segunda-feira, fevereiro 22, 2021

“Observare”


Esta semana, no “Observare”, Carlos Gaspar, Luís Tomé e eu, sob a coordenação de Filipe Caetano, falámos das tensões no mar da China e dos esforços para a estabilização do Sahel, sob a ameaça islâmica.

Pode ver aqui.

domingo, fevereiro 21, 2021

O Excelsior e o café de Timor



No desaparecido Café Excelsior, em Vila Real, na parede por detrás do balcão, havia um caixilho que enquadrava uns dizeres, escritos sobre um papel bege: “O melhor café é o de Timor”.

Eu era miúdo e, por essa época, nem café bebia, mas via o meu pai e o meu avô serem servidos do produto, pelo Manuel “Rato” ou por um outro empregado mais forte, com “pés de chumbo”, que era pousado naquelas mesas pequenas com tampo de mármore muito amarelado e raiado a verde, com açucareiros de metal com dupla tampa, connosco sentados numas cadeiras extraordinárias, em couro trabalhado, com as iniciais do café.

Timor era uma coisa distante, de que se falava muito pouco, uma terra no meio da Oceania, de onde não havia notícias. E, aprendi eu na vida, com assumida arrogância eurocêntrica, quando, do mundo “subdesenvolvido”, não há notícias, costuma ser bom sinal!

O Excelsior era um grande café de referência na nossa cidade.

Por aqui tenho falado dos seus bilhares - onde o Chico Menezes, o Olívio e o ciclista Firmino Claudino davam cartas - e da sua sala do dominó, onde, além do dito dominó, outras cartas também se jogavam.

(Hesito em referir, por pudor, a escada, a pique, para os sanitários, de onde, em tempos de calor, exalava um odor a ácido úrico que alguém, com óbvio exagero, disse um dia, que, abertas as janelas, “em dias regulares, enchia a sala das “permanentes” das senhoras do Pimentel cabeleireiro, atingia o largo do Vilarealense, e, em históricas rabanadas de vento, chegava a entrar pela Capela Nova e dava a volta à Misericórdia”...)

Creio nunca ter visto isso referido por escrito mas, nos anos 50, no Excelsior havia, por vezes, espetáculos, depois do jantar, com ilusionistas e outras figuras visitantes, dotadas para algumas artes. Pagava-se para assistir. Os espetadores eram, claro!, exclusivamente homens, porque as senhoras, nesse tempo, não iam aos cafés (a nenhum!) depois do jantar. Houve também por ali sessões de hipnotismo - eu vi! - e tenho na memória uma apresentação de um “fenómeno” que sabia 18 línguas (deve-nos ter baratinado, a nós que então sabíamos uma ou duas). Posso estar equivocado, mas nenhum outro café de Vila Real teve uma tão diversificada atividade artística.

Por que trago o Excelsior aqui hoje? Porque, para fazer o meu café de balão, uma “mão amiga” ofereceu-me um belo café de Timor, que juntei a outro que, há pouco mais de um ano, eu próprio trouxe da Colômbia. Fizeram um lote excelente!

Em tempo:

O meu amigo Mário Fernandes Pinto, que é o curador da memória do saudoso “Excelsior”, lembrou, a propósito deste num comentário no Facebook, um folheto do café onde se lê e que aqui reproduzo, com a devida vénia:

Bebi agora um café
que era mesmo um primor
e sabeis de onde é que é
é o café de Timor 

Este café só se toma
naquele café da esquina
onde vai depois que coma
toda a nossa gente fina 

E nunca ficareis mal
pois que eu digo e não me calo
que o EXCELSIOR de que falo

é um CAFÉ ideal
e agora já não me ralo
pois também lá vou tomá-lo

sábado, fevereiro 20, 2021

E os marcianos, senhores!




A sonda pousou em Marte. Mas ainda não vi nenhuma declaração sobre marcianos. 

As gerações pós-ET entraram num outro registo, mas, para a minha, os marcianos tiveram um papel mítico importante.

Por isso, o que é que eu peço? Apenas que nos ajudem a encerrar o assunto. Que nos digam se há ou não marcianos!

Custa assim tanto sossegar-nos?!

