"Desculpem, mas vou falar em português. Tenho muito orgulho em ser português" - José Mourinho, ontem, ao receber o galardão de "melhor treinador do mundo", atribuído pela FIFA.
terça-feira, janeiro 11, 2011
segunda-feira, janeiro 10, 2011
Rocha Vieira
Este é um post que preferia não ter de escrever, mas que, por uma questão de honestidade para comigo mesmo, entendo dever redigir.
O general Vasco da Rocha Vieira é uma personalidade militar e política que, não obstante conhecer mal pessoalmente, há muito me habituei a respeitar e considerar. Prestou elevados serviços ao Estado e tem uma notável folha de atividade pública, que o colocam, definitivamente, num patamar prestigiado da história da nossa democracia.
O jornalista Pedro Vieira é um amigo de há quase três décadas - conhecemo-nos numa passagem sua por Angola -, cujo profissionalismo sempre admirei, desde os tempos de "O Jornal" à "Visão", e com o qual mantenho uma excelente relação pessoal.
Agora, Pedro Vieira escreveu uma biografia de Rocha Vieira. Um livro apresentado numa bela edição da Gradiva, muito bem redigido, bastante documentado, sendo mais do que evidente que o biografado cedeu grande parte da informação ao biógrafo.
Agora, Pedro Vieira escreveu uma biografia de Rocha Vieira. Um livro apresentado numa bela edição da Gradiva, muito bem redigido, bastante documentado, sendo mais do que evidente que o biografado cedeu grande parte da informação ao biógrafo.
Rocha Vieira não necessitava deste livro, Pedro Vieira não necessitava de o ter escrito. Costuma dizer-se que elogio em causa própria é vitupério. E esta obra é elaborada num estilo laudatório que eu pensava já ter desaparecido, por onde perpassam ajustes de contas perfeitamente escusados, remoques que só apoucam o biografado, expressão de ressentimentos que, para mim, são muito pouco consentâneos com a imagem que eu tinha do general Rocha Vieira, a qual procurarei preservar, apesar deste livro. É um livro como uma visão totalmente unilateral, que dispensa, em absoluto, o contraditório, como se o que nele se afirma devesse ser tido como uma incontestável evidência. Em lugar de uma biografia, estamos perante uma hagiografia autorizada do general Rocha Vieira.
Sei que o Pedro Vieira não vai gostar deste meu post. Mas ele também sabe que eu não escondo nunca o que penso e que, também aos amigos, digo sempre a verdade. E a verdade é que não gostei deste livro.
Diferenças
A televisão pública espanhola decidiu nunca mais transmitir touradas e, no seu livro de estilo, consagrou a tourada como uma forma de violência a que não é legítimo expor as crianças.
A RTP continua a ser a orgulhosa organizadora da "corrida RTP" e a liderar um forte lóbi de propaganda tauromáquica nos "media" portugueses.
A RTP continua a ser a orgulhosa organizadora da "corrida RTP" e a liderar um forte lóbi de propaganda tauromáquica nos "media" portugueses.
Cada televisão pública da península tem, assim, a sua ética. Diferente.
Coincidências
Ele há cada uma!
Há dois anos, mais ou menos por esta época, fui consultar um médico. Como cheguei cedo, fui para uma pastelaria próxima, fazer horas. Por lá apareceu um velho amigo meu, com quem troquei votos de bom ano. Desde então, só nos voltámos a ver, de raspão, num restaurante, há já muitos meses.
Voltei hoje ao mesmo médico, que, entretanto, mudou de local do seu consultório. No caminho, passei por um café. Lá estava aquele meu amigo*...
Caramba!
*Curiosamente, ele é um dos seguidores deste blogue
Caramba!
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domingo, janeiro 09, 2011
Tintin e os polícias
Neste Natal, ao folhear*, numa casa de familiares, a edição portuguesa (pós-25 de abril) do álbum "Tintin na América", recordei o facto de um dia me ter dado conta de que a primeira aparição da história em Portugal havia sido objeto de uma discreta intervenção da censura. Já aqui havia falado do assunto, mas só agora posso documentar esse ridículo ato censório.
