sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Em que ficamos?


Há pouco tempo, assistimos a um espetáculo insólito: no dia em que o governo minoritário PSD/CDS foi derrubado na AR, sindicatos ligados à CGTP organizaram uma manifestação em frente de S. Bento. 

Em Portugal, ninguém põe em causa o direito de reunião de quem quer que seja, dos sindicalistas ao grupo de “tias” que então contestou a legitimidade da união das esquerdas. O 25 de abril fez-se para isso mesmo. 

É essa liberdade que reivindico para exprimir o desconforto que senti com a realização dessa manifestação (a outra era mero folclore e deve ter acabado nos antiquários de S. Bento, p’cebe?). No momento em que, cá dentro e lá fora, se suscitavam fantasmas sobre a inédita opção de António Costa, “cercar” o parlamento traria inevitavelmente à memória o triste episódio de há 40 anos, quando sindicalistas, sob a cobardia ou a impotência do MFA, sequestraram os deputados à Assembleia Constituinte. 

Desta vez é diferente? É, mas não deixa de ser de uma imensa inoportunidade. Além disso, o gesto funcionou como um recado aos representantes eleitos do povo: “lembrem-se de que estamos aqui, que, se as vossas decisões nos não agradarem, cá estaremos na rua para vos contestar”. É como se a vontade expressa pelo povo português nas eleições legislativas ficasse refém dos interesses corporativos das tropas do senhor Arménio Carlos.

Talvez seja ingénuo, porque não estou no segredo dos deuses das conversas “das esquerdas”. Porém, tinha por adquirido que um governo do PS, com o inédito apoio parlamentar do PCP (o Bloco é irrelevante para esta história), poderia vir a contar com um apaziguamento relativo das tensões sindicais, pelo menos por algum tempo. Ao assumir o gesto de reverter o processo de privatização de algumas empresas públicas de transportes, o PS havia dado um passo com um elevado custo, no mínimo político. A gratidão não é um conceito da vida pública, mas imaginei que, pelo menos até assentar a poeira desta crise, os sindicatos revelassem alguma contenção.

Pois não senhor! O que se anuncia é uma onda de greves, nomeadamente na área dos falidos transportes públicos, o setor onde o governo assumiu o mais difícil dos seus gestos. Já se percebeu que a estratégia do senhor Arménio Carlos – estranho já o silêncio do senhor Mário Nogueira, com certeza desejoso de reeditar a miserável campanha que organizou contra Maria de Lurdes Rodrigues – é “esticar a corda”, agora que o saldo financeiro das quotizações sindicais já está garantido nos bolsos da CGTP.

E o PCP, de cujo Comité Central estas figuras fazem parte? Não tem nada a dizer sobre isto?

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

12 comentários:

Maria Eu disse...

Incompreensível!

Boa noite.