Isto agora começa a ser a sério!

 


Navegar foi preciso


Acho oportuno, no dia de hoje, recordar um texto que publiquei por aqui, há três anos, aquando do debate sobre um museu sobre a aventura marítima portuguesa:

“As viagens tituladas pela coroa portuguesa, desde o ataque a Ceuta, foram quase sempre operações de conquista (com exceção das desertas ilhas atlânticas), com toda a violência que isso à época implicava. Afonso de Albuquerque foi um guerreiro sanguinário e os outros capitães das frotas e das naus não devem ter sido muito mais meigos. Pode imaginar-se o modo como foram tratados os árabes, os negros ou os indianos e outros orientais que lhes apareceram pela frente, nessas expedições para encher alforges e porões, tendo como alibi ideológico a expansão da cruz. A captura e uso de escravos, com a desenfreada exploração laboral e sexual, fez parte integrante da empresa ultramarina e Portugal foi dos Estados europeus que prolongou essa selvática prática até mais tarde. O nosso atraso histórico é, aliás, recorrente: um século depois, quando já quase toda a Europa tinha descolonizado, por cá ainda se falava do “Ultramar” e do “Portugal do Minho a Timor”.

O Estado Novo, prosseguindo, aliás, uma velha narrativa colonialista republicana, pretendeu dar a essa aventura além-Europa uma aura de santidade civilizacional. Usou “Os Lusíadas” como bíblia apologética e capturou oportunisticamente em favor de um patriotismo de regime essa parte da nossa História, consagrando-a de forma caricatural, em textos e momentos hagiográficos, de que a Exposição do Mundo Português (que já ecoava modelos alheios) foi o mais curioso exemplo. A minha geração deve ter sido a última que foi atulhada por uma historiografia gongórica, de que muita da estatuária que por aí anda é aliás tributária.

A notável aventura marítima foi o que foi. Foi fantástica no que representou de inventividade e ousadia, marítima e não só, e o mundo credita-nos isso sem o menor problema, penso mesmo que muito menos do que deveria, à luz do esforço feito por um pequeno povo, numa ambição quase planetária. 

Acho, contudo, sem o menor sentido - e até de uma despropositada arrogância histórica por parte da geração atual, que parece achar ter o direito de poder julgar as anteriores - estar a fazer juízos de valor sobre atos cometidos à luz de conceitos e princípios que estavam muito distantes dos nossos de hoje.

Uma coisa é podermos reagir com horror a crimes cometidos na idade contemporânea, quando já vigoravam padrões de valores civilizacionais muito próximos dos atuais - como os assassinatos em massa promovidos pelos nazis, ou os crimes do colonialismo mais recente, já dentro do século XX. Outra coisa é andar a escolher seletivamente episódios ou práticas de um passado distante, assumindo culpas (repito, à luz dos princípios de hoje) por atos como a inquisição, o colonialismo ou a escravatura. É que, por essa ordem de ideias, estaremos, um destes dias, a pedir contas a alguém pela brutalidade das invasões bárbaras, antes da nossa nacionalidade. E esses ciclos nunca terão fim.

Voltemos às descobertas. São descobertas ou achamento, como se debateu no Brasil? Para Portugal, entidade invasora, detentora do olhar que enformou a sua perspetiva de titular desses atos, foram descobertas, de terras e de gentes que o poder português dominou - à força, claro, porque, que eu saiba, as operações de conquista foram sempre feitas pela violência, às vezes extrema e impiedosa. E, claro, com massacres, agressões de toda a ordem, desrespeito total pelos povos encontrados, por muito que, aqui ou ali, pudesse ter havido práticas menos constrangentes. Mas reconheçamos isso, com toda a frontalidade, agora sem ter de recorrer à ganga apologética que o discurso historiográfico da ditadura nos impôs, mas igualmente sem prescindir, nem por um segundo, de relevar o caráter fantástico e pioneiro da empresa das navegações, no que ela teve de avanço para o conhecimento e abertura do mundo.

