quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Banco é Caixa

Em alguns círculos persiste a ilusão de que os diplomatas são uma casta regiamente paga, usufruindo de uma vida de luxo e, por essa razão, com vastos "cabedais", talvez colocados em paraísos fiscais. Se esses círculos verificassem, com regularidade, no "Diário da República", as ridículas reformas de embaixadores com cerca de 40 anos de serviço, talvez mudassem de ideias.

No início do ano passado, em Paris, caí por acaso num curioso ambiente de conversa. Uma noite, depois de um jantar, discutia-se, em casa de um magnate, a "tragédia" que era a progressiva transparência do mundo da banca, a qual, cada vez mais, impedia o tradicional refúgio em bancos da Suíça ou do Lichtenstein. Os meus interlocutores sentiam-se agora progressivamente condicionados na sua liberdade de investimento e condenados a regimes fiscais bem menos favoráveis do que aqueles a que estavam habituados.

A certo ponto da conversa, na qual, por razões que só para mim eram óbvias, eu me sentia algo isolado e em que não tinha intervindo, um dos circunstantes, um simpático aristocrata no ativo e riquíssimo industrial na reforma, voltou-se para mim e perguntou:

- E você, Francisco, em que país coloca os seus investimentos financeiros? Com a sua experiência diplomática, deve ter descoberto bons locais para investimento...

Soubessem eles o que eram os meus "investimentos financeiros" e a pergunta só surgiria por ironia. Mas não: falavam a sério, convictos da minha "riqueza". Assim, deu-me algum gozo, embora tivesse a consciência de que, nesse instante, baixava uns bons furos na escala de avaliação social do grupo, poder responder:

- Eu coloco todo o meu dinheiro em Portugal. O banco que mais uso é do Estado e chama-se Caixa Geral de Depósitos.

Nesse instante, tive a certeza que o meu pai, leal funcionário da Caixa entre 1930 e 1977, e que nesse ano de 2010, se fosse vivo, completaria a idade da nossa República, teria ficado orgulhoso com a minha resposta. 

22 comentários:

Anónimo disse...

Sem palavras
Isabel Seixas

patricio branco disse...

tenho sentimentos mistos e mesmo contraditórios em relação à CGD:
por um lado um banco grande e seguro com a garantia de ser do estado, inspirando confiança. Por outro, um banco austero, pouco interessante para o pequeno cliente particular, oferecendo produtos não atractivos, pouco imaginativos e de baixo rendimento.
O conforto das agências tambem deixa cada vez mais a desejar. Na que mais frequento, fizeram obras e reduziram drasticamente o numero de assentos usados pelos clientes que esperavam a sua vez (antes havia 12, agora há 3 e muitos clientes são idosos). Deixou de haver senha com o nº de vez e as caixas de atendimento passaram de 5 a 2, havendo agora que fazer bicha em pé e esperar mais tempo.
De qualquer modo melhor que continue publico.
Interessante ouvir FSC falar da CGD em 1930 (que rede teria?) e dos 47 anos de serviço do pai.
Uma nota pessoal: alem da CGD uso um pequeno banco português, com poucos balcões (creio que em Lisboa só tem um, maximo 2), quase desconhecido, mas pelo qual sinto uma simpatia enorme e onde gosto de ir.

patricio branco disse...

E tenho muita pena que o Banco Nacional Ultramarino tenha sido fechado ao ser comprado pela CGD.
Mesmo integrado no grupo, podia ter mantido a sua individualidade.
a magnífica e arquitectonicamente imponente antiga sede, na rua augusta, pertence à câmara m de lisboa e está totalmente desaproveitada há anos

Anónimo disse...

A questão das baixas reformas dos diplomatas não terá a ver com o facto de não descontarem sobre a totalidade dos vencimentos ao longo da vida? Não será por isso que, por vezes, se verificam reformas altas atribuídas a funcionários inferiores da carreira mas, talvez, mais previdentes na administração do seu futuro?
João Vieira

Helena Sacadura Cabral disse...