Hoje, dei-me ao cuidado de procurar, na coleção completa do "Cavaleiro Andante" (1952-1962), de que sou feliz proprietário, e lá fui encontrar, no nº 210, de Janeiro de 1956, a primeira imagem dessa história**. Olhem para ela:
O Estado Novo, na sua cuidadosa preservação das figuras da autoridade, entendeu não dever permitir que um polícia pudesse ser apresentado a fazer a continência a um gangster.
O "Cavaleiro Andante" optou também por uma tradução livre do texto original francês, que - já agora! - assim reza: "À Chicago, où règnent en maîtres les bandits de toutes espèces, un soir..." Talvez tivesse sido ponderada a necessidade de remeter para um prudente e bem qualificado passado essas mesmas aventuras. Não fosse dar-se o caso de, em 1952, alguém ter a veleidade de pensar que, noutras partes do mundo, pudesse haver "bandits de toutes espèces" a reinarem sob a proteção de polícias...
* Eu havia escrito "desfolhar", o que era um enormíssimo erro. Um leitor atento corrigiu-me, o que agradeço.
**Para os mais curiosos e conhecedores da obra de Hergé, noto que a história tal como publicada no "Cavaleiro Andante" é claramente baseada na primeira edição do "Tintin en Amérique", que surgiu na revista belga "Le Petit Vingtième", em 1931, o que justifica a total diferença na coloração (a versão original era a preto-e-branco), para além de bizarros pormenores de "publicamente correto" que não vêm para o caso...
O "Cavaleiro Andante" optou também por uma tradução livre do texto original francês, que - já agora! - assim reza: "À Chicago, où règnent en maîtres les bandits de toutes espèces, un soir..." Talvez tivesse sido ponderada a necessidade de remeter para um prudente e bem qualificado passado essas mesmas aventuras. Não fosse dar-se o caso de, em 1952, alguém ter a veleidade de pensar que, noutras partes do mundo, pudesse haver "bandits de toutes espèces" a reinarem sob a proteção de polícias...
* Eu havia escrito "desfolhar", o que era um enormíssimo erro. Um leitor atento corrigiu-me, o que agradeço.
**Para os mais curiosos e conhecedores da obra de Hergé, noto que a história tal como publicada no "Cavaleiro Andante" é claramente baseada na primeira edição do "Tintin en Amérique", que surgiu na revista belga "Le Petit Vingtième", em 1931, o que justifica a total diferença na coloração (a versão original era a preto-e-branco), para além de bizarros pormenores de "publicamente correto" que não vêm para o caso...
FMI
Anda por aí uma "escola" de pensamento fácil que é de opinião que a vinda do FMI em socorro das finanças portuguesas seria naturalmente desejável, por significar empréstimos a juros mais baixos dos que o que são praticados pelos mercados onde o Estado português se financia e, no essencial, representaria um sossego para estes. Essa "escola" - claro! - nunca se perguntou por que razão, se o cenário é assim tão róseo, todos os países mostram a maior relutância de terem de recorrer ao FMI.
Essa doutrina, que despreza, em absoluto, as dimensões de perda de soberania que o recurso a essa ajuda implicaria, para além do imprevisível pacote de medidas acrescidas de rigor que nos seria imposto, esquece um ponto essencial: a dívida mais importante com que Portugal se defronta - que não é a do Estado, mas a dos bancos nacionais - não seria abrangida por essa operação de "rescue".
É estranho (será?) que poucos falem disto.
Vitor Alves (1935-2011)
Deve ser geracional: cada vez tenho mais mortos conhecidos.
Vitor Alves é um nome que, nos dias de hoje, pouco dirá a largos setores da opinião pública. Contudo, é pena que se não saiba que foi uma figura que muito contribuiu para a liberdade que abril nos trouxe, nessa magnífica aventura de 1974. Coordenador do programa do Movimento das Forças Armadas, era um homem sereno e de extrema cordialidade, um "cavalheiro" que, em diversas ocasiões, encontrei nos corredores da Revolução, com um sorriso simpático, um discurso e uma prática política de onde esteve sempre ausente qualquer radicalismo.