Nós somos, como povo, o somatório dos vários segmentos sucessivos da nossa História. No terreno colonial, outros a sofreram para que, deste lado, o país de então pudesse beneficiar - na exploração dos recursos económicos e humanos, com uso de escravatura e trabalho forçado, ignorando e espezinhando as identidades dos povos, com práticas racistas em que o “outro” foi, muitas vezes, apenas uma “coisa”. Nesse aspeto, podendo a colonização portuguesa ter tido alguns matizes próprios, basicamente ela seguiu um padrão muito comum aos restantes conquistadores europeus. Foi o que foi e assim deve ser estudada, entendida e exposta, com total transparência histórica.

Dificilmente conseguiremos consensualizar uma discurso comum sobre a História. Aliás, não vejo qualquer vantagem nisso. No trabalho sério em torno do passado, importa apenas não esconder nenhum aspeto da verdade, devendo, contudo, estar sempre preparados para que essa leitura seja diferente, de acordo com as diversas perspetivas, também elas decorrentes da experiência de cada um. Divulguemos e exponhamos os factos, todos os factos.

Ainda no que toca ao debate sobre um museu sobre a aventura marítima e colonial portuguesa, acho, sem a menor hesitação, que deveria ser um “museu das descobertas”, da mesma maneira que devemos aceitar, com toda a naturalidade, que, do lado de quem sofreu uma invasão brutal do seu território, possa e deva ser feito um “museu da exploração colonial”. São as duas faces de uma mesma verdade. Pretender a reconciliação dos olhares, como que “hierarquizando-os”, nunca será aceite por todos, é um artificialismo que não conduzirá a nada. Em particular à tal verdade.“

É isto que eu penso.

Num Calvário, também


É um clássico da minha terra, no histórico Campo do Calvário.

O nosso Sport Clube de Vila Real (fez há pouco 100 anos, é um dos mais antigos clubes de futebol do país!), até dez minutos do fim, estava empatado com um dos seus adversários tradicionais. Provavelmente, o Desportivo de Chaves.

Vivia-se um ambiente de nervoseira desatada! A certa altura, num ataque glorioso, metemos um golo.

Da bancada, ergueu-se então um cavalheiro (de gravata e chapéu, como era de regra) que lançou para o campo, pelado como ele era, um berro que ficou na memória: “Vamos à dúzia!”

A assistência caiu de risota.

Não sei bem porquê, ao ver este título, lembrei-me daquela saída, grávida de esperança, a convocar uma boa risada. 

Num Calvário, também.

sexta-feira, fevereiro 19, 2021

O regresso de Bolsonaro


Há não muitos meses, eram bastantes os observadores da situação política brasileira que apostavam em como os dias do presidente Jair Bolsonaro estavam contados. Embora não fosse muito evidente o modo como ele podia vir a sair de cena - desde o “impeachment” até uma espécie de golpe militar “bondoso” -, tudo chegou a parecer melhor a muitos do que a continuidade de alguém que havia sido um quase negacionista da pandemia, que revelava uma flagrante impreparação para governar, com um executivo atravessado por frequentes crises e demissões. A fraquíssima prestação da economia e o agravamento de muitas políticas públicas apontavam um mau destino ao presidente.

Olhando para trás, muitos brasileiros que haviam votado Bolsonaro interrogavam-se sobre a opção tomada. Não porque estivessem arrependidos por terem contribuído para a derrota de Fernando Haddad, que substituíra Lula na “chapa” da esquerda, mas porque, manifestamente, Bolsonaro ficara muito abaixo das suas mais modestas expetativas.

Na realidade, Bolsonaro não foi eleito por si próprio, pela convicção maioritária na sua qualidade política, mas, pura e simplesmente, como cabeça de cartaz de uma coligação informal para travar o “petismo”. Claro que havia, e há bolsonaristas, pessoas seduzidas pelo seu discurso extremado, que vai do saudosismo da ditadura militar até à ideia de que, com o PT e o seu candidato no poder, o Brasil acabará por ter um futuro “venezuelano”.

Na Europa, curiosamente, nunca houve uma consciência real do impacto, por contraste, que o exemplo do “chavismo” sem Chávez havia provocado em muitos eleitores brasileiros. Além do mais, Lula e os seus foram sempre incapazes de condenar o regime de Caracas.

