sábado, setembro 04, 2010

Ainda Israel

Na primeira metade de 2001, estive presente num jantar anual organizado por uma associação de amizade Estados Unidos-Israel, cujo nome exato não posso precisar. Por uma qualquer razão, um grupo restrito de embaixadores junto das Nações Unidas era convidado para esse evento. A cada um competia a presidência de uma das mesas, com cerca de uma dúzia pessoas, pelas quais se desdobrava o imenso jantar, num local luxuoso de Nova Iorque. A bandeira portuguesa, tal como a americana e a israelita, figurava no centro da nossa mesa.

O convidado de honra desse jantar era Shimon Peres, então vice-primeiro ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros de um governo israelita chefiado por Ariel Sharon. Peres teve uma intervenção de grande sensatez, com elevado sentido de compromisso, sublinhando os riscos que havia se se viesse a provocar o isolamento de Yasser Arafat e da Autoridade Palestiniana. O futuro, aliás, veio a dar-lhe completa razão.

O ambiente que recebeu as palavras de Peres, nesse encontro que juntava uma elite da comunidade judaica americana, foi de um progressivo gelo. Passados os primeiros minutos do discurso, as palmas que tinham começado por sublinhar algumas das suas frases esmoreceram, até desaparecerem por completo. No final, notei que, na minha mesa, eu tinha sido o único a aplaudir. Na cara e nos comentários secos dos meus vizinhos senti a rejeição profunda da mensagem de Peres. Ouvir alguém falar de perspetivas de negociação com os palestinianos, com cedências na política de expansão dos colonatos, na lógica do "land for peace", era um visível sacrilégio para aquelas pessoas, que aparentemente consideravam que, das suas "trincheiras" de Manhattan, defendiam melhor os interesses de Israel do que um seu líder histórico. Nessa noite, confirmei muito do que pensava sobre o papel da comunidade judaica americana na questão israelo-palestiniana.

Lembrei-me ontem desta história, ao ler notícias de que o comissário europeu do comércio foi alvo de fortes críticas e de acusações de anti-sionismo por ter lamentado que o lóbi judaico americano estivesse a condicionar a posição do seu governo e acabasse por limitar Washington na sua possível pressão sobre Tel-Aviv, para a conclusão de um novo acordo de paz.

Cada vez mais me convenço que a atitude radical de alguns dos amigos externos de Israel, que induzem o país a políticas que contribuem para o seu progressivo isolamento, acaba, muitas vezes, por ajudar à estratégia dos seus piores inimigos. Provavelmente, também isto não pode ser dito. Mas eu digo.

Justiça

Falar do caso Casa Pia? Não faço parte de quantos têm certezas na matéria. As ondas de notícias, ao longo dos anos, não criaram em mim qualquer convicção profunda, embora, como a qualquer pessoa, tenham provocado alguns efeitos impressionistas. Mas, com a vida, aprendi que, por regra, só devemos falar de forma imperativa daquilo que realmente sabemos. E que sabemos nós deste caso, mais do que a própria Justiça? O que lemos nos jornais ou o que as televisões nos trouxeram?

Para mim, apenas duas coisas são certas. A primeira é que houve jovens abusados, acolhidos pela Casa Pia, uma instituição estatal que tinha como obrigação protegê-los e que acabou por se transformar num "supermercado" de sexo infantil e juvenil. A segunda é que um processo conduzido por vários profissionais judiciais, sobre cuja independência global não parece haver razões para alimentar dúvidas, chegou à conclusão que certas pessoas foram culpadas por parte dos abusos cometidos sobre esses jovens e, por essa razão, condenou-os.

Haverá inocentes entre os agora considerado culpados? Se assim for, estamos perante uma tragédia irreparável, embora o sistema judicial português faculte meios que permitem que haja uma revisão do processo. Porém, mesmo que venha a confirmar-se, em derradeira instância, que algum ou alguns dos agora condenados estava inocente, já nada poderá apagar a mancha pública criada sobre a sua imagem, bem como os efeitos sobre as suas famílias e a sua vida futura. A assim ser, a imagem da justiça portuguesa vai sair fortemente ferida, aos olhos da opinião pública. Se, ao invés, estas sentenças vierem a ser basicamente confirmadas por outros juízes, também independentes, só deveremos concluir que, não obstante um condicionamento mediático quase sem paralelo, a justiça portuguesa acabou por fazer o trabalho que lhe competia.