Um dia, no final dos anos 90, Vitor Alves procurou-me para tratar de assuntos profissionais, recordo-me que ligados à atividade de empresas nacionais em Marrocos. A conversa tinha condições para ser bastante breve. Num instante, vieram à baila os tempos do "verão quente". Os seus olhos brilharam e ali ficámos - o velho capitão de abril e o antigo oficial miliciano - a recordar gentes e factos desses tempos de esperança, por mais de uma hora. Nunca mais o vi.
sábado, janeiro 08, 2011
Ainda o WikiLeaks
Foi muito interessante o debate em que ontem participei na "Rádio Renascença", a convite de Marina Pimentel, a propósito do caso WikiLeaks, na primeira edição do novo programa "Em nome da lei". Durante quase uma hora, o juiz Eurico Reis, o professor universitário Luís Fábrica e eu próprio abordámos as consequências políticas e jurídicas do caso WikiLeaks.
No essencial, julgo que estivemos de acordo: tratou-se da divulgação de segredos de Estado, sujeita a procedimento criminal. E, na minha opinião, nenhum "interesse público", eventualmente arguível por alguns dados novos revelados nessa documentação, justifica uma devassa generalizada que põe em risco a segurança de Estados e dos seus servidores, que expõe interlocutores de boa fé e que cria um véu de suspeição sobre o exercício da profissão diplomática.
"Procedimento concursal"
Há semanas, uma colaboradora minha trouxe-me um documento para assinar onde se falava de "procedimento concursal". Tratava-se das regras para um concurso público. Recordo-me - e ela recordar-se-á também - que reagi levemente à utilização da expressão. Mas logo me foi evidenciado que se tratava de uma fórmula que vinha assim crismada num documento vindo "de Lisboa". Porque tinha pouco tempo, e talvez também pouca paciência para me preocupar com pormenores, lá assinei o papel. Mas fiquei a remoer o assunto...
Acabo de ler, no último número do "Sol", que o Pedro d'Anunciação (numa coluna não assinada, mas que destila a sua pena teclada) se insurge - e muito bem! - contra o termo "procedimento concursal".
Acabo de ler, no último número do "Sol", que o Pedro d'Anunciação (numa coluna não assinada, mas que destila a sua pena teclada) se insurge - e muito bem! - contra o termo "procedimento concursal".
Meu caro Pedro: receio bem que já não vamos a tempo de evitar este esmagamento definitivo pelo "administrativês", essa espécie de degenerescente iliteracia criativa, que dá foros de lei a desnecessários neologismos, promovidos por alguns juristazecos "de trazer por casa".
No Partido
Há dias, fui à sede do Partido Comunista Português, na rua Soeiro Pereira Gomes. Só aí consegui adquirir a "Antologia Poética" de José Carlos Ary dos Santos, que um amigo brasileiro, há meses, insistentemente me pedia. Em todas as livrarias me diziam que a obra, das "Edições Avante!", estava há muito esgotada. Numa noite, ao ver na televisão uma declaração pública de um responsável do PCP, tendo como cenário de fundo o que me pareceu serem estantes de uma livraria, achei que essa poderia ser a solução para o meu problema. E foi.
Esta era a segunda vez que entrava numa sede do PCP. A primeira havia-me ficado bem gravada na memória.
Estávamos em Maio de 1974. Num jornal, apareceu a notícia de que o PCP iria abrir a sua primeira sede, numa certa noite, na rua António de Serpa (aquela que iria ficar eternamente crismada, na memória política portuguesa, como "a António Serpa", simplificando o nome do poeta). No texto, dizia-se que o partido, logo na ocasião da inauguração dessa sede, iria pôr à venda exemplares de documentos clandestinos editados durante a ditadura. Eu era, à época, um colecionador dedicado de publicações desse género, tendo já então uma apreciável coleção, a qual, naturalmente, ficaria muito enriquecida com o que o PCP viesse a disponibilizar.
