Lula parece estabilizar a sua liderança nas sondagens. Repetirá a vitória de há 20 anos, embora o PT pareça mais radical do que então? A bipolarização da sociedade brasileira nunca foi tão forte e o poder de Bolsonaro, e daquilo que ele ainda representa, não deve ser desprezado.
sábado, março 12, 2022
As batalhas de Zelensky
Há quatro batalhas que Zelensky parece já ter perdido: a da entrada para a NATO, a da adesão à UE, a da zona de exclusão aérea e a das sanções abrangerem gás e patróleo. A Rússia parece agora determinada a que ele perca a batalha de Kiev.
A ter em atenção
Começa a ser evidente que as forças armadas russas começam a tomar posições e a destruir linhas de abastecimento à Ucrânia, ligando, em especial, à Polónia. Se acaso houver incidentes entre russos e não- ucranianos envolvidos nessas ações, as coisas podem escalar num instante.
Massa tenra
Sou do tempo (isto é, até há semanas) em que o mundo dos negócios europeu estendia passadeiras rubras, com menor ou maior desprezo e sobranceria social, aos multimilionários (oligarcas já está muito gasto…) russos. Agora, de repente, eles passaram a ter peste. Estranho mundo!
… e a França aqui tão perto!
A Ucrânia tem-nos desviado a atenção, mas há uma pré-campanha presidencial a decorrer em França. Assisti, há pouco, a um debate entre a candidata da direita democrática, Valérie Pécresse, e a figura surpresa da extrema-direita, Éric Zemmour. Nem imaginam a violência das palavras!
Cair na rede
O que mais me surpreende é que gente sensata e que devia ser adulta deixe que, no seu quadro de relações pessoais, as redes sociais se tenham transformado numa espécie de “second life”, aí gerando afetividades e ódios, zangas e abraços. Cresçam, caramba!
Os filhos ilegítimos de Trump
Há cerca de dois anos, escrevi no “Jornal Económico” o artigo que a seguir reproduzo. Hoje, por razões de oportunidade, apetece-me repeti-lo. A grande diferença, face ao momento em que o publiquei, é que Trump já não está na Casa Branca, sendo hoje uma nostálgica saudade para as pessoas que retrato no texto:
”Não sei como se chamam, nem sei como chamar-lhes. É uma raça política estranha, que vive num registo cheio de contradições, se calhar em sintonia com este estranho e novo tempo – o qual, no discurso ácido de que agora se alimentam, chega a parecer velho. Às vezes, parecem de uma esquerda radical, outras vezes chegam a tresandar a uma direita velha e relha.
O fim do mito soviético, enterrado nas pedras do muro derrubado em Berlim, tornou muitos deles órfãos de um passado político do qual, curiosamente, nem sempre haviam sido seguidores incondicionais. Mas a desaparição ou falência de um certo tipo de partidos, em países onde a esperança já teve melhores dias, acabou por conduzi-los à “terra de ninguém” onde hoje vivem.
É difícil catalogá-los numa mesma prateleira, sendo que o único denominador comum entre todos parece ser a sua sedução por modelos autoritários, a recusa da globalização e a identificação caricatural que fazem das democracias liberais com o neo-liberalismo mais maléfico. Têm dois alvos de eleição: a Europa integrada, tida como símbolo do regresso da Alemanha ao lugar de comando, e um mundo ocidental sob a matriz da NATO.
O principal farol que os ilumina é a figura de Vladimir Putin, visto como o chefe da resistência a um mundo que diabolizam. Alguns alimentam uma discreta sedução por figuras como Orbán. Se lhes perguntarem por Lukashenko, dirão que é para manter no lugar, quase apenas e só porque o líder bielorrusso desagrada àqueles que eles detestam. O Donbass é um seu lugar de culto e o teste do algodão é a resposta à pergunta sobre se a Crimeia é ou não legitimamente russa.