Enquanto largos setores da opinião pública internacional partilhavam alguma admiração pela figura de Lula, positivamente marcados pelo modo como a imagem do Brasil se tinha prestigiado nos seus anos de poder, uma maioria de eleitores, sinceramente convicta de que a corrupção tinha passado a estar na matriz do “petismo”, consagrou no voto em Bolsonaro toda a sua indignação.

Foi essa perspetiva de rejeição que ganhou e, com ela, Bolsonaro foi eleito.

À época, tinha ficado evidente que os políticos conservadores tradicionais haviam perdido a sua oportunidade, suspeitos que eram também de moscambilhas financeiras, surgindo muitos deles envolvidos em escândalos que minaram as suas hipóteses de serem escolhidos. Bolsonaro, vindo de fora do sistema, foi o feliz usufrutuário deste desencanto generalizado.

O novo presidente teve uma gestão errática. Começou por condenar a “velha política”. Esta resistiu, conseguiu convencê-lo de que era impossível obter soluções governativas sem o apoio dos partidos do “centrão”.

E, de um dia para o outro, o presidente optou por “costurar alianças” com os inimigos da véspera. Travou assim os riscos de “impeachment”, alargou a governabilidade, abrindo o governo a antigos críticos. E pode mesmo vir a conseguir ser reeleito.

O futuro da Europa


Nota-se, em alguns meios, um sopro de entusiasmo a propósito da ideia de uma nova conferência sobre o futuro da Europa. Começo por confessar que acho essa conferência, no momento que atravessamos, aquilo que alguns costumam crismar de uma falsa boa ideia.

Mas, é claro, se o tema vier a prosperar, não há como fugir-lhe. E, nesse caso, haverá que desenvolver uma posição portuguesa sobre o assunto, a qual, a meu ver, deveria ter um suporte político interno tão alargado quanto possível.

Vale a pena ter a coragem de assumir que o tão vilipendiado “centrão” foi a base política que nos permitiu, ao longo das últimas décadas, estruturar uma atitude europeia consistente, coerente e, o que é mais importante, vista de fora como uma vontade maioritária. Se a política europeia de Portugal tivesse ficado à mercê do vai-e-vem do CDS, do negacionismo do PCP e dos zigzags do Bloco, não teríamos ido longe.

Recorde-se que, por muitos anos, e desde o documento inicial de Roma, a estrutura institucional da Europa permaneceu inalterada. Foram o Ato Único Europeu e o Tratado de Maastricht que vieram a consagrar novas e substanciais adaptações de fundo no modelo de cooperação entre os Estados membros. Uma saudável onda de ambição atravessou então o projeto, soprada pelo ambiente do fim da Guerra Fria e pela noção de que uma Europa-potência, mais do que uma Europa mercado, era então possível, ancorada no eixo-franco alemão. A diluição dos nacionalismos, as oportunidades da globalização e, muito em especial, as vantagens óbvias do Mercado Único e o pesado custo da “não-Europa”, para usar a bela expressão de Delors, tudo isso criou um ambiente de euro-entusiasmo. Daí também o projeto do euro, em que já só alguns se empenharam, tal como, para a liberdade de circulação de pessoas, foi criado o acordo de Schengen.

Houve sempre, como sabemos, alguma ambiguidade quanto ao destino final do processo europeu. Uns diziam-se favoráveis a um salto federal, outros (entre os quais Portugal sempre esteve) privilegiavam um aprofundamento progressivo, outros ainda mostravam ser companheiros relutantes de jornada. Alguns mudaram entretanto de posição; nós não. Com pressões e cedências, foi-se andando.

A perspetiva de um grande alargamento, proporcionada ou forçada pelo fim da Guerra Fria, levou a que se procurasse adaptar as instituições, tendo como preocupação essencial a sua funcionalidade, para que a paralisia decisória nunca viesse a ter lugar. E, de caminho, foram aumentadas as competências da União, em especial em áreas que se tornavam essenciais para assegurar o êxito do mercado interno. Foram esses os passos dados em Amesterdão e Nice.