Assim, ao princípio dessa noite, apresentei-me no nº 26, 2º E, da avenida António de Serpa. Atenderam-me com simpatia, dizendo-me que teria de aguardar por alguém, o responsável que ia pôr o material à venda. Os minutos foram, entretanto, passando. As salas, quase vazias de móveis, começaram a encher-se de pessoas, reconhecendo-se entre si. Eu tentava imaginar os encontros anteriores dessa gente, figurava as suas atividades no mundo clandestino dos comunistas, presumia alguns nas batalhas eleitorais em que se haviam envolvido, do MUD e de Norton de Matos a Humberto Delgado, de Ruy Luis Gomes à CDE. Mas, por muito que procurasse, nessas caras, figuras que tivesse encontrado no Congresso Republicano de Aveiro, na célebre sessão do Palácio Fronteira ou por ocasião da "Plataforma" de S. Pedro de Muel, eu não conhecia ninguém. E continuava sozinho. Até que, num certo momento, me dei conta do ridículo da situação.
Com efeito, ali estava eu, por um motivo mais do que fútil, numa festa que não era minha e que, para aquelas pessoas, era uma verdadeira ocasião histórica. Aquela era a data em que um partido que entrara na clandestinidade 48 anos antes, cujos militantes haviam sofrido como nenhuns outros a violenta repressão da ditadura, abria, na legalidade, a sua primeira sede. E eu era, nesse evento, um verdadeiro intruso. Começava a ter a sensação, porventura exagerada, que essa solidão já deveria estar a ser olhada com estranheza por alguns. Não procurava estabelecer contactos, com receio que alguém me perguntasse qual era a minha relação com o partido, que não era nenhuma. Discretamente, fui-me aproximando da porta de saída.
Foi então que dei, de frente, com uma cara conhecida, um antigo quadro do movimento associativo de Medicina, que eu cruzara em várias "guerras" universitárias, constando que estava ligado ao PCP. Olhou para mim, com algum espanto, sabedor que aquela não era a minha "praia" política, seguramente perplexo com a minha presença no seio dessa festa do "Partido" - como, à época, a maioria de nós designava o PCP. Imagino que devo ter feito uma risível figura, quando lhe expliquei: "Vinha aqui comprar "Avantes!" antigos, que li que iam ser postos à venda...".
quinta-feira, janeiro 06, 2011
Banco é Caixa
Em alguns círculos persiste a ilusão de que os diplomatas são uma casta regiamente paga, usufruindo de uma vida de luxo e, por essa razão, com vastos "cabedais", talvez colocados em paraísos fiscais. Se esses círculos verificassem, com regularidade, no "Diário da República", as ridículas reformas de embaixadores com cerca de 40 anos de serviço, talvez mudassem de ideias.No início do ano passado, em Paris, caí por acaso num curioso ambiente de conversa. Uma noite, depois de um jantar, discutia-se, em casa de um magnate, a "tragédia" que era a progressiva transparência do mundo da banca, a qual, cada vez mais, impedia o tradicional refúgio em bancos da Suíça ou do Lichtenstein. Os meus interlocutores sentiam-se agora progressivamente condicionados na sua liberdade de investimento e condenados a regimes fiscais bem menos favoráveis do que aqueles a que estavam habituados.
A certo ponto da conversa, na qual, por razões que só para mim eram óbvias, eu me sentia algo isolado e em que não tinha intervindo, um dos circunstantes, um simpático aristocrata no ativo e riquíssimo industrial na reforma, voltou-se para mim e perguntou:
- E você, Francisco, em que país coloca os seus investimentos financeiros? Com a sua experiência diplomática, deve ter descoberto bons locais para investimento...
- E você, Francisco, em que país coloca os seus investimentos financeiros? Com a sua experiência diplomática, deve ter descoberto bons locais para investimento...
Soubessem eles o que eram os meus "investimentos financeiros" e a pergunta só surgiria por ironia. Mas não: falavam a sério, convictos da minha "riqueza". Assim, deu-me algum gozo, embora tivesse a consciência de que, nesse instante, baixava uns bons furos na escala de avaliação social do grupo, poder responder:
- Eu coloco todo o meu dinheiro em Portugal. O banco que mais uso é do Estado e chama-se Caixa Geral de Depósitos.
