Não sigo as intrigas da corte espanhola, mas o anúncio feito ontem pelo rei, sobre herança do pai e o seu afastamento institucional, num dia em que o país vive numa crise gigantesca de saúde pública, ou tem algo muito sério por detrás, que deve ser explicado, ou é uma “tonteria”.
domingo, março 15, 2020
Recordar
Ás vezes, quando vejo o grau de exigência sobre os serviços públicos portugueses, comparando-os nas estatísticas com os restantes países europeus, apetece-me lembrar uma verdade desagradável mas muito real: há muitas décadas que somos o país mais pobre da Europa ocidental.
Mendes bem
Marques Mendes a zurzir o negativismo dos críticos azedos que passam o tempo a sublinhar o que corre mal, como se algum país estivesse preparado para responder com eficácia uma situação como esta.
Marta Temido
Nestes dias estouvados, sinto uma grande segurança por ter Marta Temido como ministra da Saúde, assessorada pela DGS, Graça Freitas. O meu sincero agradecimento a ambas.
A tia Juju
A tia Juju morreu há mais de 100 anos. Era irmã do meu avô materno. Não tenho por aqui os canhenhos da família para ver a idade exata com que se foi, mas, pelas fotografias que andam lá por casa, em Vila Real, teria vinte e poucos anos.
Era bonita e solteira. Tinha uma figura esguia, muito elegante, “modiglianiana”, que se vê em imagens de piqueniques de família, sempre com um ar melancólico, numa postura que, em criança, tinha o condão de me irritar, por me parecer um pouco snobe. Não me perguntem porquê, mas sempre achei que a tia Juju devia ter uma voz rouca. Desenhava muito bem. Sou feliz proprietário de dois belos desenhos a carvão, com perspetivas do parque das Pedras Salgadas.
A tia Juju morreu em 1918, com a “pneumónica” ou “gripe espanhola”, como também por cá ficou conhecida. Na minha família materna, o vírus dizimou então cinco pessoas.
Impressionou-me sempre muito a história que se contava na minha família de que o seu caixão saiu da Casa do Pereiro, em Bornes de Aguiar, onde vivia com os irmãos e com a minha bisavó, através da janela do quarto onde morreu. Porquê? Para que a minha bisavó, muito abalada que ainda estava pela morte, precisamente na véspera, de um irmão, não se desse conta de que tinha acabado também de perder, horas depois, aquela que era a sua filha mais querida.
A “pneumónica” infetou 500 milhões em todo o mundo, estimando-se que possa ter vitimado quase 100 milhões de pessoas, sendo considerada a mais mortífera pandemia da história da humanidade. Em Portugal, terão morrido cerca de 120 mil.
As pandemias, nos tempos de hoje, conseguem-se controlar ao final de algum tempo. Até lá, infelizmente para muitos, a sua sorte está a ser a mesma que a minha tia Juju teve na “pneumónica”.
sábado, março 14, 2020
Flagrante
Vamos acabar o dia com um sorriso.
Este episódio é verdadeiro. Os protagonistas são de língua espanhola e muitos conhecem-lhes os nomes. É uma historieta antiga, um clássico das atribulações afetivas da vida diplomática.
Numa determinada capital, o embaixador mantinha uma relação sentimental com a mulher de um seu jovem colaborador.
Um dia, por um desencontro de agendas (acontece aos melhores!), o diplomata entra na sua residência e encontra o chefe em "vias de facto" com a sua esposa.
Ao embaixador, assumindo a fragilidade em que a situação o colocava, preparado, quem sabe?, para um ajuste violento de contas, só lhe ocorre dizer:
- Estou à sua disposição!
O jovem diplomata, com um sentido de avaliação da conjuntura e uma capacidade de reação que prenunciava já uma bela carreira, ter-lhe-á respondido:
- Quero ir para Roma, com promoção.
E foi.
Deixa-os pousar!
A expectável retração nas viagens aéreas nos próximos tempos, fruto da corrente crise, não tardará a surgir na nova contabilidade de quantos acham que a Portela é mais do que suficiente para as exigências do acesso à capital. O imobilismo é um dos lóbis mais poderosos do país.
O nosso retrato
No comportamento que cada um assumir face aos outros, nos momentos mais complexos desta crise, irá emergir o melhor e o pior das pessoas, sendo que a indiferença fará parte deste último.
Palmas
Bela homenagem aos nossos profissionais de saúde: ás 22 horas, em muitas janelas e varandas do meu bairro, como em várias outras partes do país, muitas palmas se ouviram. Bem merecido!
A rentrée
Há pouco mais de uma semana, andava a tentar encontrar uma data disponível, ainda em abril, para “encaixar” um almoço de trabalho. Agora, tenho à minha frente uma ”bela” e “invejável” agenda em branco. Acho que, com algum realismo, vou começar a preparar a “rentrée” de setembro.
Assim não vamos lá...
Não quero dar notas pessimistas, mas ver hoje à tarde o relvado da Alameda Afonso Henriques com centenas de pessoas, juntas no relvado, crianças à solta, jogos de futebol, em registo de “business as usual”, com muitas esplanadas por Lisboa cheias de gente, dá-me uma sensação de inconsciência.
Caro Mário Centeno
Eu sei, caro Mário Centeno, que você merecia, como poucos, poder ir fazer outras coisas, depois do magnífico trabalho que o país muito lhe agradece. Mas, caso ainda lho não tenham dito, fique sabendo que esse mesmo país nunca lhe perdoaria se abandonasse agora o “cacilheiro”!
Imunidades
Humor em tempo de vírus. Reação de um diplomata estrangeiro em Lisboa a quem telefonei a saber como andava: “A nós, o que nos vale é a imunidade diplomática!”