Ainda na lógica “delorsiana” de que a Europa é como uma bicicleta, isto é, de que é necessário continuar sempre a pedalar, sem o que se cairá para o lado, houve o sonho do Tratado Constitucional, logo travado pelo pesadelo dos referendos frustrados na França e nos Países Baixos. Com um jeito jurídico muito à moda de Bruxelas, foi possível dar a volta ao texto e retirar dele alguns dos seus maiores “escândalos” semânticos. E daí surgiu o Tratado de Lisboa, concluído durante a nossa presidência de 2007. É onde estamos hoje.

O que se passou na Europa, desde então? Muita coisa. Houve a crise financeira, seguida da das dívidas soberanas, emergiu uma inesperada e pouco saudável “diversidade” nas questões migratórias e no acolhimento dos refugiados, em certos Estados membros foi detetada uma deriva face aos compromissos de respeito pelos princípios do Estado de direito democrático.

A obsessão com a estabilidade financeira levou, entretanto, a gizar um outro tratado intermédio. A saída do Reino Unido trouxe, simultaneamente, um enfraquecimento do projeto mas, igualmente, para alguns puristas a ideia de que, finalmente, se pode caminhar sem esse empecilho.

Refundar a Europa? No estado de divisão interna que o projeto atravessa, com pulsões soberanistas e opiniões públicas a tê-la como bode expiatório das suas frustrações e medos, acho um suicídio tentar uma nova “síntese” a 27. Mas logo veremos!

Entrevista


Nunca tinha visto esta entrevista, depois de a ter gravado! Foi em 2008 que tive esta conversa, muito simpática, com Marina Pimentel e José Manuel Fernandes, difundida na RTP e na Renascença, editada também no Público.

Não tinha tido oportunidade de vê-la. Aqui entre nós, já nem me lembrava do que tinha falado! Hoje, uma pessoa mandou-ma.

Devo confessar uma imensa surpresa. Caramba! O embaixador português em Brasília permitir-se falar, para além dos temas do Brasil - língua portuguesa, CPLP, relações Brasil-EUA, conselho de segurança da ONU, relações brasileiras com Angola - do Iraque e de Bush, da atitude de Cavaco Silva sobre o reconhecimento do Kosovo, das relações com a China, da questão do Tibet e do modo como o Dalai Lama foi recebido em Portugal, de Timor, da política portuguesa de Direitos Humanos, da polémica em torno da presença portuguesa nos Jogos Olímpicos de Pequim, da política europeia de Portugal, das relações transatlânticas e do modo como nós e Europa olhamos os Estados Unidos, enfim, da política externa portuguesa como um todo, foi uma imensa ousadia! Ah! E, 13 anos passados, não me arrependo do que disse, mas arrependo-me (muito!) da gravata!

(Apesar disso, alguém, que teve a paciência de ver e ouvir o que eu disse, avaliou: “Foste muito oficioso!”. Pudera! Era o mínimo que eu podia fazer!)

Dito isto, confesso que achei graça “rever-me”. Mas isso é normal! No passado, o futuro era melhor!

Pode ver aqui.

quinta-feira, fevereiro 18, 2021

“A Arte da Guerra”


Em conversa com António Freitas de Sousa, no “Arte da Guerra”, do “Jornal Económico”, abordamos hoje em video as próximas eleições legislativas em Israel, as pressões chinesas sobre Hong-Kong e a profunda crise político-social em que está mergulhado o Líbano.

Pode ver aqui.

Retrovisor


E é assim que se fala de Portugal por terras de De Gaulle.

Vou escrever uma carta de protesto ao Jean-Jacques Servan-Schreiber.

Vacinas

Dos 193 países que fazem parte da ONU, 130 ainda não receberam uma única dose de vacina.

O mundo não tem vergonha!

“ A Arte da Guerra”


Numa conversa com o jornalista António Freitas de Sousa, a que o “Jornal Económico” deu o nome de “A Arte da Guerra”, falamos da situação atual nos Estados Unidos, do novo governo italiano e do futuro do Kosovo, depois das recentes eleições legislativas.