Nesse instante, tive a certeza que o meu pai, leal funcionário da Caixa entre 1930 e 1977, e que nesse ano de 2010, se fosse vivo, completaria a idade da nossa República, teria ficado orgulhoso com a minha resposta.
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Histórias da diplomacia
Opiniões
Ele não conseguiu resistir e, na conversa com uma daquelas figuras que, na comunicação social, se pronunciam regularmente sobre todos os temas, por mais especializados que sejam, disse-lhe: "Eu estou quase sempre de acordo consigo, exceto quando conheço os assuntos".
terça-feira, janeiro 04, 2011
Vícios
Era um embaixador delicado, um pouco snobe, mas uma figura muito educada e agradável, que deixou um memória positiva e pedagógica na "casa".
Um dia, um interlocutor francófono perguntou-lhe se fumava. Respondeu:
"Je n'ai pas des petits vices. Je me garde pour les grands..."
segunda-feira, janeiro 03, 2011
Seminário diplomático
O Seminário diplomático, que anualmente reúne, com os seus responsáveis políticos, os embaixadores e altos funcionários do MNE, tem tido vários modelos, desde que foi criado, creio que em 1994. Iniciado nas instalações do MNE (onde ainda não há um auditório!), mudou-se depois para o CCB e, mais tarde, para o Instituto da Defesa Nacional.
(Devo confessar que não é sem uma sensação algo estranha que sempre me sento naquelas cadeiras do IDN onde, há mais de 35 anos, estive presente em Assembleias do MFA e outras reuniões militares nos tempos do "verão quente", algumas bem agitadas...)
Ontem, para além das intervenções institucionais e de parceiros de profissão, tivemos dois interessantes painéis - um sobre a nossa presença no Conselho de Segurança das NU e outro sobre a situação económico-financeira - nacional, europeia e mundial.
Contrariamente a algumas outras ocasiões, devo dizer que dei por muito bem empregue as várias horas passadas a ouvir exposições feitas por um excelente grupo de conferencistas. Faz muita falta, a quem, como nós, está espalhado pelo mundo, receber estes "banhos" periódicos de informação qualificada.
Contrariamente a algumas outras ocasiões, devo dizer que dei por muito bem empregue as várias horas passadas a ouvir exposições feitas por um excelente grupo de conferencistas. Faz muita falta, a quem, como nós, está espalhado pelo mundo, receber estes "banhos" periódicos de informação qualificada.
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Diplomacia portuguesa
domingo, janeiro 02, 2011
O outro défice
O cenário era o balcão do "Tosta Fina", o lugar geométrico dos grandes pequenos almoços em Vila Real. Ontem. Os interlocutores eram dois recém-trintões, bem na vida, seguramente com muitas cilindradas à porta.
- É pá, já viste o pessoal que marou em desastres? - disse um deles, mostrando uma notícia do JN sobre as vítimas de acidentes de tráfego desde o Natal.
- É, há muito gajo que não devia guiar. São uns nabos.
- Bom, estes já não guiam mais... (risos alarves duplos)
- Bom, estes já não guiam mais... (risos alarves duplos)
Pausa para o croissant com fiambre e o sumo de laranja. A bica final reabre a conversa:
- Onde é que foste no fim-de-ano?
- À Corunha.
- Como é que fizeste? Vieste por Chaves?
- Não, pá! Vim por dentro. Em Espanha é uma chatice, não se pode andar, têm bófia à toca por todo o lado, nas estradas. E aquilo é a doer. Só quando se chega à fronteira é que o pessoal pode largar. De Valença cá, foi um tirinho. E tu, onde foste?
- Fui à Estrela. Agora é fácil, com a A24. Consegue-se colar aos 200, muitas vezes. É sempre a bombar. E aqui não há chuis, é porreiro.
Quando me dizem que o principal problema português é o défice orçamental dá-me vontade de rir. Pouco.
- Como é que fizeste? Vieste por Chaves?