As mãos
Manuel Alegre tem um poema que, noutros tempos, muitos da minha geração sabíamos de cor.
Era “As Mãos”: “Com mãos se faz a paz, se faz a guerra / com mãos tudo se faz e se desfaz / com mãos se faz o poema - e são de terra / com mãos se faz a guerra - e são a paz”.
Nestes dias em que todos andamos preocupados com as mãos, que colocamos atrás das costas quando um conhecido se aproxima, imprudentemente, para uma “mãozada” das antigas, tenho-me lembrado muito desse texto, que também dizia: “Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra./ Não são de pedras estas casas, mas de mãos. / E estão no fruto e na palavra / as mãos que são o canto e são as armas”.
Um velho amigo, que se foi afastando de mim, desde há uns anos, por razões, pelos vistos, ideológicas (imaginem!), um homem do Norte que verifico que tem vindo a “adolescer” com a idade no seu crescente radicalismo, mantinha, ao que me lembro, uma velha tese que nunca vi provada mas que sempre apoiei, por um corporativo tropismo regionalista: ”Nós, a malta da Norte, lavamos as mãos com muito mais frequência do que estes tipos do Sul, em especial os de Lisboa”. Assisti a gente a reagir, indignada, a esta teoria. Será verdadeira? Não quero abrir o debate, longe disso! Se ele se instalar nos comentários, “lavo daí as minhas mãos”...
Imagino que esse meu amigo, agora distante, hoje convertido a uma espécie de nacionalismo esquerdista, num regresso às origens onde acalentou “amanhãs” que ele deve achar que não cantaram suficientemente, o que até lhe acidulou a escrita, possa andar agora, como sabão e álcool, a desinfetar os seus dias e as suas mãos, até porque, tal como muitos de nós, “já não vai para novo”.
Como ele também andou por Coimbra, e como o mundo já deu muitas voltas, posso imaginar que, nesta fase da vida, ele goste da poesia de Manuel Alegre, de que aqui deixo as estrofes finais do soneto que acima fui transcrevendo: “E cravam-se no tempo como farpas / as mãos que vês nas coisas transformadas./ Folhas que vão no vento: verdes harpas. / De mãos é cada flor, cada cidade./ Ninguém pode vencer estas espadas:/ nas tuas mãos começa a liberdade.”
sexta-feira, março 13, 2020
“Revolução”
Começo por um “disclaimer”: sou um orgulhoso sócio da Associação 25 de abril e, numa muito modesta medida, também dei “uma mão” a que a Revolução desse dia se fizesse. E, por isso, gosto muito da palavra Revolução, sempre com maiúscula, claro. Ao contrário de muitos amigos meus.
Dei conta, há dias, de que o restaurante da Associação, que se chamava “Com Tradição”, passou a chamar-se “Revolução” e passou a ter uma nova equipa. Infelizmente, em função dos dias que correm, encerrou logo depois de reabrir. Aguardemos, assim, melhores tempos.
No passado, o espaço teve uma existência atribulada, com gerências sucessivas, com uma ”produção” gastronómica errática: já por lá comi bastante mal, já por lá comi razoavelmente, confesso que nunca de lá saí com a sensação de ter comido um repasto de sonho. Mas isso acontece-me em muitos outros locais.
Esta minha nota, porém, não é gastronómica, é semântica ou mesmo toponímica. Com o devido respeito ao meu amigo Vasco Lourenço, verdadeira alma da Associação, quero aqui deixar claro que considero um erro dar a um restaurante, mesmo a este, o nome de ”Revolução”.
O restaurante da Associação 25 de abril é um espaço aberto ao público, não exclusivo para os seus associados. E sendo a palavra Revolução, assuma-se isso ou não, um vocábulo forte e divisivo, conferi-lo a um espaço de restauração ligado ao 25 de abril é, a meu ver, um erro comercial.
As casas comerciais, para terem sucesso, não podem ter a menor conotação política e eu não estou a ver uma pessoa de direita, que detesta o 25 de abril, um “retornado” de África, que vota CDS, dizer para a família: “Esta noite vamos ali ao “Revolução” comer umas pataniscas com arroz de feijão. Parece que estão a servir bem...” Se me disserem que esses clientes não interessam ao restaurante, então já entenderei o que se espera do seu balanço comercial.
Mas isto sou eu a pensar alto! Por mim, quando o “Revolução” reabrir, vou lá almoçar ou jantar, claro. E viva o 25 de abril!
Atenção aos vigaristas!
O acréscimo de despesas determinado pela situação de saúde pública vai sair do “bolso” orçamental dos portugueses e da UE.
O Estado tem de ser de um rigor extremo no controlo desses gastos, nomeadamente em matéria de ajudas a entidades coletivas ou a pessoas, devendo ser punidos severamente quantos procurem cavalgar oportunisticamente a conjuntura.
O grande mistério
Conhecendo o caráter especioso de algumas teses universitárias, quero crer que já deve estar a aí a preparar-se um estudo aprofundado sobre esse imenso mistério, pelos vistos internacional, que é a prioridade dada ao açambarcamento do papel higiénico.
Automóveis
Esperemos que a EMEL e as empresas similares, por esse país fora, sem prejuízo de preservarem a liberdade de acesso de viaturas e peões, mostrem neste tempos uma flexibilidade sensata.
Eles
Ontem, dia do consenso, ao verem as forças políticas alinhadas, silenciaram-se. O país não perceberia outra coisa e apontaria a dedo a quem se colocasse de fora. Hoje, devagar, devagarinho, como quem não quer a coisa, eles vão aparecer. Estejam atentos.
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