Resta uma questão - essa também da maior gravidade - que ficou (para sempre?) sem resposta: quem e porquê tentou arrastar para este processo suspeitas sobre cidadãos, muitos dos quais nem sequer são conhecidos da opinião pública, que a justiça - a mesma que agora condenou este réus - considerou não terem qualquer fundamento? Essa será, para sempre, uma irrecuperável nódoa na nossa democracia.

Pena é que, por razões múltiplas, todas estas coisas demorem um tempo imenso a ser resolvidas. Fazer justiça é também tomar decisões, de condenação ou de inocentação, num prazo razoável. A justiça fora do tempo acaba por ser um arremedo de justiça.

sexta-feira, setembro 03, 2010

Mandelson

Irrita-me o hábito de ir, a correr, comprar os pré-anunciados "best sellers", como se eles nos fugissem ou tivessemos a obsessão de comentá-los antes que outros os leiam. Há anos que tenho a reação automática de só os adquirir e vir a ler alguns tempos mais tarde (faço uma exceção com alguma banda desenhada, confesso). É o que vai acontecer com o "A Journey", de Tony Blair, que espero apreciar, com calma, lá para outubro.

Para já, ando deliciado com o monumento de genial egocentrismo (a começar pelo título) que é o "The Third Man", de Peter Mandelson, uma figura marcante na história no "New Labour", lado a lado com Blair e Gordon Brown. Mandelson esteve nos governos de ambos, com altos e baixos no seu percurso político interno. É, sem a menor dúvida, uma figura de excecional inteligência e agudeza, às vezes prejudicada por alguma impulsividade e tendência para dizer mesmo o que pensa. Retenho este magnífico pedaço de auto-análise: "Contrariamente àqueles que, em política, são capazes de ir com as marés, eu não sou uma figura neutral. Não me lembro de um momento em que não tenha estado a lutar por alguma coisa ou contra alguma coisa, ou, simplesmente, a lutar contra o tumulto que sobre mim desabava. Embora seja capaz de mudar de opinião, eu raramente deixo de ter uma opinião". 

Curiosamente, talvez mais do que na política interna, foi como comissário europeu que Mandelson se destacou e se afirmou, com uma excecional capacidade de gestão dos dossiês, embora com duvidosa eficácia no saldo diplomático das negociações em que se envolveu. "For the record", deixo aqui a apreciação que, no livro, faz ao "estado da arte" da União Europeia, ao tempo que por lá passou:

"O meu papel como comissário para o comércio deu-me um muito maior grau de autonomia do que o de muitos dos meus colegas da Comissão, mas, desde os dias gloriosos de Jean Monnet e Jacques Delors, a Comissão, como um todo, foi progressivamente perdendo poder, quer para o Conselho de Ministros, que representa os Estados membros, quer para o Parlamento Europeu, e isso foi acentuado com a aprovação do Tratado de Lisboa. Tudo isto conduziu a um enfraquecimento da União Europeia em geral, porque era tarefa da Comissão observar e proteger a dimensão europeia em cada área das políticas (comunitárias), e fazia isso de uma forma mais consistente e dedicada do que o Parlamento ou os Estados membros individualmente. Pelo contrário, o Conselho (de Ministros) tentou reclamar de volta mais poder para si próprio e o Parlamento estava já longe de ser uma mera instância declaratória: tinha adquirido reais "dentes" legislativos".

Ver isto dito por um britânico é a prova de que, também estes, às vezes, "go native".

4 - 4 = 0

Sou do tempo em que "dávamos" 16-1 aos cipriotas. Sou do tempo de José Torres, que ontem partiu. Mas também sou do tempo desta seleção. Que raio de tempo este! 