- Não, pá! Vim por dentro. Em Espanha é uma chatice, não se pode andar, têm bófia à toca por todo o lado, nas estradas. E aquilo é a doer. Só quando se chega à fronteira é que o pessoal pode largar. De Valença cá, foi um tirinho. E tu, onde foste?
- Fui à Estrela. Agora é fácil, com a A24. Consegue-se colar aos 200, muitas vezes. É sempre a bombar. E aqui não há chuis, é porreiro.
Quando me dizem que o principal problema português é o défice orçamental dá-me vontade de rir. Pouco.
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Vila Real
sábado, janeiro 01, 2011
A linha branca
Aquele embaixador era conhecido pelo seu "mau feitio", pela sua tendência para uma fácil conflitualidade. Homem radicalmente conservador, era, no entanto, culto e inteligente, um profissional competente por quem eu me habituara a ter consideração. Também por outra razão: dizia sempre o que pensava, doesse a quem doesse. E isso é muito raro.
Quando entrei na chancelaria da Embaixada que ele chefiava, num certo país candidato a membro da União Europeia, fez-me alguma estranheza uma linha branca, com cerca de dez centímetros de largura, que atravessava o corredor, uns metros adiante do seu gabinete. Porque as minhas preocupações do dia eram maiores que a curiosidade, logo esqueci o assunto.
No dia seguinte, ao passar de novo pela Embaixada, não resisti:
- O que é aquela faixa branca, ali no chão?
- É uma linha de segurança - responde-me, sério, o embaixador.
- De segurança?
- Ao fundo daquele corredor fica o arquivo e o serviço de cifra. Os funcionários da Embaixada que não têm nacionalidade portuguesa não podem atravessar aquela linha. Quem o fizer, pode ter sanções disciplinares. Você perceba: no fundo, eles ainda são todos comunistas...
Olhando para a evolução política entretanto ocorrida naquele país, agora já membro pleno da União Europeia, deviam ser os últimos.
Paulo Lowndes Marques (1941-2011)
Tenho para ler, na estante virtual das obras em atraso, "O Marquês de Soveral - seu tempo e seu modo", a biografia do mais conhecido diplomata português na corte britânica, escrita por Paulo Lowndes Marques. Há dias, quando aqui falei brevemente das relações luso-britânicas, lamentei não ter o livro à mão. E não sei se o Paulo estaria 100% de acordo com o que publiquei, ele que era, sem a menor dúvida, uma das pessoas, em Portugal, mais conhecedoras do tema. E isso não me era indiferente.
Paulo Marques morreu hoje. Filho de uma cidadã britânica que refletiu, por escrito e de forma original, sobre a atitude dos seus concidadãos para com Portugal, Paulo Marques dedicou-se bastante à dimensão histórico-cultural desse relacionamento. Advogado de prestígio, foi um constante pilar para a manutenção da boa ligação entre os dois países.
Conheci Paulo Marques quando ele foi secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, por um breve período. Anos mais tarde, quando fui para Londres, fui seu inquilino, arrendando um apartamento que aí possuía. Um dia, por uma razão que não vem ao caso, foi preciso mudar o contrato. Achei então que tinha de lhe dar algumas garantias acrescidas, pelo que lhe enviei um texto muito elaborado, com detalhes de alteração preciosistas. Paulo Marques telefonou-me e deu-me esta lição: "Por favor, Francisco, basta-me a sua palavra!".
Era assim, Paulo Marques, que deixará de mandar aos seus amigos, pelo Natal, a regular publicação com que celebrava a sua alegria de viver com os outros.
sexta-feira, dezembro 31, 2010
Europa - 25 anos
Faz hoje precisamente um quarto de século (já!) que Portugal ingressou nas então Comunidades Europeias, mais tarde chamadas União Europeia.
Uma publicação do gabinete do Parlamento Europeu em Portugal, intitulada "25 anos de Integração Europeia", a editar dentro de alguns dias, vai recordar esse trajeto.
