os mais velhos lembram-no como jornalista, outros como político ou como jornalista político, muitos outros simplesmente como professor – e nós sabemos como ser “professor” sempre por cá funciona subliminarmente como um fator de prestígio para credibilizar o que se diz. A maioria dos contemporâneos recordá-lo-á como opinador, primeiro na rádio, depois nas televisões, nestas tendo vogado entre canais. No desporto, não é do Benfica nem do Sporting, antes pelo contrário, não sendo também do Porto. Todos o identificam com um partido mas também já o ouviram criticar, sem exceção, os líderes desse mesmo partido. Todos? Todos! Mesmo que ele próprio tenha também cumprido um dia essa função…
Para muitos dos portugueses, esse candidato sugere a intimidade que temos com um primo distante, daqueles que irrompe nos casamentos ou nos batizados. Não o conhecemos bem, mas é insinuante, simpático e dialogante. Conta anedotas, é espirituoso, desenha uma presença agradável, sai-se com tiradas inteligentes, às vezes iconoclastas, as mais das vezes jogando no “mainstream” do senso comum. Algumas mulheres acham-lhe piada, alguns homens apreciam-no como divertido e eternamente bem humorado. Todos o tratamos pelo primeiro nome, claro. É muito lá de casa…
Há uma década, quando Cavaco Silva foi candidato a presidente, recordo-me do modo complacente como alguns, mesmo nele não votando, encararam com resignada aceitação a sua eleição, não obstante ser “do outro lado”. Dizia-se que era um homem “rigoroso”, “austero”, uma figura "em quem se podia confiar”. Depois, foi eleito e saiu-nos na rifa o que temos visto!
Imaginem agora que outro alguém, também “do outro lado”, mas a quem ninguém se atreverá a colar os qualificativos sossegantes que ingenuamente concedíamos ao presidente cessante, volta a ocupar Belém! Ah! “Mas este tem muito mais graça, é divertido! Vai ser um tempo interessante!” Pois, pois! Esperem pelas crises, pelos dias em que as coisas não estejam a correr bem! Depois não me venham dizer que não avisei!    
(texto publicado no Acção Socialista)

8 comentários:

Dor em baixa disse...

Passará todos os limites do razoável os portugueses colocarem em Belém um comentador. Ele já disse que reunirá com estes, com aqueles, com aqueloutros. Quanto a comentários, já se sabe, não resiste. Faria tudo como um PR não deve fazer. Mas convenhamos, como político fecharia um ciclo notável: Secretário de Estado para a Fabricação de Factos Políticos, Presidente Nulo de um Partido Político e Presidente da República interventor-em-tudo e comentador-de-tudo.

Joaquim de Freitas disse...

Devo dizer, Senhor Embaixador, que a reconversão operada por muitos antigos colaboradores do regime fascista , que esmagou Portugal durante cinquenta anos, sempre me deixou um gosto amargo.
Que tivessem podido , finalmente, fazer esquecer esses tempos criminosos, durante o qual tantos Portugueses patriotas sofreram, e que agora se apresentem como democratas, me revolta. E, pior ainda, que se permitam por vezes de apelidar os verdadeiros democratas de anti-democratas!
A Revolução foi muito "boa" com essa gente. Acabei de ler esta carta do possível candidato à presidência da Republica.

" CARTA DE MARCELO REBELO DE SOUSA A MARCELO CAETANO, 12 DE ABRIL DE 1973

"Excelentíssimo Senhor Presidente, Excelência:

Pedindo desculpa do tempo que tomo a Vossa Excelência, vinha solicitar alguns minutos de audiência (…) Seria possível, Senhor Presidente, conceder-me os escassos minutos que solicito? (…) Acompanhei de perto (como Vossa Excelência calcula), as vicissitudes relacionadas com o Congresso de Aveiro, e pude, de facto, tomar conhecimento de características de estrutura, funcionamento e ligações, que marcaram nitidamente um controle (inesperado antes da efectuação) pelo PCP.

Aliás, ao que parece, a actividade iniciada em Aveiro tem-se prolongado com deslocações no país e para fora dele, e com reuniões com meios mais jovens.

Como Vossa Excelência apontou, Aveiro representou, um pouco mais do que seria legítimo esperar, uma expressão política da posição do PC e o esbatimento das veleidades “soaristas”.

O discurso de Vossa Excelência antecipou-se ao rescaldo de Aveiro e às futuras manobras pré-eleitorais, e penso que caiu muito bem em vários sectores da opinião pública.

Com os mais respeitosos e gratos cumprimentos,

Marcelo Nuno Rebelo de Sousa


Os Portugueses vão continuar a deixar-se enganar por esses indivíduos?

aamgvieira disse...

