Ouviu-se pouco a “Grândola” na Lapa. Ou melhor, o que se ouviu vinha da Madragoa. Nada de novo!
sábado, abril 25, 2020
Serviço público
Sabem qual foi a única estação que, em sinal aberto, transmitiu, na totalidade, as cerimónias na Assembleia da República? A RTP.
Nos restantes operadores televisivos, só “teve” 25 de abril quem paga televisão por cabo. Chama-se a isto serviço público!
O dia mais feliz?
Vejo muita gente, com a maior sinceridade, dizer que o 25 de abril de 1974 foi o dia mais feliz das suas vidas. Embora me ficasse bem dizê-lo, não se passou assim comigo.
Passei toda essa manhã angustiado. Lembro-me de mim, nervoso, na parada da Escola Prática de Administração Militar, aconselhando, com escasso sucesso, os soldados-cadetes, nesse dia sem instrução, a manterem-se nas casernas. Porquê? Sei lá! Porque sim, porque na tropa as razões não têm necessariamente de ser justificadas.
Por essa altura, não sabíamos se o golpe tinha tido sucesso, apenas íamos ouvindo os comunicados do “posto de comando” - uma falsidade, porque o posto de comando (viémos depois a saber) estava na Pontinha e aquilo era lido do Rádio Clube, na Sampaio e Pina.
O nosso pessoal, chefiado pelo capitão Bento e pelo alferes Geraldes, com o aspirante António Reis a dar o toque “político” às hostes, estava, desde as primeira horas da madrugada, a ocupar a RTP, não muito longe dali, também na Alameda das Linhas de Torres. A nossa unidade fora a primeira a avançar na Revolução. Também só me apercebi disso dias depois.
A certa altura, inesperadamente, surgiu na parada o comandante da unidade, o coronel Fidalgo, vindo da sua residência adjacente. Já me fartei de contar a história, quase caricata, de como tivemos de o deter, vencendo grandes hesitações por parte dos militares profissionais. Depois, mandámo-lo para casa.
Ainda o assunto estava em curso de resolução, quando surgiu o segundo-comandante, o major Nogueira da Silva. Lembro-me de dar uns berros a dois soldados que começaram a insultá-lo. Uma revolução não dispensa a manutenção da disciplina hierárquica, se não passa a ser uma bandalheira. Afinal, o Nogueira da Silva, que era um “chicalhão” (sinónimo de militarão), viria a revelar-se um democrata.
A meio da manhã, chegou Marcelino Marques, um coronel antifascista, afastado pela ditadura, que vinha assumir o comando. Era um homem agradável e talvez estivesse à espera de que também o fôssemos.
Ora no dia seguinte, na biblioteca da unidade, ele iria ter de aturar uma arenga minha e do Teixeira, em nome dos oficiais milicianos, sobre a “tibieza” daquilo que era anunciado sobre a política colonial. Semanas depois, chamar-me-ia ao seu gabinete, para mostrar o seu desagrado com um meu discurso público, no juramento de bandeira, em que eu havia denunciado a postura repressiva do MFA numa greve, que tinha originado a detenção dos nossos colegas Anjos e Marvão. O meu “divórcio” com Marcelino Marques, uma jóia de pessoa, teria lugar não muito tempo depois, comigo a ser simpaticamente convidado a afastar-me da unidade, por “incompatibilidades com a hierarquia interna”, pelo facto de eu me ter recusado a solidarizar-me com uma punição a um soldado-cadete, que só me recordo chamar-se Loff. Mas eu e Marcelino Marques ficámos para sempre com uma excelente relação pessoal.
O resto do meu dia 25 de abril seria passado na RTP. Chegavam notícias de que as coisas estavam a correr bem pelo país. Pela rádio, íamos seguindo o que se passava no Carmo, onde o nome de um tal Salgueiro Maia era referido, sabendo-se que Caetano estava prestes a cair. Depois, foi uma longa espera. Primeiro, para conseguir pôr a antena de Monsanto a funcionar, operação por muito tempo boicotada por um “patriota” renitente. Mais tarde, foi o aguardar da Junta de Salvação Nacional, junto às antigas bombas de gasolina, antes do início da rampa que levava aos estúdios do Lumiar.