A conversa pode ser vista aqui.

quarta-feira, fevereiro 17, 2021

Tratar do jardim


Para o mundo, George Schultz era a imagem sorridente da diplomacia dura dos Estados Unidos, no tempo de Ronald Reagan. Tendo substituído o erro de “casting” que tinha sido a escolha de Alexander Haig para o Departamento de Estado, Shultz revelou-se um pragmático inteligente.

Conseguiu o raro “milagre” de ter boas relações com o Conselheiro de Segurança Nacional, Colin Powell, e entendeu-se, às mil maravilhas, com Reagan, cujos instintos soube aproveitar muito bem e cujas gafes foi procurando evitar.

Coube-lhe desenhar, com reconhecido mérito, um tempo de aproximação tática com uma União Soviética que acelerava a sua decrepitude, a qual acabaria por redundar na sua implosão, resultante histórica para a qual, diga-se, os Estados Unidos muito trabalharam.

Schultz, de quem o mundo há muito não ouvia falar, morreu agora, com 100 anos.

Creio ter sido nas suas memórias que Schultz crismou a ideia de que fazer diplomacia era, basicamente, como tratar de um jardim: era necessário dar atenção constante aos diversos canteiros, em especial evitando que as ervas daninhas acabassem por arruinar o espaço. Peço perdão, se a metáfora não era exatamente assim, mas cito de cor.

Não sendo uma coisa muito sofisticada, a ideia tem os seus méritos práticos. Manter um mínimo de atenção em relação a cada uma das vertentes daquilo que constitui um quadro de relações externas, não deixando que um excesso de concentração em algumas temáticas, conjunturalmente mais relevantes, obscureça as outras dimensões e as deixe degradar, parece uma linha política saudável.

Os Estados são como as pessoas e, às vezes, também ocorre os espaços políticos serem amigos entre si. E os amigos cultivam-se, frequentam-se. Deixar cair, por desleixo diplomático, algumas dimensões nas relações internacionais é uma péssima prática. Não é prudente, nem sábio.

Vem isto, uma vez mais, a propósito da União Europeia e da sua afirmação externa. Pode ser que alguns achem errada esta perceção, entendendo que ela não corresponde à realidade dos factos. Mas, em política, como diria o outro, o que parece é.

E a mim parece-me muito evidente que, obcecada com o errático parceiro transatlântico, irritada com Moscovo, atrapalhada com a China, a União não presta a devida atenção à dimensão mediterrânica de onde emanam tantos problemas, tem uma retórica rotineira para a África, vive apenas a sua vocação comercial com a América Latina.

Se Bruxelas esquece isso, há que lembrar-lhe. E as presidências também servem para tal.

terça-feira, fevereiro 16, 2021

Carmen Dolores


Há dias (melhor, há noites), nas minhas voltas noturnas, passei por lá, pelo espaço onde foi a Casa da Comédia. Creio que foi já há bastantes anos que desapareceu aquele pequeno teatro na Lapa.

Devo lá ter ido umas duas ou três vezes. No entanto, apenas recordo uma única peça, com Carmen Dolores e Augusto de Figueiredo. E, pelas datas, só pode ter sido “A dança da morte em doze assaltos”, de Dürrenmatt, em 1972, encenada por Jorge Listopad, que tinha sido meu recente professor de ... russo!

Lembro-me da voz inconfundível de Carmen Dolores. E também de Augusto de Figueiredo, com uma maneira de dizer um pouco “à antiga”, muito enfático, mas um excelente ator. 

Mas nada dessa memória de vozes tem a ver com essa minha ida à Casa da Comédia. Nesse tempo, a (única) televisão que existia passava imenso teatro. Por isso, quem tem hoje uma certa idade viu representar, em teatro televisivo, todos os grandes (e outros um pouco menos) atores portugueses. E quem é mais novo também assistiu a alguns a reconverterem-se às telenovelas, porque tristezas não pagam dívidas.

Há pouco, foi noticiado que Carmen Dolores morreu hoje, com 97 anos.

Nas conversas não há cedilhas

Ia eu, pela noite, a fazer a minha caminhada, quando chegou o telefonema, de um amigo, leão e de forte esquerda: “Dupla vitória, não foi?”.

O Sporting tinha acabado de ganhar 2-0. Mas ”dupla vitória” porquê?

“Então! Ganhámos e derrotámos o Paços!”.