Acho que o doutorado (?) Nóvoa é o indicado, pela sua visão aprofundado do "realismo virtual " de áreas de aventares assumidos, bem como a experiência de foruns que onde a sua palavra origina reflexões do tipo encontros do 3º grau.

A Belém é um poço de virtudes com uma abrangência imparcial/intelectual desde Forno de Algodres á ilha do Corvo.

Internacionalmente deve conhecer Badajoz e arredores.

Anónimo disse...

Comentador Joaquim de Freitas:
Poi, pois... uma carta de afilhado para padrinho...
ah ah ah ah ah

Anónimo disse...

- é evidente que o professor vai ganhar..e na 1ª volta - basta andar de autocarro e ir a um Hipermecado e ouvir... - não com o meu voto mas vai ganhar.
- a melhor definição do personagem li-a há anos, numa daquelas "cartas do Moledo" de Francisco José Viegas - colocou na boca do tal Tio..."" MRS é um pantomineiro com graça "" ! Não conheço nenhuma mais apropriada.
- claro que a verdadeira culpa, para depois do actual, vir agora "este", deve-se e muito às gentes do PS ,com Guterres à cabeça! Este, que deu muito ao Partido, recebeu do Partido muito mais! E numa altura que o partido precisava dele desesperadamente, não quer saber da " piolheira ".Sem o PS arrisco que trabalharia numa Consultoria, e dava aulas de Matemática na Musgueira, assim é intimo (salvo seja) da Angelinne Jolie.
Para ajudar à festa, o PS enredou-se numa "teia presidencial" em que ninguém de bom senso acha que vai sair bem.
- desculpe o espaço que lhe roubei, e permita-me um abordar disto: será que não aceitou ser Min dos N E, por comodidade e lugares em Empresas ? ou simplesmente não foi convidado ? Aqui em Espinho correm as duas versões.
- agora em tom ameno..fala de Clubes que Marcelo não segue, mas ignora o clube dele (segundo diz) o Braga, que esta semana eliminou o seu... não mencionou por vingança ! Estou a brincar !!
Carlos Andrade - Espinho

Jaime Santos disse...

Para aqueles que opinam que nada pode ser pior do que Cavaco, eu digo apenas esperem pela eleição de Marcelo Rebelo de Sousa e verão. E depois não se queixem...

Fátima Diogo disse...

Eu já desconfio há muito que não faço parte da "esmagadora maioria dos portugueses", às vezes até me interrogo se serei portuguesa, apesar de ter nascido cá, de mãe algarvia e pai alentejano - e nunca ter pedido outra nacionalidade!
É que em nossa casa não entra esse Marcelo, nunca vimos o seu programa, embora pelo meio dos telejornais nos tenham sido apresentado imensos excertos do dito programa - essas amostras nunca nos cativaram para ver tal banalidade e a sua faceta histriónica repele-nos.
Só me lembro de um banho ridículo no Tejo de um candidato perdedor do PSD ou PPD, não recordo qual dos nomes era usado então.
Chegando à essência : hoje num Telejornal, lá nos enfiaram novamente o homem com cognome de " professor" - bem, falando sobre o Banif disse as banalidades do costume e , sem nunca mencionar o PSD, criticou o seu vergonhoso comportamento de esconder esse lixo para baixo do tapete. Sabia que o seu "esmagador povo português" não perceberia a crítica não explícita, mas precisa também do voto da esquerda inteligente, que perceberia muito bem.
Duas conclusões: 1- o homem nào está assim tão seguro sobre a sua "esmagadora maioria de ouvintes fiéis".2- o homem é um farisaico cobardola - os mais perigosos...

Borvo disse...

Num acto eleitoral que já bateu o recorde de candidaturas anunciadas (embora não se saiba quantas destas se concretizarão) é do nosso entender que todos os candidatos, apesar das aparentes diferenças para o faz-de-conta da pluralidade, são seguidores do mesmo modelo mundialista, que nos tem vindo a ser imposto, seja pela vertente do capital apátrida, seja pela vertente multicultural ou por ambas.

Todos os candidatos anunciados para as presidenciais se pautam por um paradigma que não é o meu (nacionalista) e não salvaguardam minimamente os interesses nacionais, mas antes os múltiplos interesses de um sistema podre e vicioso.

Não se vendo nada de novo neste horizonte eleitoral, é caso para dizer que todos eles, talvez uns mais que outros, são bem a imagem desta re(les)púplica. Candidatos e sistema, estão muito bem uns para os outros!

Não acreditando em nenhuma das candidaturas, antes pelo contrário, aconselho todos os verdadeiros Patriotas a não apoiarem nenhuma delas.