A escolha de Spínola para chefiar a Junta não me agradava minimamente. Vê-lo chegar, com Costa Gomes e os outros, era, contudo, o anúncio de um tempo que, fosse ele o que viesse a ser, seria sempre muito diferente. Lembro-me de ter seguido com eles pela ladeira acima. Fiquei depois atrás das câmaras, a ouvir a proclamação. Que, pelo tom, não me agradou nada. Eu, no meu radicalismo, estava já de pé atrás.
A minha noite acabou tarde. Nunca consegui perceber onde dormi, apenas me recordo de mim, logo de manhã, de novo a coordenar o piquete de soldados, junto às bombas de gasolina, na tal entrada para a RTP. Passou um autocarro e lembro-me de ter dito adeus ao Eduardo Prado Coelho que ia nele, e que eu esperava que já me tivesse perdoado pelo facto de, quatro anos antes, com o Nuno Júdice, lhe ter invadido uma aula na Faculdade de Letras.
Regressei à unidade e fui entregar a pequena metralhadora FBP com que tinha andado nas últimas 48 horas. O sargento armeiro que a recebeu deu uma gargalhada: eu tinha levado um carregador errado, que era de uma metralhadora Vigneron. Se eu quisesse ter dado um tiro, durante todo o dia 25 de abril, não tinha conseguido. Às tantas, foi melhor assim. Ser oficial de Ação Psicológica não me tinha dado uma grande preparação operacional. E o dia 26 avançava já, comigo a manter-me politicamente inquieto. Ser radical raramente é sinónimo de se ser feliz.
Assim, que me recorde, o 25 de abril esteve longe de ser o dia mais feliz da minha vida. Ou talvez eu tivesse sido bem feliz nesse dia e, afinal, não sabia.
De que lado estavas, no 25 de Abril?
A ideia de que o 25 de Abril foi “de todos” é uma balela: o 25 de Abril fez-se contra muita gente, que tem nomes e que eu não esqueço.
A liberdade hoje é de todos, mas a luta pela liberdade foi só de alguns.
sexta-feira, abril 24, 2020
Mauzinho, me confesso
Há uma coisa em que, admito, sou “mauzinho”: sinto um indizível gozo ao pressentir o mal-estar com que, todos os anos, quando a televisão e as ruas se enchem de filmes, canções, cravos e clamores de “Viva o 25 de Abril” ou “25 de Abril sempre!”, isso irrita por aí uns tantos.
Alguns amigos sabem que estou a pensar neles, coitados!
Agora, Moro
E lá foi “à vida” Sérgio Moro!
Agora, muitos de quantos elogiaram a vedeta do Lavajato, vão afirmar que ele traiu o presidente que lhe deu um palco político, ferindo-o num momento de uma óbvia fragilidade.
Outros, mesmo alguns que o diabolizaram pelo modo como se comportou naquele processo, mas porque lhes dá jeito esta bofetada em Bolsonaro, vão dizer que o homem saiu com alguma dignidade, para não ter de fazer mais fretes políticos ao presidente.
Vamos ser claros: estamos a falar da mesma pessoa que, independentemente de ter conseguido meter na prisão gente que bem o merecia, o fez através de uma operação político-judicial cheia de irregularidades processuais, com finalidades políticas que iam muito para além dos objetivos da justiça. Um processo que, no fim da linha, teve como consequência a eleição de uma figura como Jair Bolsonaro, tendo Moro, como prémio, o lugar de ministro da Justiça.
A questão, no dia de hoje, é, assim, bem simples: Moro, que passou todos estes meses no governo a fazer vergonhosos fretes a Bolsonaro, e que, com a sua presença no executivo, ajudou a avalizá-lo perante a opinião pública, não aguentou tudo o que, num excesso já obsceno, lhe era agora pedido. Ou alguém acredita que Moro só agora descobriu quem, na realidade, era Bolsonaro? Ou será que a sua súbita “coragem” pode ter algo a ver com o facto do governo de que fazia parte estar já apodrecido e decadente? E se se vier a constatar que esta saída de Moro está conjugada com o início de um processo de afastamento do presidente? Ou será que o próprio Moro gostaria de viver no Palácio da Alvorada?
Logo veremos.
Posso ir à praia?
Leio que, devido à crise sanitária, é bem possível que o acesso às praias, este Verão, passe a ficar condicionado, para evitar aglomerações. Já estou a imaginar o que vão ser as filas matinais para inscrições!