Ainda o Iraque

Vale a pena notar o que hoje escreve, num artigo publicado na imprensa internacional, o antigo MNE alemão, Joschka Fischer, a propósito do Iraque, após a saída das tropas norte-americanas:

"Nenhum dos problemas políticos urgentes originados pela intervenção americana - a repartição do poder entre shiitas e sunitas, entre curdos e árabes e entre Bagdad e o resto do país - foi verdadeiramente resolvido. O Iraque continua a ser um Estado sem uma verdadeira nação. Poderá, aliás, tornar-se num campo de batalha para os interesses opostos dos seus vizinhos. O combate entre o principal poder sunita, a Arábia Saudita, e os shiitas do Irão, pelo controlo do golfo Pérsico ameaça transformar de novo o Iraque num campo de batalha, cumulado por uma nova guerra civil. As vizinhas Síria e Turquia seriam provavelmente aspiradas para um tal conflito. Esperemos que o vazio deixado pela retirada americana não produza uma implosão de violência".

Não deixa de haver algo de tragicamente irónico nesta perspetiva, que é partilhada por muitos analistas. Quem, como Fischer, foi abertamente contra a intervenção americana, reconhece agora que, tendo-se ela produzido, tinha a obrigação de ter levado mais longe a sustentação da situação que acabou por criar.

quinta-feira, setembro 02, 2010

"Bonne adresse"

Nesses anos 80, fui visitá-lo muito longe de Portugal, numa passagem esporádica, no início da minha carreira, estando eu já a viver no estrangeiro. Não era um amigo íntimo, mas tínhamos construído um muito cordial entendimento pessoal. Tratávamo-nos por "você", talvez fruto da diferença de idades ou daquelas irrecuperáveis casualidades que fazem com que, no primeiro contacto, não tivéssemos desformalizado totalmente o relacionamento.

Era um colega simpático, disponível, embora um pouco "afetado" e - mesmo muito! - preocupado com aquilo que se costuma designar como os "sinais exteriores da carreira".

(Essa é a auto-caricatura em que alguns profissionais da "casa" se deixam cair: uma certa  forma de vestir, a rede de conhecimentos "certos", convites a quem mais convém, carro adequado ao estatuto, férias com grupos selecionados, opção por desportos de elites, um discurso sempre cuidadoso, para não criar arestas nem suscitar rejeições, etc.)

Só não casou "bem", porque é dos que não estão para aí virados. E, verdade seja, depois de todo esse esforço, mas também graças a erros próprios, a sorte profissional acabou por lhe não sorrir.

A certa altura desse nosso encontro, a conversa derivou, já nem sei bem porquê, para a zona onde tínhamos as nossas casas, em Lisboa. Disse-me que queria trocar urgentemente de casa, estava insatisfeito com o apartamento que então possuía, num certo bairro popular de Lisboa. Perguntou-me rntão onde eu morava. Disse-lhe que vivia em Santo António dos Cavaleiros, num andar barato, alugado desde os meus tempos de tropa. Olhou-me com uma espécie de horror social! "Mas isso é quase em Loures! Não é "bonne adresse"!

Recordo ter então dado uma imensa gargalhada, que espero não tenha levado a mal. O seu delicioso comentário ficou-me para sempre na memória.

Há meses, vi-o sair de carro de uma agradável moradia, numa zona socialmente prestigiada de Lisboa. Agora, já reformado, tem, finalmente, "bonne adresse". Deve estar contente. Ainda bem!

Pedras Salgadas

Acaba de me chegar uma nota positiva: parece ter-se estabelecido nas Pedras Salgadas, entre todos os interessados no processo de recuperação daquela estância termal, um entendimento no sentido de fazer uma frente comum contra a UNICER - entidade que, lamentavelmente, não tem cumprido aquilo a que se comprometeu perante a localidade e a sua população.

Evitadas as divisões partidárias e as clivagens entre personalidades, este parece ser o início de um tempo novo naquela que é uma luta muito justa, a que, por razões afetivas próprias, tenho vindo a dar saliência neste blogue - porque, como um dia aqui escrevi, os diplomatas também têm direito à indignação.

Sobre o passado desta questão, pode ler-se : aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A pólvora e a comodidade

Os taxis parisienses estão a ser reconvertidos na sua sinalética. Se a luz estiver verde estão livres, se estiver vermelha estão ocupados. E tudo se vê muito bem, à distância. É a "descoberta da pólvora"!

Porque não usar em Portugal um sistema idêntico, que nos evite estar a fazer sinais para taxis ocupados? Ou será um sistema demasiado fácil para ser aceite entre nós?