Majo disse...

~~~
~ Completamente solidária

com a sua opinião e sentimentos.

~ Constatamos que há clivagens entre as cúpulas

das referidas centrais sindicais e as do PCP.

~ Um problema de honra para Jerónimo de Sousa.
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Anónimo disse...

Sr. Embaixador,

A esmagadora maioria dos portugueses estão-se completamente a borrifar para a política e nomeadamente para os políticos. Estes não inspiram um mínimo de confiança. As pessoas querem é dinheiro para os gastos, comida na mesa e roupa lavada. Seja o PS com apoio do PCP, Verdes e BE ou PSD com a muleta do CDS isso não interessa para nada. CGTP, UGT e demais sindicatos irão continuar-se a bater por melhores condições de vida das pessoas.

msampayo disse...

A grande contrapartida oferecida ao PCP para viabilizar o governo de Costa foi a reversão da concessão aso privados dos tranportes públicos. Para o PCP só esta medida valia todo acordo. Acho até que daria de barato todas as outras. Com os transportes em mãos públicas o PCP mantém em suas mãos, através dos "senhores" cordelinhos com que controla o CGTP, a sua força e infuência sociais que de outro modo, com a concessão, iria inexoravelmente, ao longo do tempo, perdendo. E com a CGTP passar-se-ia o mesmo. Por isso, enquanto não virem a reversão preto no branco não nos vão dar descanso. Ao governo e a nós. Para eles é quase uma questão de vida ou de morte.

Regalei-me ver a dupla Passos/Portas a ser, democraticamente, remetida para as cadeiras da opoisção. Foi e é um consolo. Mas temo que o preço tenha sido demasiado elevado. Quanto não valeria ao país ver mirrar a desmesurada influência que o PCP e CGTP detêm ainda? E que, deste modo, deterão por muito mais tempo.

Joaquim de Freitas disse...

Encontramos nesta situação política, bem à vista, uma das fraquezas da democracia portuguesa : a falta de educação política, não só de muitos eleitores como dos responsáveis sindicais.
Quando vejo todos os escândalos que saem agora da sombra ou das gavetas ministeriais, e que descubro a verdadeira personalidade do presidente e de alguns dos seus ministros, pergunto a mim mesmo como foi possível que tivessem obtido tantos votos , que lhes permitiram chegar ao poder.

Quando constato a atitude dos dirigentes sindicais neste momento, estou de acordo com o Senhor Embaixador : Porquê ?
Atitude contraproducente por varias razões : não é o momento "económico", porque era preciso unir e arrancar em força, no bom sentido, quanto mais não seja, para os Portugueses que trabalham ; não é o momento "político", porque os "outros" só esperam isso : a desunião e as dificuldades para o governo da esquerda , e que importa a situação económica ; e não é , uma vez mais, o momento político, porque a oposição vem dizendo exactamente o que vai suceder se não houver união e uma certa "temporização" dos sindicatos : a queda brutal.

E no fundo, o risco é grande de ver a esquerda dar lhes razão na análise que fizeram desde o início da reunião dos três partidos de esquerda: a sua impossível mistura num objectivo comum.

A clientela dos partidos não é sempre exactamente a mesma dos sindicatos, mas são as reivindicações mais que as ideias e as esperanças, que fazem agir os sindicatos. Os sindicalistas têm a preocupação de conservar o seu potencial reivindicativo , mais que a ideia do socialismo. Por isso existe a concorrência das exigências ou reivindicações entre os diversos sindicatos. A "surenchère" é permanente.

Por a ter vivido durante anos, no seio duma empresa de 300 pessoas, que dirigi, é que constatei que, mesmo se , por efeito duma varinha mágica, eu tivesse adivinhado e concedido prévia mente, sem discussão, tudo o que podia ser "pedido" pelos delegados sindicais, estes, encontrariam sempre outras reivindicações às quais eu não teria pensado! A reivindicação é a justificação duma existência sindical. O sindicato mais votado é o que consegue "arrancar" mais do empresário.

Mesmo quando o "ambiente" é favorável e que não existem fricções entre os dois poderes, porque os negócios vão bem e que o nível salarial é correcto, como o resto, a política nacional vem por vezes perturbar a paz sindical. Em França, cada vez que havia em Paris "une épreuve de force" entre o governo e o PCF, eu devia interpretar a significação da greve que imobilizava a firma. A ordem proveniente da praça do Colonel Fabien era fácil de interpretar !

António Costa vai ser obrigado a "navegar" entre os escolhos dos seus partidos de governo e "as correias de transmissão", que por vezes patinam... E que por vezes são mais prejudiciais que a oposição!

António Azevedo disse...

Que tal provar do próprio veneno?
antónio pa

Joaquim de Freitas disse...

"Quanto não valeria ao país ver mirrar a desmesurada influência que o PCP e CGTP detêm ainda? E que, deste modo, deterão por muito mais tempo."

Esta reacção do Senhor "msampayo" é interessante, porque demonstra bem que ainda há um caminho a percorrer, na democracia portuguesa, para chegar ao famoso consenso necessário para formatar um país moderno. A não ser que se deseje viver numa ditadura de direita ou de esquerda, os sindicatos, com todas as suas exigências e manobras políticas, fazem parte do mundo do trabalho...e da produção das riquezas.

Se o mundo que possui os meios de produção, os empresários, e o sistema capitalista no qual este evolui, com o apoio do Estado que cria as leis, tivessem sido sempre justos na partilha da riqueza produzida, talvez o mundo do trabalho não precisasse de organizações mais ou menos violentas, para o representar e defender.
Na realidade, sem estas organizações, o mundo do trabalho estaria ainda na era das 10 horas de trabalho diárias, 6 dias por semana , com salários de miséria.

Quando, após duas dezenas de anos de ausência de Portugal, regressei à minha Pátria, em missão profissional e descobri que muitas empresas não pagavam os salários ou os pagavam com semanas e mesmo meses de atraso, não queria crer o que ouvia. Mas os Mercedes estavam no parking...

Quando vi , em Portugal, crianças trabalhar, com idade de ir para a escola, a desengordurar peças metálicas por cima dum bidão de solvente tóxico, sem ventilação, compreendi porque existem no país onde vivo, reuniões mensais de CHST ( Comissão de Higiene e Segurança no Trabalho) com os delegados sindicais, compreendi porque haviam sindicatos.

A qualidade de vida e das relações sociais, particularmente entre empresário e trabalhador ,começa pelo respeito do mais fraco, isto é, daquele que só tem a sua força dos seus braços para oferecer. Depois, tudo é mais fácil.
E os que se proclamam da esquerda devem ser ainda mais sensíveis a esta necessidade, sem a qual não há progresso. "Mirrar a influência ", diz? Não, equilibrar a influência pela justiça social.

netus disse...

Por óbvias razões, não têm nada a dizer, nunca irão dizer nada, para além de, eventualmente, salientar a "independência entre o partido e a central sindical.
António Cabral

Anónimo disse...

Assim se vê a força do PC!

aamgvieira disse...

O sr freitas continua a passar ao lado da situação de pré-apocalipse social sustentado por fanáticos.

Joaquim de Freitas disse...

Francamente, senhor aagmvieira, gostava que me dissesse, do seu comentário hermético, quem prepara desde há muito a pre -apocalipse social e quem são os fanáticos.

aamgvieira disse...

Não sabe, basta olhar à sua volta.