Como eu só costumo ir para a praia cerca da quatro da tarde, estou curioso sobre como vai funcionar o esquema para “late risers”. Mas não é nada de que eu não tenha já alguma experiência.
Em 1980, vivendo na Noruega, deu-me para ir passar uma semana de férias em Ialta, no mar Negro. Vivia-se o tempo soviético, em todo o seu esplendor burocrático.
Na receção principal do hotel - escrevo “principal” porque, na URSS desse tempo, os hotéis tinham, além dessa, uma receção em cada andar, onde ficavam guardadas as chaves dos quartos - foi-nos entregue, à chegada, um boletim individual, com o nosso nome, com espaço para dois carimbos, por cada dia de estada: era a “autorização” para ir à praia. Na véspera, informávamos se queríamos ir de manhã ou de tarde e era colocado, no espaço próprio, um carimbo permitindo esse acesso. Achámos bizarríssima a ideia, mas, como logo aprendemos, não era mais do que a que tivéramos ao ter escolhido fazer férias soviéticas...
O nosso hotel era imenso, dando sobre a praia. Acedia-se a esta por um único elevador. À sua entrada, havia uma senhora a quem era necessário mostrar o tal boletim e que cuidadosamente, com cara patibular, verificava se, para o período do dia e data em que se estava, estávamos autorizados a descer até à praia. E que contava cuidadosamente o número de passageiros. Chegado o elevador ao nível da praia, à saida, lá estava outra senhora, a quem tínhamos de mostrar de novo o cartão e que, percebi, repetia a contagem. Já não recordo o procedimento de regresso.
Na primeira noite, ao jantar, inquiri da guia norueguesa que nos acompanhava o que é que aquilo significava: é que, a menos que tivesse “nascido” alguém no curso da descida, as pessoas que saíam do elevador eram exatamente as mesmas que nele tinham entrado, umas dezenas de metros mais acima.
A guia, que passou todas essas férias numa preocupação com os meus constantes protestos e observações, aculturada que já estava àquelas práticas, explicou-me: “É muito simples: a primeira funcionária é a responsável pelo número de passageiros que segue no elevador, e segunda faz o controlo sobre o trabalho da primeira, não vá ter ido gente a mais”. Creio, mas não estou certo, que não se riu ao dizer isto...
Agora que passam 150 anos sobre o nascimento de Lenine, constato que não notei se, no seu túmulo, na Praça Vermelha, em Moscovo, para ver o seu corpo embalsamado, é feita uma contagem dos visitantes à entrada e outra à saída. É que, na realidade, pode dar-se o caso de ficar lá por dentro alguém...
quinta-feira, abril 23, 2020
“Olha quem ele é!”
Há uma semana, ao ver o “J’Accuse!”, um belo filme de Roman Polansky, numa cena em que surge muita gente a assistir a um espetáculo musical, descortinei, por instantes, o rosto inconfundível do realizador, como figurante silencioso no seu próprio filme.
Lembrei-me então das muitas vezes em que Alfred Hitchcock fazia essa aparição nos seus filmes, o que, muito provavelmente, terá levado outro génio da realização, e seu confessado admirador, François Truffaut, a proceder de idêntica forma.
É um “vício” antigo de alguns realizadores deixarem nas suas obras essa marca curiosa, as mais das vezes silenciosa. Scorsese, Spielberg, Godard e alguns outros fizeram essa graça. E alguns até “trocaram”: estou a lembrar-me de ver Truffaut com um papel nos “Encontros imediatos...”, de Spielberg.
No dia seguinte, num canal de cabo, “comprei“ o “Parque Mayer”, de António-Pedro de Vasconcelos, que não tinha conseguido ver na estreia.
Faço parte de quantos gostam muito do cinema que o público gosta de ver. Digo isto porque há uma escola de atitude que adora filmes que ninguém vai ver. Está no seu pleno direito. Em toda a minha vida, creio ter visto todas, repito, todas as longas-metragens portuguesas - desde as mais populares àquelas que apenas são vistas pelos amigos do autor e pelos que detestam as dos outros, sendo que estes dois últimos universos geralmente coincidem. Sinto-me, assim, à vontade para dizer que gosto muito de quase toda a filmografia de António-Pedro de Vasconcelos. Desde o “Perdido por Cem” até este belo “Parque Mayer”.