Já agora, note-se também que há já muitos parques de estacionamento em Paris onde uma pequena luz no teto, sobre cada lugar, verde ou vermelha, nos assinala, bem à distância, se o lugar está livre ou ocupado.

quarta-feira, setembro 01, 2010

Miliband

A atual disputa em torno da liderança do Partido Trabalhista britânico, depois do abandono de Gordon Brown, tem os ingredientes necessários para alimentar o imaginário popular. Um cenário de dois irmãos, Ed e David, numa campanha entre si, sempre no limiar frágil da agressividade, são um bom mote para discussão. Num magnífico artigo, no "Público", Teresa de Sousa contou, há dias, esta saga política contemporânea com excecional clareza.

O trabalhismo britânico é um dos ambientes partidários mais fascinantes da história europeia. Foi atravessado como nenhum outro pelos grandes debates teóricos que mobilizaram o século XX, o qual, já de si, recolhia uma experiência única que vinha do passado, forjada nas lutas da revolução industrial britânica. A ligação entre o sindicalismo e a política partidária teve uma expressão muito própria no Reino Unido, conduzindo o "labour" a grandes vitórias e, a contrario, levando-o mais tarde a grandes travessias do deserto. É, aliás, na descontinuidade da dependência automática entre as duas componentes que pode ser encontrada a chave do regresso dos trabalhistas ao poder. 

Os Miliband são uma boa ilustração desses tempos. Quando um dia, num qualquer jornal, me apareceu, pela primeira vez, o nome de David Miliband, que haveria de liderar a diplomacia britânica, a primeira pergunta que se me colocou foi saber se ele tinha alguma coisa a ver com o "velho" Ralph Miliband, desaparecido em meados dos anos 90. Tinha, era filho. Depois, apareceu o irmão mais novo, Ed Miliband, mais à esquerda que o irmão, mas, ainda assim, a milhas ideológicas do pai Ralph. Uma geração Miliband chegava, finalmente, ao poder.

Ralph Miliband foi, durante muitos anos, uma das grandes referências da esquerda britânica, senão mesmo a maior. Esteve na fundação da "New Left Review", privou com Harold Laski e Wright Mills e representou, por muitos anos, a crítica radical à prática política trabalhista. Atacou Harold Wilson pelo apoio a Washington no Vietnam e pode imaginar-se o que diria da atitude de Blair no Iraque, se acaso dela tivesse sido contemporâneo. No plano ideológico, Ralph Miliband vinha da mesma escola dos "fellow travellers" marxistas que, numa deriva limite, se colocaram ao serviço da URSS. Mas Miliband nunca enveredou por esses caminhos, limitando-se a teorizar criticamente um estado de coisas que nunca aceitou.  

Jornal do Brasil

Deixou ontem de se publicar a edição em papel do "Jornal do Brasil", passando apenas a formato digital.

Não pode deixar de se ter um sentimento de pena pela desaparição daquele que chegou a ser um dos grandes órgãos de informação da América Latina, como tal reconhecido em todo o mundo.

Nos anos 80, numa visita ao Rio de Janeiro, recordo-me de ter ficado impressionado pela qualidade daquele jornal, com um estilo gráfico que seguia então de perto o "The New York Times". Quando, em 2005, fui trabalhar para Brasília, o contraste entre o diário que conhecera e o que então se publicava era já flagrante.

Por virtude de algumas opções erradas de gestão,  o "JB" entrou, na última década, numa crise financeira de que nunca recuperou. O jornal ressentia-se visivelmente de alguma penúria de meios e o abandono do modelo "broadsheet", com a adoção de um formato tablóide, que tem pouca tradição local em jornais daquela índole, também não terá ajudado. Já sem a antiga capacidade de expansão nacional, o "JB" vivia muito do "gossip" político e social, para além de algumas boas colaborações e colunistas. Mesmo no Rio, deixara-se ultrapassar por "O Globo" e arrastou na sua crise aquele que também foi um grande diário económico, a "Gazeta Mercantil". Resta-me a consolação pessoal de ainda ter tido a possibilidade e a honra de publicar alguns artigos, quer no velho "JB", quer na "Gazeta".

Quem quiser experimentar a versão eletrónica do JB, pode, a partir de hoje, clicar aqui.