Tem em mim alma gémea. Quando digo que me reformei do Banco de Portugal, perguntam-me porque trabalho (tanto). Já nem explico que pertenço a um grupo de noventa trabalhadores que, tendo dirigido um serviço, não foram reclassificados, recebendo por isso cerca de metade daquilo a que teriam direito.
E nenhum dos brilhantíssimos governadores daquela casa teve, até hoje, a mínima preocupação em resolver o problema destas nove dezenas de trabalhadores...
Assim, continuo a trabalhar muito e a depositar o que tenho em Portugal. Já tive, como o Senhor Embaixador, o meu dinheiro na CGD. Mas depois da vergonha do caso BPN, que todos andamos a pagar, por motivos que me abstenho de aqui referir, por respeito com esta sua Casa, subiu-me a mostarda ao nariz e pu-lo noutra instituição que, por enquanto, julgo, não andará a financiar os buracos dos congéneres, nem tem na sua administração, os que vieram da dita CGD.
E creio que fiz muito bem, porque este dinheiro não vem de heranças e é o produto duma vida inteira de trabalho. Já basta aquele que me tiram para pagar as asneiras que não deveriam ter sido feitas, com o silêncio cumplice de quem devia fiscalizar e punir e o não fez!

Cunha Ribeiro disse...

Caro Embaixador,

O seu excelente ( mais um) texto é curto mas é de uma densidade sociológica incomum.
Com efeito,o sentimento que exprimiu sobre o que pensariam os seus convivas milionários ao descobrirem que, afinal, não estavam perante um homem " da estatura financeira dos próprios", e, portanto, socialmente uns "graus abaixo dos mesmos" coloca-nos perante a grande questão social dos nossos dias: " A consideração social nos nossos dias sustenta-se em que valores? No dinheiro ou riqueza ou na honestidade dos indivíduos?"
A resposta, quem a não sabe?
Eu, que sou professor, sinto há décadas a minha pequenez nesse domínio. ( E para o demonstrar nem preciso que me comparem com o Ronaldo...).

Joel de Sousa Carvalho disse...

Olá a todos os que vão ler este comentário neste blogue ou noutro muito bom como este. Pois é, estou encantado com todos estes posts bem feitos, quase que desenhados. Pois, eu gostava de fazer igual, mas não consigo. O meu dilema agora é cozinhar… A vida é dura e obrigou-me a morar sozinho, e a cozinha não é de todo o meu local favorito. Mas estou a tentar conhecê-la, mas as aventuras têm sido imensas. Fiz um blog humilde para colocá-las em forma de crónica pouco extensas. Gostava muito que todos vocês o visitassem e se possível o seguissem. É que tentar cozinhar e depois não ser ajudado, é algo muita mau.
Cumprimentos a todos!

http://tenhosalfaltamecolher.blogspot.com/

Anónimo disse...

Também sigo a tradição dos meus pais e "Banco é Caixa", não tenho contas em mais lado nenhum.

Como, nos últimos anos, digo frequentemente que "qualquer dia vou arejar para outra freguesia"... decidi, na última semana de 2010, deslocar-me a dois bancos para saber as eventuais condições de transferência.

Fiquei desapontada e sem saber se a oferta é motivada por ser um período de "vacas magras" ou por se aplicar a velha máxima do "nunca se muda para melhor"!

Isabel BP

Julia Macias-Valet disse...

Pois eu cara Isabel BP fui a primeira a nao seguir a tradiçao da familia : nem funcionaria publica, nem conta na Caixa.

Para mim "Banco é Banco" : ))

O que mais adoro na Caixa ?
O sistema de ir meter a caderneta na "maquina" para ver o saldo...a anos luz de contas em paraisos fiscais ; )

Joel de Sousa Carvalho, quando li o seu comentario pensei que o seu blog se chamava : tenhobancofaltameodinheiro : ))))

O PSICOALPINISTA disse...

Senhor Embaixador Basta !
Quem desconta recebe. Acabe por favor com mentiras alimentadas.
Ninguém tem nada contra alguém é um direito. Chega já não consigo calar-me sobre tanta injúria.
Fale VERDADE !

