terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A Claude e a Natércia


Madame Claude, que agora morreu aos 92 anos, oficiou uma das mais famosas "casa de meninas" de Paris, com a entrada que a imagem mostra, na rua de Marignan, entre a Montaigne e os Campos Elísios. Por lá passaram nomes ilustres, que isto das necessidades toca a todos.

Para alguns das novas gerações, o conceito é, no mínimo, bizarro e até pode surgir como "disgusting". Imagino também que o feminismo reaja sem contemplações a este tipo de evocações, onde sempre detetará alguma inevitável nostalgia. O politicamente correto esforça-se por colocar estes modelos no passado, embora todos saibam como as coisas se passam hoje e, com toda a certeza, se continuarão a passar no futuro. E, já que têm que se passar, ao menos que se passem com classe. É que, tal como a diplomacia, há profissões que não deixam de estar na moda. 

Para quem por cá viveu esses outros tempos, em que os costumes impunham outro tipo de regras, as "casas de tias" faziam parte da paisagem, quer urbana quer rural. Mais ou menos luxuosos, esses antros simpáticos de vício foram uma pré-primária do sexo para muita gente. Quantos lisboetas frequentaram o 100 da rua do Mundo ou o 5 da rua da Barroca? E que portuenses conheceram o 515 da rua da Alegria ou o 59 da rua Mártires da Liberdade? Algumas das nossas "madames" tinham nomes consagrados, o seu estatuto raramente era posto em causa, porque "se davam ao respeito", ora bem! E, por essa altura, a ninguém passava pela cabeça falar de "casas de alterne".

Mas afinal quem era a Natércia referida no título? Era uma senhora da rua dos Ferreiros, em Vila Real, para cuja casa, na minha infância, e da minha varanda das traseiras, eu via convergir pelotões de soldados do RI13, num movimento que os meus pais se atrapalhavam com sorrisos para justificar e que eu sempre teimava em tentar entender. 

Um dia, a ambulância dos bombeiros (era a "maca nova", dos bombeiros "de baixo", cor de areia, lembro-me bem) sirenou, rua abaixo, até à porta da Natércia. Alguém disse: "foi um soldado que morreu lá, de congestão". Porque a congestão era um conceito que eu associava ao banho depois da refeição, lá fui eu perguntar ao meu pai se o quintal das traseiras da casa da tal Natércia ia até ao rio Corgo e se o rapaz teria morrido de congestão ao tomar banho. Terá sido a única vez que vi o meu pai dar uma gargalhada ao falar de uma morte. Andei uns tempos mais até perceber tudo. Ah! Mas à Natércia nunca fui, juro!... 

8 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Il y a celles qui disent qu'elles ne sont pas à vendre, et qui n'accepteraient pas un centime de vous! Ce sont généralement celles-là qui vous ruinent.
Sacha Guitry

Anónimo disse...

Historias paralelas e diferentes em Vila Real e Paris. Em Londres, Cynthia Payne morreu em Novembro com oitenta e tal anos. Tendo comecado num bordel decidiu abrir casa por conta propria, aceitava "luncheon vouchers" como pagamento, proibiu a entradano seu establecimento a homens com menos de 40 anos, foi presa, posta em liberdade continuou na sua actividade e Jeffrey Barnard descreveu-a como "the greatest Englishwoman since Boadicea". Ha varios filmes e documentarios sobre ela e o funeral foi um desfile!!!Ha registos nos jornais e canais de televisao.

Como acabou a Natercia? Ou ainda vive?

Feliz Natal

F. Crabtree

Anónimo disse...

"Mas à Natércia nunca fui, juro!...", mas quanto à rua do mundo...

Anónimo disse...

Estas recordações levam-me a lembrar a Madame Blanchye em Lisboa, nos anos 50. Também juro que nunca fui visita desta casa. Mas é bom recordar estas coisas.

Anónimo disse...

Francisco, Francisco, és um ingrato! Como pudeste esquecer as noites de volúpia que te dei? Como desprezas os afagos fogosos que trocámos? Olha, eu, quase centenária, não esqueci! Arranja-me um jornalista jeitoso, que eu ainda escrevo as minhas memórias. Tua

a) Natércia

Anónimo disse...

As putas são gente de bem. Não pagam impostos, nem nos cobram IVA e recebem qualquer um, sem distinção de idade, se é clavo ou cabeludo, se gordo se magro, se rico se remediado, ou podre desde que lhes pague o frete. E não pedem nada ao Estado (como os Bancos, sempre de mão estendida para um resgatezinho, sempre que o negócio corre mal). Até acho que algumas dariam boas Ministras, dependendo das Pastas.
a) Filho de uma delas

Joaquim de Freitas disse...

O anónimo das 18:39 : Em França, a prostituição paga impostos: Como trabalhadores independentes, as prostitutas pagam portanto imposto sobre rendas (Regime dos Benefícios não Comerciais), a taxa profissional , a URSSAF (cotização segurança social) e o IVA.

Mas em França a prostituição não é proibida. O que é proibido é a "acostagem" na via pública e o proxenetismo.

Aliás, se reflectimos bem, receber uma parte dos benefícios das prostitutas consiste finalmente a fazer proxenetismo portanto de Estado.

Podemos questionar-mos se a mais antiga profissão do mundo é prostituta ou cobrador dos impostos.

Anónimo disse...

Bom dia

Ao abrir "The Independent esta manha fui como sempre aos obituarios. Paul Levy assina o obituario de Madame Claude. Como e interessante e da a vertente de um britanico em Paris com os primos Americanos recomendo a leitura.

Continuacao de BF com rabanadas.

F. Crabtree