Iraque

O presidente Obama anunciou ontem o fim das operações militares americanas no Iraque. As forças armadas dos EUA permanecerão, a partir de agora, naquele país, apenas para ações de formação, até ao termo de 2011.

Em 2003, o governo americano decidiu invadir o Iraque e derrubar o regime dirigido por Saddam Hussein. A sombra dos ataques terroristas cometidos contra a América, menos de dois anos antes, estava bem clara por detrás dessa decisão. Contudo, o argumento então utilizado foi a existência no país de armas de destruição maciça, que ameaçariam a segurança internacional. Washington considerou, embora sem grande convicção, ter cobertura legal para promover essa invasão, à luz de uma anterior resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Esta tese não foi, como é sabido, maioritariamente aceite pela comunidade internacional, que se dividiu entre a rejeição e o apoio à iniciativa americana, fratura que acabou por se refletir dentro da própria União Europeia. As autoridades portuguesas de então optaram por transformar Portugal num sujeito ativo nessa polarização, adotando, na circunstância, uma atitude que afetou o tradicional consenso político interno em matéria de ação externa.

Veio a verificar-se, entretanto, que não havia no Iraque quaisquer armas de destruição maciça, que tudo não havia passado de uma invenção para criar fundamentos para a invasão. Muitos de quantos haviam apoiado a intervenção à luz daquele argumento acabaram, sem surpresas, por reconverter o pretexto, sublinhando depois a importância de eliminar um regime ditatorial e instaurar um sistema político democrático. Tomando o mundo por ingénuo, evitam lembrar que romperam, dessa forma, as regras mínimas do direito internacional e que, por alguma razão, não mostram idêntico zelo face a outras ditaduras cuja sustentação estrategicamente lhes convem. Alguns, entre nós, fazem patéticos atos tardios de contrição, alijando as graves responsabilidades que tiveram na aventura em que envolveram o nome de Portugal, atitude que só não foi mais trágica porque lhes não foi permitido o envolvimento dos nossos militares.

O que se passou depois pode ajudar, cada um de nós, a fazer a avaliação do saldo político e humano desta intervenção: mais de 100 mil mortos entre a população iraquiana, um regime político frágil instalado em Badgad e, muito particularmente, uma indireta contribuição para o imenso reforço do regime iraniano, visto agora, por grande parte da comunidade internacional, como uma real ameaça à segurança coletiva.  Mas, mais do que isso, a invasão acabou por favorecer a consolidação da máquina de terror montada pelo extremismo islâmico, que passou a poder apresentar a agressão externa ao Iraque como tendo sido feita sob uma falsa base.

Nos últimos anos, a questão iraquiana esteve no centro de um debate que os Estados Unidos tiveram consigo mesmos, sobre o seu papel no mundo e sobre o modo como este os passou a olhar. A eleição de Barack Obama foi também, de certo modo, um reconhecimento do erro da estratégia seguida a partir da aventura no Iraque.

A história não volta atrás, mas é hoje muito claro que não são apenas os Estados Unidos quem está a expiar os seus erros passados. A instabilidade acrescida induzida naquela zona do mundo - e que tem, repita-se, a invasão americana do Iraque no seu eixo - é um dado com que todos temos agora de contar, no desenho da nossa segurança coletiva.    

Novos "sítio" e blogue da Embaixada

A partir de hoje, o "Sítio" da Embaixada de Portugal passa a ter uma cara nova e um conteúdo algo diferente. Por ora, está apenas disponível em língua portuguesa mas, até ao final de Setembro, tê-lo-emos preparado em francês. Algumas outras novidades irão surgir, com o tempo.

O Blogue de atualização do "sítio", dedicado a dar conta de atividades da Embaixada e a fornecer algumas informações úteis, pode ser consultado a partir do "sítio" ou diretamente a partir daqui.

Como não temos a pretensão da infalibilidade, agradecemos que nos comuniquem eventuais erros, imprecisões ou sugestões de melhoria, através do seguinte endereço eletrónico: embaixada.portugal.paris@gmail.com.

terça-feira, agosto 31, 2010

Fignon

"Não tenho medo da morte, não tenho é vontade de morrer", dizia, há meses, Laurent Fignon, o penúltimo francês a ganhar o Tour de France, proeza que conseguiu duas vezes.