Porque não conhecia alguns dos atores deste filme (problema de quem não vai muito ao teatro), estive muito atento, no fim, à enunciação do elenco. E o meu espanto foi encontrar, na base da lista, o nome do António-Pedro, na personagem de “Ministro”. Dei voltas à cabeça e não consegui descortinar nenhuma figura similar que tivesse visto no filme - e não é fácil ele passar despercebido. Lá fui eu, de comando em punho, à procura de APV, em toda a película. Não o descortinei.
No dia seguinte - para grandes males, grandes remédios! -, porque a curiosidade é um “defeito” que nunca curei, telefonei ao realizador: “Olha lá! Onde é que tu entras no filme, que não te consegui encontrar?”. O António-Pedro riu-se e recomendou-me que fosse rever uma cena à saída do prostíbulo, em que um figurante passa ao lado de duas das principais personagens do filme. Assim era, um instante APV. Falei-lhe então da “mania” de Hitchcock e de Truffaut. Ele notou que também Charlie Chaplin tinha feito um papel na “Condessa de Hong-Kong”. Não me recordava.
Nessa mesma - mesma! - noite, a RTP 1 passou a “Condessa de Hong-Kong”, uma comédia (tardia) de Chaplin, com Marlon Brando e Sophia Loren. Diga-se: um filme menor, que parece uma peça de Feydeau, com portas a abrir e a fechar, com excelentes atores a fazerem um “frete” a um génio em decadência. Aproveitei para rever o filme e, claro, como o APV tinha avisado, nele surge, a certo ponto, o velho Chaplin, por duas vezes, no papel de um camareiro. Mas mais: o “resto” da família, desde Geraldine a umas netas sem graça, também por ali acabam por figurar, metidas “a martelo”.
Voltando à “vaca fria”: recomendo que vejam o “Parque Mayer”! É um belo filme, ao mesmo tempo uma excelente homenagem a uma certa Lisboa, que se enfarpelava para ir ver as revistas, se divertia nos seus subentendidos e trocadilhos, e que, antes das sessões (duas sessões por dia, três aos fins de semana), ia jantar ao Chico Carreira ou ao Manel, arriscava um “vai um tirinho, ó freguês!” e, em tempos pouco abonados, batia palmas com “bilhetes de claque”, como eu próprio fiz, algumas vezes. Noutras noites, já mais “profundas”, acabava-se no Galo, lembram-se?
quarta-feira, abril 22, 2020
Leonardo
O sorriso era a sua imagem de marca. A simpatia era o seu estilo natural. A rapidez e o brilho da sua inteligência eram a evidência que se impunha, de imediato, a quem o conhecia. O patriotismo era o seu ADN.
Leonardo Mathias, que agora nos deixa, tinha a imensa qualidade daquelas pessoas que conseguem dar a impressão de que tudo o fazem, por mais complexo que seja, é sempre levado a cabo com facilidade, com leveza, sem a angústia dos afogueados.
Interrogou-me sempre muito essa atitude e um dia percebi porquê: porque o Leonardo era feliz naquilo que fazia, tinha a sorte de adorar a profissão que desempenhava, sabia dela extrair o essencial para poder sentir-se satisfeito no seu trabalho. Tinha imensa confiança em si próprio e, felizmente, tinha toda a razão para isso.
Um dia, não há muitos anos, senti coragem para lhe dizer uma verdade que já tinha partilhado com alguns amigos: ele tinha sido um dos meus modelos na carreira - e eram só dois ou três. Era “assim” que se devia ser diplomata: fruir os aspetos lúdicos da vida, saborear as coisas e as pessoas, saber olhar uma mulher bonita, dizer uma boa graça, degustar um bom vinho e um bom jantar, e, ao mesmo tempo, saber sempre concentrar-se no essencial, ter a apurada perceção do interesse nacional, a firmeza no terreno negocial, a agudeza do argumento “espetada” com o sorriso da razão que é a nossa, muito “my country, right or wrong”. O Leonardo era assim e eu tentei ser também assim.
Nunca tive a sorte de poder trabalhar diretamente com Leonardo Mathias, e essa é uma mágoa eterna que sinto. Convidou-me a ir para Bruxelas, onde foi um excelente embaixador junto das instituições comunitárias, provando que a carreira tinha gente qualificada, ao contrário do que alguns à época ainda pensavam, para garantir que os diplomatas podiam fazer esse lugar como ninguém. Por opções pessoais, não pude aceitar esse seu convite e não apreciou que lhe tivesse dito que não. Disse-mo, mas sempre com um sorriso, o seu.