Por lá deixo, como muitos outros, um curto depoimento, que intitulei "Os limites da integração":
O pedido de adesão de Portugal às Comunidades Europeias foi a decorrência óbvia do novo curso político do país, no período subsequente à Revolução de 1974, pela necessidade sentida, por pressão das forças então emergentes como dominantes, de garantir que o Portugal democrático pudesse ganhar um espaço no seio de uma cultura política internacional de sucesso. Quem teve a força política para decidir essa opção sentiu que ela poderia, não apenas proporcionar apoios materiais a um mais rápido desenvolvimento económico e social do país, mas, igualmente, trazer um eficaz enquadramento para a consolidação, em moldes congéneres aos dos Estados já então membros, do modelo político que pretendiam implantar no país - assente em instituições democráticas e na economia de mercado. Não foi, por isso, uma opção política neutra, razão pela qual certos setores partidários então reagiram, porque pressentiram que ela iria condicionar definitivamente a dinâmica política do país.
O pedido de adesão de Portugal às Comunidades Europeias foi a decorrência óbvia do novo curso político do país, no período subsequente à Revolução de 1974, pela necessidade sentida, por pressão das forças então emergentes como dominantes, de garantir que o Portugal democrático pudesse ganhar um espaço no seio de uma cultura política internacional de sucesso. Quem teve a força política para decidir essa opção sentiu que ela poderia, não apenas proporcionar apoios materiais a um mais rápido desenvolvimento económico e social do país, mas, igualmente, trazer um eficaz enquadramento para a consolidação, em moldes congéneres aos dos Estados já então membros, do modelo político que pretendiam implantar no país - assente em instituições democráticas e na economia de mercado. Não foi, por isso, uma opção política neutra, razão pela qual certos setores partidários então reagiram, porque pressentiram que ela iria condicionar definitivamente a dinâmica política do país.
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Olá, Bartolomeu!
Há uns anos, por estas horas, estaríamos a caminho das sintrenses escadinhas da Fonte da Pipa. A Fernanda já se tinha encarregado de preparar as sólidas vitualhas que alegrariam o nosso colesterol e, pela enésima vez, eu ter-te-ia pedido perdão por uma dessas noites te ter presenteado com um Chivas "marado". Depois, entraríamos na descoberta desse ambiente, sempre igual mas sempre diferente, que o teu incontável grupo de amigos constituía - da família aos que nela entravam, dos cineastas aos arquitetos, dos pintores aos senhores das letras, dos professores às "troupettes" da Slade, dos fotógrafos aos muito fotografados, dos simples mortais (como eu) aos generais (de abril, sempre!) e tantos e tantos outros, de alguns dos quais não conheci mais do que o sorriso. Pela meia-noite, no terraço, sobre o palácio da Vila, iríamos brindar e comentar o artifício dos fogos da autarquia, antes de passarmos ao sagrado momento do desvendar das papeladas do teu implacável arquivo, onde figurava o cartão com a "cunha" para o Spínola entrar no Colégio Militar (o que a história não teria sido, se a "cunha" não tivesse funcionado!). Depois, confiantes em que a BT da GNR se tivesse distraído na passagem de ano, lá rumávamos a Lisboa, já bem dentro do 1º de janeiro. Eram assim as mudanças de anos, há alguns anos, quando nós também tínhamos outros anos.
Mas isso era quando tu estavas por cá. Agora, a casa mudou de donos, tu mudaste de mundo e nós mudámos de saudades. Sei que a Fernanda deve continuar a dar-te notícias do que por aqui se passa, pelo que, como diria o Chico Buarque, só te quero dizer que "a coisa aqui está preta" (embora eu me interrogue sobre se ainda é politicamente correto utilizar expressões destas). Mas, e em linguagem que tu perceberás, estamos (quase) todos nos lugares do costume. E, embora os "amanhãs" agora por aqui já só assobiem, "a luta continua, a vitória é certa", para que lado é que não se sabe...
A imagem representa uma obra de Bartolomeu Cid dos Santos.
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Ai, Vance...
JD Vance não parece ser ingénuo. E, não o sendo, já deve ter percebido a alhada em que Trump o envolveu, ao passar-lhe a titularidade formal...