Hoje, o cancro matou-o, aos 50 anos. Para Fignon, o intelectual do ciclismo francês, a última corrida terminou cedo.

Diana

Passaram já onze anos, dia por dia, desde a morte, aqui em Paris, de Diana de Gales. Tinha esquecido a data, mas um amigo, há umas horas, lembrou-me isso, ao chamar a minha atenção para a profusão de flores que hoje estão colocadas junto à chama dourada (que nada tem a ver com a morte da princesa, diga-se) que se situa por cima do túnel de Alma, onde ela teve o seu mortal acidente.

Nos mais de quatro anos que vivi em Londres fui espetador distante da crise matrimonial que então já atravessava a realeza britânica. Diana era uma figura mítica, adorada pelos fotógrafos e explorada até ao limite pela imprensa. A força da monarquia britânica mede-se também pela capacidade com que conseguiu lidar, sem ser destruída, pelo fenómeno Diana.

Uma noite, em Buckingham Palace, na cerimónia anual em que a corte recebe o corpo diplomático, Diana parou junto da delegação portuguesa, na breve conversa circunstancial que toda a família real tem com a representação de cada embaixada. Notando que o cônsul-geral, Duarte Ramalho Ortigão, e eu próprio tínhamos, ao pescoço, o símbolo da Cruz de Cristo (a única condecoração portuguesa que, embora nos graus inferiores que, à época, eram os nossos, assim pode ser usada), Diana, sopesando, atrevida, a insígnia do Duarte, inquiriu junto do embaixador António Vaz Pereira, que chefiava o nosso grupo: "Ambassador, you don't have it?". Vaz Pereira, que tinha ao peito outras condecorações bem importantes, respondeu, diplomático, com um largo e deliciado sorriso: "I'm working for it, Your Highness!" Diana deu uma bela gargalhada.

Em 1993, Diana esteve, com o príncipe Carlos, na nossa Embaixada em Londres, no jantar que o presidente Mário Soares ofereceu à rainha Isabel II. Posso assegurar que era muito mais bonita ao vivo do que em fotografia.   

Felipe Oliveira Baptista

O estilista português Felipe Oliveira Baptista acaba de ser nomeado diretor artístico da Lacoste. Segundo a imprensa francesa de hoje, quinze estilistas internacionais estavam, à partida, na corrida para o lugar, para o qual a firma havia feito uma "short list" de seis nomes da qual saiu o nome de Oliveira Baptista.

Felipe Oliveira Baptista nasceu em Portugal, em 1975, tendo-se formado em Londres. Trabalhou em marcas prestigio como Cerruti, Max Mara ou Nike. O estilista estava, desde há algum tempo, a mostrar-se como uma das figuras mais marcantes da nova geração da moda parisiense, com sucessos reconhecidos pelo público e pela imprensa especializada.

Um grande e luso abraço para ele.

segunda-feira, agosto 30, 2010

A aposta

No palácio das Necessidades, sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros, há um andar considerado mais "nobre", conhecido como o "terceiro andar" (na realidade é o 1º andar, para quem entra pelo largo do Rilvas). Nele têm os seus gabinetes o ministro e um secretário de Estado.

O acesso ao "terceiro andar" pode fazer-se por uma escadaria com corrimão de mármore e um confortável tapete (na imagem, à direita) ou, em alternativa e um pouco mais adiante, por uma escada mais modesta, que circunda um elevador.

Um certo ministro que, há muito, passou lá pelo MNE, decidiu, um dia, limitar o uso regular da tal escadaria a si próprio e ao secretário de Estado, para além dos respetivos visitantes oficiais. Ao que consta, não lhe agradava cruzar-se na escadaria com diplomatas ou pessoal técnico e administrativo, o qual, no seu entender, deveria utilizar as alternativas de acesso existentes.

Talvez por ter percebido que a passagem a escrito de uma tal determinação poderia tornar-se polémica, a decisão do ministro foi espalhada apenas de forma verbal, mas com indicação de ser para cumprir.