Nas conversas não há cedilhas...

segunda-feira, fevereiro 15, 2021

A Ajuda, Trotsky e o “Expresso”


Parece que já muito pouca gente se lembra da “pouca vergonha” que era a entrada traseira do Palácio da Ajuda, aquela chaga sinistra num edifício com alguma dignidade, mas que, à moda de Santa Engrácia, ficou incompleto mais de dois séculos. Mas, para que isso se atenue, vou deixar aqui uma retrato desses tempos.

Recordo-me de discussões, nos anos 80 e 90, sobre a necessidade de pôr cobro àquela indignidade, como tenho ideia de outros projetos surgidos, e nunca levados à prática, que foram engrossar a imensa torre do tombo onde foram têm sido arquivadas ideias arquitetónicas que nunca disso passaram.

Nos anos em que Luís Castro Mendes foi ministro da Cultura de António Costa, a ideia de “fechar” aquele espaço, com uma obra de novo estilo, foi retomada.

Saudei-a, com sincero entusiasmo, por aqui. Brinquei então com o facto de que o ministro poderia ficar “na História” se conseguisse lançar as bases da conclusão do palácio. E ele conseguiu.

Um dia, com a pompa republicana e os capacetes de segurança da praxe, lá vi Castro Mendes e Fernando Medina arrancarem com a obra - a qual, para surpresa de muitos, avançou mesmo e, ao que parece, vai agora concluir-se.

Castro Mendes, entretanto, deixou o governo, mas a obra que lançou, e cuja iniciativa promoveu, ali está e vai ficar, à vista de todos.

O “Expresso” publicou, entretanto, um longo texto sobre a obra. Mas aí consegue, voluntária ou involuntariamente, com a capacidade de ilusão de um Luís de Matos, retirar Castro Mendes da "fotografia". Terá sido deliberado? Nem quero crer!

Quem há muito conhece Luís Castro Mendes, como é o meu caso, sabe que ele andou, em tempos, nas bordas do “trotskismo”, essa doutrina persistente que sempre me surge, bem vincada na cabeça, quando dou por mim a partir gelo com um martelo.

Ora sabe-se que Trotsky foi, militantemente, "apagado" das fotografias históricas por Stalin, seguramente por tricas bolchevistas de alcova, que não vêm aqui para o caso. Houve mesmo um tal Mercader que se meteu ao barulho.

Não se suspeitava, no entanto, é que o “Expresso” pudesse sofrer, nos dias de hoje, de uma qualquer deriva estalinista, anti-trotskista, disso resultando o "apagamento" de Castro Mendes da fotografia das obras do Palácio da Ajuda.

Não excluo, repito, que possa ter-se tratado apenas de um erro pontual. Mas, a sê-lo, e sendo os factos o que são, não ficaria mal ao “Expresso” reconhecê-lo.



domingo, fevereiro 14, 2021

De capot aberto


O país do mundo onde me recordo de ver mais capots de carros abertos foi, sem a menor dúvida, a República Democrática Alemã. Por aquelas ruas e estradas, os históricos Trabant pareciam ter sido construídos para estarem com a bocarra à espera de um mecânico ou, muito simplesmente, sedentos de óleo ou água.

O Trabant foi uma espécie de Carocha de terceira classe, criado do outro lado do muro. Há não muitos anos, já na Berlim sem a parede a meio, assisti a um desfile de Trabant, hoje uma relíquia dos “maus tempos” do Leste Europeu - embora eu saiba que, lá no fundo, ainda há por aí uns saudosistas desse triste mundo a-preto-e-branco.

Lembrei-me dos dias dos Trabant quando, há pouco, fiz figura de cidadão leste-alemão numa rua de Lisboa. De capot do meu carro aberto, com o aquecimento do carro a saltar, num instante, do amarelo para um vermelho alarmante, lá fui eu, em dia de confinamento, de táxi, à procura de líquido refrigerador.

Pois isso! As estações de serviço hoje só vendem combustíveis e “comida empacotada”, como me foi dito em dois desses locais.