Vou contar duas histórias de Leonardo Mathias.
Ao tempo em que era secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, com André Gonçalves Pereira como ministro, em 1981, o embaixador britânico, Hugh Byatt, procurou-o, com urgência, para poder obter luz verde para que aviões britânicos, em trânsito para irem apoiar as suas forças armadas, na guerra das Falkland/Malvinas, pudessem escalar território português. Leonardo exigiu que o pedido fosse feito à luz da “velha Aliança”, de que os ingleses só se lembram nos discursos. O britânico reagiu, Leonardo insistiu e Londres acabou por aceitar. Era a História a impôr-se, na cabeça do diplomata feito político.
O outro episódio passou-se em Israel, durante a presidência portuguesa das instituições comunitárias, em que Leonardo Mathias era nosso enviado especial para a região. Perante uma qualquer diatribe do interlocutor local, ele atirou-lhe à cara uma realidade pouco conhecida: Israel tinha fornecido, a pedido dos americanos, treino à guerrilha independentista da FNLA, de Holden Roberto, que combatia as tropas portuguesas. E deixou claro que, em Lisboa, isso não era esquecido.
Era assim Leonardo Mathias. Frontal e patriota. Era conservador, e aí divergíamos, mas nunca tivemos o menor dissídio. Tínhamos alguns “azares” (acordámos não lhes conferir o estatuto dignificante de “ódios”) comuns. Nos últimos anos, éramos parceiros de uma tertúlia almoçante, na qual ele me tinha introduzido. Cada vez falava menos, mas, ao vê-lo, aquele sorriso aberto e cordial fazia sempre o meu dia.
Vou ter muitas saudades do meu amigo Leonardo Mathias. Deixo um beijo à Teresa e um abraço de pesar ao Marcello e a toda a sua Família.
Uma televisão pública
Os portugueses descobriram agora que a RTP conseguiu montar, num prazo curto, um espaço de ajuda educativa que permite, em tempo de pandemia, suprir algumas das aulas presenciais que é inviável realizar. O êxito desta operação é revelado pela generalidade das apreciações e até pelo nível de audiências.
Toda a gente achou normal que fosse a RTP a fazer isso, ninguém se perguntou por que não foram os canais privados a ter esta iniciativa. Porque os portugueses sabem que a RTP é a sua televisão, que é a ela que se recorre para ações de serviço público. E talvez as pessoas desconheçam que o Estado não colocou nem um euro extra para a montagem deste novo projeto, que tem como parceira a Fundação Calouste Gulbenkian.
A RTP - e quando escrevo RTP, quero significar também as diversas rádios, todas sem receitas de publicidade, num conjunto de 19 canais, alguns servindo as Regiões Autónomas e várias zonas pelo mundo – é um serviço eminentemente público, financiado por uma contribuição ínfima dos cidadãos, inferior à que, lá fora, sustenta empresas congéneres.
Hoje, a tutela da RTP é um Conselho Geral Independente (CGI), que escolhe a administração, dá linhas genéricas de orientação e vela pelo cumprimento das obrigações de serviço público, sem se imiscuir na informação e na programação. A RTP é uma televisão “pública”, não é uma televisão “do Estado”, como foi no passado, onde os governos intervinham a seu bel-prazer.
A RTP vive hoje com metade do tempo de publicidade dos canais privados e tem as suas contas em dia. É, também com as suas rádios, um instrumento indispensável de ligação às comunidades portuguesas pelo mundo, um importante promotor da nossa língua, um auxiliar da projeção externa do país. E onde é que hoje se pode ouvir música clássica na rádio, sem ser na Antena 2? E quantos elogios não testemunhamos, todos os dias, à qualidade da programação da RTP 2?
A RTP é um “oásis“? Longe disso! Pode discutir-se a sua linha da informação? Pode e deve. A programação pode ser melhorada? Claro que sim! Em tempos normais, há por ali futebol a mais? Como espetador, sou dessa opinião. Como membro (não remunerado) do CGI da RTP, órgão a que é vedado intervir na informação e na programação, apenas nos cumpre velar por que as regras de serviço público sejam cumpridas pela empresa E é com gosto que constato que, nesta crise, a RTP esteve bem à altura daquilo que se lhe pode pedir, como televisão de todos os portugueses. E se começássemos a pensar num canal permanente RTP Educação?