Erdogan é simpático a muitos. Maduro a outros tantos. Apoiam quem mantiver Cuba “do outro lado”. Olham com bonomia divertida a Coreia do Norte, pela irritação que provoca em quem eles não gostam. No Médio Oriente, protegem Assad e o Irão. Mas não é isso contraditório com a simpatia por Ancara? A lógica não é o seu forte e mandam às urtigas a coerência.
A irónica novidade é que Donald Trump é o grande culpado da sua reconciliação episódica com os Estados Unidos – depois de uma vida que alimentaram contra o satã yankee. Por isso, detestam a América de Biden, os democratas, tidos por cúmplices de uma Europa feita à medida dos interesses que desprezam. Se pudessem, davam cabo de Schengen, recuperavam o sentido nacional, último bastião do novo “no passarán”. Por essa razão, bateram palmas ao Brexit, vendo o afastamento do Reino Unido como uma oportunidade para diluir uma União Europeia que já não têm como projeto redentor.
É bem revelador do estado a que chegaram as coisas ouvir e ler esse discurso de sobrolho cerrado, adjetivando duramente os adversários, numa onda de desespero que, há que reconhecer, deixou de ter um porto político seguro de abrigo. Alguns andam pelas graves trincheiras das redes sociais, outros palestram declarações chocantes.
Uma coisa me parece evidente. Esses órfãos políticos são hoje os filhos ilegítimos de Trump. Pelo menos, até ver.”
sexta-feira, março 11, 2022
É de justiça…
… reconhecer que a cidade do Porto, cada vez mais, nos surpreende, em termos de bons restaurantes: o 1828, no fabuloso espaço WOW, em Gaia (não me peçam para explicar como lá se chega, mas o GPS ajuda), e o excelente Real by Casa da Calçada (no espaço do antigo Garça Real, na Praça D. João I) são dois dignos acréscimos à oferta restaurativa portuense.
11 de Março
Hoje é dia 11 de março. Nesta mesma data, em 1975 (caramba, já há 47 anos!), ocorreu uma tentativa frustrada de golpe de Estado, liderada pelo general Spínola. Nessa mesma noite, reuniu-se uma Assembleia do Movimento das Forças Armadas, com uma configuração um tanto atípica. A Revolução sofreu uma aceleração. Há tempos, o historiador António Louçã e a RTP ouviram-me sobre alguns acontecimentos dessa data, que, de certo modo, testemunhei por dentro. Pode ver aqui.
quinta-feira, março 10, 2022
Ex-excluídos
Vai ser muito interessante constatar que certos Estados, que estavam sob pressão devido ao seu comportamento desviante face às regras da comunidade internacional, pelo facto de estarem a ser conjunturalmente relevantes na crise ucraniana vão passar a ser olhados com outros olhos.
Vejam essa vesícula!
Há gente, aqui pelas redes sociais, que apenas publica textos ácidos, “naming names” sempre de forma acusatória, agressiva, revelando estar de mal com a vida. Podemos perceber que as coisas não lhes estejam a correr de feição, mas façam um esforço, caramba! E olhem pela vesícula!
A Oeste, nada de novo
A Ucrânia foi agredida pela Rússia por ter pensado que a sua vontade de vir a ter um destino (e uma segurança) ocidental seria apoiada, até ao fim, pelo ocidente. Já nas “primaveras árabes” essa mesma grande ilusão havia dado no que deu. Em ambos os casos, foi um equívoco trágico.
Conversas
Para além da questão da suspensão de hostilidades para corredores humanitários, não há uma verdadeira negociação entre a Ucrânia e a Rússia. Mantem-se um diktat russo, que apenas aguarda uma rendição ucraniana.
Exame prévio
É minha impressão ou aqui pelo Twitter começa a prosperar a ideia de que há certas opiniões que não têm direito a ser ouvidas? Vivi, em outros tempos, num país em que quem tinha ideias heterodoxas era, muito simplesmente, censurado. É isso que querem reeditar?
Artigo 5°
O Artigo 5° do tratado constitutivo da NATO é vulgarmente lido como implicando uma automática reação bélica conta o agressor de um deles. Não é bem assim. Ele obriga a “assistir” os países atacados, com ações “tidas por necessárias, incluindo o uso da força armada”.