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Psicoalpinista (com comentário publicado): "Injúria"? Injuriei alguém? Claro que os embaixadores recebem de acordo com aquilo que descontam, como toda a gente. Nem mais nem menos. Quem disse o contrário? As reformas são "ridículas" por comparação com a ideia feita da sua abastança, tema que se abordava no post. Posso saber a que propósito vem a questão da "mentira" ou da "verdade"? Não percebi.

Cunha Ribeiro disse...

O PSICOALPINISTA se calhar tb acha que o Presidente da República tb ganha bem...
Não percebe ou não quer perceber que o mal está no que se ganha em comissões e outras coisas que tais ao serviço dos Offshores...
Não percebe... Que se há-de fazer.

cunha ribeiro disse...

DE LOUVAR a publicação do comentário quase insultuoso, por parte do Sr Embaixador!
O que demonstra mais uma vez a sua abertura crítica.

Julia Macias-Valet disse...

Carissimo Joel de Sousa Carvalho, a continuar com esta pedalada o meu amigo vai ganhar o prémio de Marketing & Publicidade de 2011. É que com 60 comentarios ao post de abertura, 50 no dia seguinte sobre "Caldos Knorr" e 144 seguidores em 2 dias de existência do seu blog... ou ha aqui um bocadinho de batota...ou isto tornou-se p'ra mim num mistério tao grande como o da Santissima Trindade : ))

PS Digamos que a técnica de divulgaçao do blog...esta bem pensada, sim senhor !

patricio branco disse...

Que há por detrás do comentário a meu ver misteriosamente violento de PSICOALPINISTA? será que um comentador PSICANALISTA o poderia interpretar?

Anónimo disse...

O PsicoAlpinista talvez não saiba que um Embaixador, com – sublinho – 40 anos de carreira (!), recebe, quando vai para a reforma, 3 mil e poucos Euros!!!! Um qualquer gestor privado (e público) vai, por muitos menos anos, com uma muito maior fatia (e muitas das vezes, com outras mordomias, carro, etc, que não fazem parte da tal reforma de nenhum Embaixador) uma muito mais confortável “almofada”. Além de ter assegurado um bom pecúlio com os tais “prémios de produtividade”, ao longo dos anos (muito menos do que aqueles que levou o tal Embaixador chegar ao topo da carreira). A diferença entre o tal Embaixador (ou diplomata) reside no facto de se os objectivos forem cumpridos, essa é a obrigação do tal Embaixador e diplomata, não devendo por conseguinte esperar “benesses” financeiras. È a sua, deles, diplomatas/Embaixadores, obrigação, fazer o melhor que podem, sabem e se empenham, pelo (seu também, caro Psico) País. Ao contrário de outros, privados, ou “encostados” ao “sector participado/público”, que só funcionam na base do dinheiro. E depois, ao fim de 4 décadas, “pega lá 3 mil e pouco euros e vai para casa!”. Um Embaixador, para o ser, passou por um filtro muito rigoroso, que muitos dos tais gestores a tal nunca seriam obrigados. Para depois receberem reformas humilhantes.
P.Rufino

Anónimo disse...

Senhor Embaixador (sem querer referir-me ao Senhor), estamos a falar de reforma no sentido próprio da palavra.Eu também acharia que as reformas dos embaixadores são uma miséria comparadas com as de outros funcionários, se os "subsídios de representação" que são atribuidos aos embaixadores fossem de facto usados para representar o Estado, mas quando se vê que esses subsídios, da ordem dos 9.000 Euros mensais(estou só a dar valores médios) isentos de impostos, são utilizados para tudo (shopping, compra de carros e casas pessoais de luxo), acho que também poderiam subscrever um PPR com as economias que fazem com o "subsídio" (o que se calhar fazem de froma discreta).
Friso mais uma vez que não estou a refrir-me ao Senhor, mas à maioria (infelizmente)dos Embaixadores.
Só lamento as reformas de Embaixadores como o Senhor que representam o nosso país honestamente e com muita lealdade e dignidade.
F.S.

Anónimo disse...