Location:
Oceano Atlântico
terça-feira, abril 21, 2020
Clara Ferreira Alves
Não conheço Clara Ferreira Alves. Ou melhor, lembro-me de termos feito parte de uma delegação, creio que à Hungria, nos anos 90, e de ambos termos estado numa conversa, com mais gente, no hall de um hotel de Budapeste. É tudo.
Depois disso, para mim, há duas Clara Ferreira Alves.
Uma delas é a pessoa que faz parte dos debatedores do “Eixo do Mal”. Quase que deixei de ver o programa, apenas por causa dela, pelo que me irrita, sempre que a vejo e oiço.
A outra é a escritora. Tenho uma quase veneração pela qualidade da sua escrita, dos seus livros àquelas crónicas na revista do “Expresso”, num português magnífico, com uma construção soberba, que, todas as semanas, me dá um prazer imenso a ler. Até já quase me fez esquecer o quanto gostava de encontrar por ali, naquele mesmo lugar, o José Manuel dos Santos.
Decididamente, não quero que a Clara Ferreira Alves do “Eixo do Mal” polua a imagem da escritora, de cuja qualidade de texto sinto, frequentemente, inveja - e a inveja não faz parte dos meus defeitos, e tenho vários, estimados e alguns, julgo, estimáveis.
Barris
Ao preço a que o barril está, deixa de fazer sentido a prometedora exploração de petróleo no Beato.
Os olhos agora voltam-se, ali ao lado, para o Poço do Bispo. Ainda haverá barris na Abel Pereira da Fonseca?
(As novas gerações saberão de que é que eu estou a falar?)
Brasília e as duas igrejas
Faz hoje precisamente 60 anos que foi inaugurada a cidade de Brasília, a nova capital do Brasil.
Por lá, imagino que os tempos não vão para grandes comemorações, mas, não obstante, quero deixar aqui um abraço aos muitos amigos que ali deixei, com alguns dos quais mantenho um contacto regular.
Nesse abril de 1960, Portugal foi convidado a estar presente, ao nível religioso mais elevado, nas cerimónias: o cardeal Gonçalves Cerejeira celebrou a missa inaugural da nova capital. Diz-se que a homilia do prelado luso foi de muito difícil compreensão por parte do auditório, o que ocorre muitas vezes quando o português de Portugal é falado de uma forma muito cerrada. Acresce que o “ch” beirão do amigo de Salazar deve ter agravado ainda mais essa dificuldade.
Ao seu lado na celebração, Cerejeira tinha um arcebispo brasileiro. Era um nome, à época, ainda pouco conhecido. Mas, curiosamente, era um homem que iria ficar na História do Brasil, por, anos mais tarde, ter tomado posições de grande coragem, ao lado dos pobres e dos perseguidos pelo sinistro regime militar que, quatro anos depois, iria tomar conta, por quase duas sangrentas décadas, do quotidiano sócio-político do país.
A missa inaugural de Brasília seria assim celebrada pelo prelado que abençoou a ditadura portuguesa, Gonçalves Cerejeira - pessoa que não levantou um dedo face às perseguições de que foi alvo o padre Abel Varzim ou António Ferreira Gomes, bispo do Porto - e por Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que seria a face da dignidade da igreja brasileira face ao arbítrio da ditadura brasileira.
Uma imensa ironia, nesse dia 21 de abril de 1960. Faz hoje 60 anos.
(Há trze anos, a convite da TAP, publiquei na sua revista de bordo uma espécie de homenagem à cidade. Tirando referências de conjuntura, o texto permanece válido, para quem tiver interesse em lê-lo aqui.
segunda-feira, abril 20, 2020
Exame prévio
Não sei quem é o autor do título desta notícia, nem se as duas jornalistas tiveram alguma coisa a ver com a escolha desse mesmo título. Dito isto, voluntária ou involuntariamente, estamos perante uma seleção genial de palavras. Quem não perceber, tem agora a Telescola...
Cartas antigas
Não tenho por hábito guardar nada. Porém, durante alguns anos - no governo, nas embaixadas - alguém, quase sem que eu desse conta, guardava por mim toda a imensa correspondência pessoal: o que chegava e o que partia, com fotocópias de quase tudo. Eu tinha uma confiança cega nessas pessoas, e nunca me arrependi.