Desde há muito tempo que criei uma carapaça psicológica, algo artificial mas muito eficaz, que me tem dado um jeitão: quando alguma coisa me corre mal, nas coisas simples da vida quotidiana - se um vidro se parte, se um pneu tem um furo, se há um risco novo na pintura, se perco os documentos ou as chaves -, dou a mim mesmo apenas um minuto para me aborrecer com o assunto. E, a partir daí, penso: “É a vida!”. E não perco nem um segundo mais do meu tempo a blasfemar contra a sorte. Era só o que faltava que um qualquer azar me viesse estragar os dias! Em tempos normais, aliás, quando uma coisa assim acontece, procuro rir-me e vou mesmo beber um copo, de homenagem à imensa sorte que é estar vivo. (Em anos fora da pandemia, costumo usar o mesmo truque para as derrotas do Sporting. E também funciona! Nesra temporada, não tem sido preciso. Cruzes! Canhoto!)

O simpático taxista, que tinha ido comigo tentar encontrar o líquido refrigerador, constatada a impossibilidade de compra, iniciou logo um discurso a atacar as regras impostas às lojas, a insensatez de não deixarem vender óleo e outras coisas assim. E, claro, como qualquer sábio de esquina, tinha teoria assente de como “devia ser”.

E deve ter ficado um pouco desiludido quando me viu reagir num sentido em tudo contrário ao seu: “Isto não tem a mais pequena importância! Passa-se por um indiano, compram-se duas garrafas de água e desenrasca-se o assunto. Com um dia tão bonito como está, só faltava eu estar a aborrecer-me com as regras do confinamento. Se as coisas têm de ser assim, que sejam, pronto!”

O homem embatucou. Tinha querido ser solidário com a minha (moderada) desventura e via-me (não via, porque eu usava máscara) a sorrir com a vida, mesmo com o dia a não me correr de feição. “Que tipo estranho!”, deve ter pensado! E lá me levou de volta ao meu carro, que continuava de capot aberto, a arrefecer, ajudando-me mesmo a pôr a água do Luso, muito por conta da boa gorgeta que eu lhe tinha dado.

Contei, divertido, esta história a um amigo, a quem telefonei a pedir um conselho sobre os tempos do fim do meu carro (que, com mais de 15 anos, bem mais de 200 mil kms e a gastar mais do que 10 litros de gasolina aos 100, já está a pedir reforma ou “lay off”).

Ao ouvir a reação que eu tinha tido perante os protestos do taxista, teve esta saída: “Havia de ser no tempo do Passos! Estavas aí a clamar contra o governo, não era?”.

E não é que ele é capaz de ter alguma razão?! O que só prova que o António Costa no governo me põe bem disposto. Pode dizer-se melhor de um governo do que afirmar que ele nos põe bem dispostos?

(E, agora, façam favor: os comentários são livres).

“Observare”


No “Observare” desta semana, na TVI 24, falamos das eleições na Catalunha, no quadro dos equilíbrios políticos em Espanha, bem como das aventuras de Josep Borrell no país de Vladimir Putin, com análise à diplomacia de uma Europa muito dividida estrategicamente. Por mim, falei tambem dos direitos de cidadania das mulheres na Arábia Saudita e da repressão aos dissidentes na China.

O programa pode ser visto aqui.

sábado, fevereiro 13, 2021

Um Presidente é assim!



Há dias, publiquei por aqui uma fotografia do arco da rua Augusta. Também o fiz no Twitter. Alguém, olhando o cabo que pendia, à vista, perguntou por lá: “Que cabo é aquele?”

Respondi que era “o cabo dos trabalhos”. E acrescentei: “Já pedi ao Fernando Medina para o tirar. Tentarei de novo, para a semana”.

(Claro que não tinha pedido nada! Era pura brincadeira).

Passaram 48 horas. No mesmo Twitter, Fernando Medina publica uma nova foto do arco, já sem o cabo pendente, com a nota: “Já foi retirado, caro Francisco. Cumprimentos”.

Estar atento à cidade a que preside qualifica um Presidente.




Hortaliças de Estado

Há poucas semanas, soube da morte de Carlos Westendorp. Foi uma figura relevante da diplomacia espanhola: ministro dos Assuntos Exteriores, ...