Pelo menos "O PSICOALPINISTA" e outros portugueses residentes no estrangeiro, mais contestatários, já não podem argumentar que em Portugal vivemos à conta das remessas dos emigrantes.

Esse argumento, ouvido anos a fio, já foi "chão que deu uvas"!

Isabel BP

cunha ribeiro disse...

Sr Embaixador:

Atenção ao que disse o ANÓNIMO ( só por ser anónimo já me parece pouco credível) que fala em subsídio de representação.

Talvez devesse ser rebatido, caso contrário a dúvida fica no ar...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Cunha Ribeiro e caro Anónimo: todos os diplomatas (portugueses ou estrangeiros) recebem, quando colocados no exterior, um subsídio chamado "de representação", que varia de acordo com a categoria, as responsabilidades e o custo de vida de cada local. Essa "representação" (que pode ter a forma de um auxílio ao aluguer de habitação e para ajuda a despesas escolares dos descendentes, obrigados a recorrer a escolas internacionais para garantir a continuidade educativa no futuro) tem de ser justificada, com apresentação regular e fundamentada dos atos promovidos em que esse dinheiro foi gasto. Faço isso com toda a regularidade. Por lei, não incidem impostos sobre essa verba para despesas da qual, igualmente, também não somos autorizados a descontar para a Caixa Geral de Aposentações, por não ser considerado um salário.
Mas não nos importaríamos nada de pagar impostos sobre as verbas de "representação", desde que elas fossem previamente atualizadas (o que não acontece há mais de uma década) pelo montante exato do primeiro desconto, como aconteceu quando os funcionários públicos passaram a pagar IRS sobre o seu salário.
E, nessas circunstâncias, também estamos dispostos (mas, por ora, estamos a isso impedidos por lei) a descontar dessa verba para a Caixa Geral de Aposentações.
Três pontos ainda me parece importante citar, para melhor caraterizar a "condição diplomática".
O primeiro prende-se com a habitação: os diplomatas têm, quase sempre, de alugar uma casa no estrangeiro (com condições para fazerem "representação" - receber colegas e individualidades locais ou visitantes)e manter uma casa em Portugal (alugada ou sua propriedade), mesmo quando permanecem no estrangeiro (alguns conseguem alugá-las nesse período).
O segundo prende-se com os cônjuges: imensas vezes, o cônjuge que acompanha o diplomata perde ou prejudica gravemente a sua profissão em Portugal, pelo que a "condição diplomática" é como que uma dupla exclusividade, com consequências muito relevantes nos réditos familiares.
E, finalmente, a saúde: contrariamente ao que a lei prevê, o Estado nunca cumpriu a obrigatoriedade de providenciar seguros de saúde para os seus diplomatas expatriados, limitando-se a contribuir com um subsídio anual para a Mutualidade criada e mantida por esses funcionários, para a qual, mensalmente, eles têm de descontar uma importante verba do seu salário (que se agrava muito, quando no estrangeiro), a fim de poder compensar (mas nunca cobrir) o valor limitado que a ADSE paga das (por vezes muito consideráveis) despesas de saúde no estrangeiro.
Os diplomatas não são uns "coitadinhos", não se queixam da vida que escolheram, mas o seu estatuto de vida está, geralmente, muito longe de ser o que "se pinta", em especial pelos profissionais do despeito, parte dos quais nunca teve de fazer o percurso de exigência profissional dos diplomatas.

Anónimo disse...

"Em especial pelos profissionais do despeito, parte dos quais nunca teve de fazer o percurso de exigência profissional dos diplomatas".
In comentário a comentador(FSC :2011)

Sr. Embaixador...

Permita-me que subscreva torne extensivo e projete nos Enfermeiros e professores do ensino superior o mesmo legitimo desabafo, só porque são as realidades profissionais que eu conheço.(Não descurando outras que também não auferem do efeito de Halo dos privilégios adquiridos na boleia da lei de oferta e procura)

Isabel Seixas

Cunha Ribeiro disse...

Sr Embaixador,

Impressionante lição de humildade a sua. Magnífico e completíssimo esclarecimento.

Muito obrigado.