Essa montanha de coisas jaz em dossiês cujo estado físico exterior cada vez mais me repugna. Por um lado, não queria que tudo aquilo fosse para diretamente o lixo, sem eu previamente verificar se, lá pelo meio, não haveria algo que, de facto, ainda me pudesse interessar. Mas o interesse potencial que eventualmente pudesse ter nessas coisas nunca tinha sido suficiente para me estimular a vencer a preguiça de ir folhear aqueles milhares de páginas.
Essa montanha de coisas jaz em dossiês cujo estado físico exterior cada vez mais me repugna. Por um lado, não queria que tudo aquilo fosse para diretamente o lixo, sem eu previamente verificar se, lá pelo meio, não haveria algo que, de facto, ainda me pudesse interessar. Mas o interesse potencial que eventualmente pudesse ter nessas coisas nunca tinha sido suficiente para me estimular a vencer a preguiça de ir folhear aqueles milhares de páginas.
No passado fim de semana, aproveitando o sol e o confinamento, fiz uma tarde de busca da parte desses arquivos (outra grande parte anda lá por Vila Real) correspondente ao tempo em que andei pelo governo - mais de cinco anos! Percebi então a verdadeira utilidade das máscaras da moda. Conseguir abrir aqueles dossiês, de onde caem aranhas secas, traças feitas fósseis e uma poeira que imagino muito pouco sã, só se consegue, sem espirrar, com a cara tapada. E no jardim.
Encontrei alguma coisa interessante? Pouca, confesso! Lá estavam muitas (não todas, claro!) cartas recebidas e cópia das minhas respostas, quando era o caso, que as minhas amigas e dedicadas secretárias - Ana Cristina, Irene, Sabrina, Aida, Antónia, terei falhado alguém? - iam pacientemente arquivando. Ali estão coisas de gente que já morreu, de outra que ainda por aí anda, alguns de quem me mantenho próximo, outros que deliberadamente se afastaram (eu nunca me afastei de ninguém, creio). Pessoas a pedirem emprego (para si ou para os seus), algumas a queixarem-se de supostas injustiças, outras a quererem um “jeitinho” para uma promoção ou colocação, amigos a zangarem-se comigo por falta de atenção, outros a darem-me novidades da sua vida (quando isso se fazia por carta) e muita, imensa, correspondência burocrática. Também alguma correspondência “dura” com outros membros do governo, mesmo ministros! Nunca me tinha dado conta de ser tão refilão!
A nostalgia nunca me ataca, pelo que, no destino definitivo daquilo, fui impiedoso e drástico. O lixo vai fazer desaparecer quase tudo nos próximos dias. Mas guardei ainda algumas coisas, por graça.
Ontem, relembrei a uma amiga uma carta, muito formal, que ela me tinha dirigido, há precisamente 22 anos, a cortar “relações políticas”, em nome do partido de oposição que ela representava, como protesto por algo que eu teria dito numa entrevista a um jornal. A resposta imediata dela, numa SMS, foi: “Que divertido! Bons tempos!”. Eram, mas estes, apesar de tudo, também são.
Todos os nomes
Um dia, no Brasil, numa conversa, saiu-me esta: “andam para aí uns fabianos a mandar bocas sobre tudo...”
O meu amigo Arnaldo olhou para mim, franziu o sobrolho e disse: “Como sabe, Francisco, o meu filho chama-se Fabiano”.
Lá tive que explicar que, em Portugal, e para uma certa geração, o termo “fabiano” tinha a mesma aceção com que se usa “fulano”, “sicrano” e “beltrano”. E creio que também esclareci que os “fabianos” eram, além disso, uma conhecida e bem respeitável escola britânica do pensamento socialista moderado do século XIX.
Razão têm os que dizem que Portugal e o Brasil são dois países separados por uma língua comum.
Razão têm os que dizem que Portugal e o Brasil são dois países separados por uma língua comum.
Aqui deixo um abraço saudoso, e com votos de saúde, à Josina, ao Arnaldo e, claro, ao Fabiano.
Liberais e outras raças
Lembro-me bem do tempo em que, quando se dizia que “fulano é um liberal”, isso era visto como um elogio.
Quem é que, entretanto, terá dado mau nome ao vocábulo “liberal”?
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Tempus fugit
Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...

