Para além da bomba
Muito se tem falado, por estes dias, da possibilidade de o conflito da Ucrânia poder conduzir a um conflito nuclear. Lembraria que potências nucleares já mantiveram, entre si, conflitos usando apenas armas convencionais: URSS/China, Índia/Paquistão, Índia/China.
Ainda o nuclear
A tomada das centrais nucleares ucranianas por parte das forças russas foi lida como uma ação estranha e perigosa. Perigosa talvez fosse, estranha não é: 52% da eletricidade da Ucrânia é de origem nuclear pelo que essa ação daria à Rússia um controlo sobre um setor vital do país.
Ainda a Ucrânia, claro!
Hoje, estive na Antena 1 a falar sobre a Ucrânia. Se estiverem para aí virados, ouçam a partir no minuto 8:00.
Aqui.
“A Arte da Guerra”
Por razões óbvias, “Arte da Guerra” desta semana, o “podcast” do “Jornal Económico”, uma conversa com o jornalista António Freitas de Sousa, concentrou-se na questão da Ucrânia.
Pode ver aqui.
quarta-feira, março 09, 2022
Na Ucrânia, em outros tempos
Há pouco, descobri, neste blogue, um texto com 10 anos, sobre uma viagem, em 1980, à Crimeia, que era então ucraniana.
Dois anos depois da publicação do meu texto, a Crimeia foi ocupada pela Rússia.
Recupero aqui uma historieta contada nesse texto:
”A Ucrânia é um grande e belo país, com uma relação sempre muito complexa com Moscovo, polarizado política e humanamente entre uma tentação pró-russa e uma dinâmica favorável a uma maior aproximação com o ocidente, maxime com a União Europeia. Por lá se cruzam culturas políticas algo contraditórias, que oscilam entre as dinâmicas autoritárias a leste e os ventos da liberdade que sopram do oeste.
Fui à Ucrânia, pela primeira vez, há muitos anos, ao tempo em que era parte da União Soviética. Viajando numa baratucha excursão norueguesa, passei uma semana nas praias do mar Negro, com a curiosidade acrescida de poder sentir, com os meus próprios olhos, o ambiente do palácio de Livadia, onde, em 1945, muito do destino que o mundo de hoje ainda anda a viver foi desenhado pelas conversas entre Stalin, Churchill e Roosevelt.
Sem autorização para sair da cidade mais do que alguns poucos quilómetros, quase sem ter acesso a lojas e com escassos pontos turísticos acessíveis, pouco havia para fazer nessa estranha vilegiatura, numa cidade que já fora deslumbrante e que então sofria de uma decadência sem graça.
Uma tarde, passeando em Ialta, à beira-mar, com ar de uma oriental Riviera datada, demo-nos conta, de repente, de que imensas mulheres que connosco se cruzavam usavam sapatos vermelhos, todos do mesmo tipo. Eram dezenas, sem exagero, umas a seguir às outras.
Quase por acaso, fomos dar a um grande armazém, o qual, como era de regra na URSS, muito pouco tinha à venda (ainda me arrisco a ser contraditado neste blogue por algum nostágico, que por lá tenha andado de férias pagas pelo "Komsomol").
Entrámos, escapando a uma fila de mulheres que, de forma paciente, se formava escada acima, não se percebia muito bem para quê.
O mistério desfez-se, minutos depois: eram os sapatos vermelhos que "estavam a sair", expressão que, poucos anos mais tarde, muito ouviria em Luanda, nos momentos mais folgados do "socialismo esquemático" (expressão local que significava um tipo de socialismo cujo quotidiano só se podia suportar graças a "esquemas"). Nesse dia, como novidade, só havia à venda esses sapatos vermelhos...
Estou certo que as belas ucranianas de hoje já não usam sapatos desses, quanto mais não seja porque muitas foram aculturadas a detestar o vermelho.”
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