Um dia, o ministro cruzou-se na escadaria com dois diplomatas, que aparentemente haviam ignorado a sua determinação. Com ar grave, perguntou-lhes:

- Os senhores não ouviram dizer que eu dei ordens para não utilizarem esta escadaria?

Um dos diplomatas exclamou, em tom baixo, mais para o colega que o acompanhava:

- Pronto! Ganhaste a aposta!

- Que aposta? - inquiriu o ministro, com ar um tanto agastado.

O diplomata esclareceu:

- De facto, senhor ministro, essa ideia da proibição anda por aí. Mas eu apostei com este meu colega que devia ser um boato de algum inimigo seu, que tinha posto isso a correr para lhe prejudicar a imagem. É que eu não conseguia acreditar que o senhor ministro tivesse proibido a utilização desta escada. Mas, afinal, era verdade! Assim, perdi a aposta.

E, voltando-se para o colega, disse:

- Hoje pago eu o almoço.

Não consta dos anais da casa a reação do ministro.

Para a história, diga-se que a proibição se desvaneceu com o tempo, não necessariamente por virtude deste incidente, mas porque se terá provado impraticável. Como é óbvio, quem quiser pode hoje utilizar a tal escadaria.

"Visiteurs du soir"

À luz de um velho conceito criado pela literatura e pelo cinema, a política francesa consagrou, de há muito, a figura dos "visiteurs du soir", uma espécie de conselheiros informais que as grandes personalidades políticas costumam ouvir ao final de algumas tardes, com maior ou menor regularidade. São, quase sempre, amigos pessoais, saídos da sociedade real, que, pela porta das traseiras, lhes trazem notícias do mundo exterior, que lhes refletem o modo como os políticos são vistos nos meios onde se movem, que dão opiniões sobre a atuação dos seus colaboradores. A sua principal característica será dizerem livremente o que pensam, sem estarem sujeitos a cadeias hierárquicas ou temerem profissionalmente os humores do seu auditor.

Os "visiteurs du soir" são - diz-se! - a "bête-noire" de quantos se acham com direito institucional a ter um acesso privilegiado às personalidades políticas e, em especial, a dispor de uma influência sobre as suas decisões. Assessores e adjuntos, ao que parece, temem essas figuras incontroláveis, cuja opinião pode destruir relatórios, pareceres e outros juízos formais, convenientemente elaborados no sereno remanso da burocracia. Estes nunca saberão, aliás, se a mudança de atitude do chefe perante uma determinada proposta é devida a uma leitura própria ou é derivada da prevenção de um desses visitantes.

A existência dos "visiteurs du soir" é a prova evidente da importância, para as figuras políticas, de não se manterem fechadas numa redoma oficiosa, muitas vezes feita de "yes-men" ou "yes-women", que, com o tempo, acaba por reproduzir o mundo ideal que eles próprios gerado, o qual, muitas vezes, pode estar já distante do mundo real exterior. Saber escolher e saber ouvir os seus "visiteurs du soir", em especial aqueles que não têm interesses próprios por detrás dos seus conselhos, é um atestado de sabedoria dos homens políticos.

domingo, agosto 29, 2010

Interinidade

Em alguns países da América Latina, a assunção de funções de governo por um substituto, na ausência do titular efetivo do posto, tem uma consagração formal muito expressiva. Se um ministro sai para o exterior, por uma qualquer razão, a pessoa que fica responsável pelo seu cargo passa, de imediato, a ser designada por "ministro interino" e, como tal, a ser qualificada obrigatoriamente em cerimónias e na imprensa. Diga-se que, de certo modo, isso lhe confere um suplemento de autoridade e dá aos seus atos um significado diferente, como que colmatando o que poderia ser um vazio político. 

No Brasil, o caso mais flagrante prende-se com as ocasionais ausências simultâneas do presidente e do vice-presidente da República. Neste caso, assume o cargo o presidente da Câmara dos Deputados. Se este estiver ausente, essa titularidade passa, sucessivamente, ao presidente do Senado e ao presidente do Supremo Tribunal Federal. Em alguns casos, estes titulares interinos fazem questão de assumir a plenitude dos direitos do cargo e mudam-se - nem que seja por escassos dias! - para o gabinete presidencial e recebem em audiência nesse cenário, com abundância de fotografias oficiais. Para a história divertida ficou mesmo o caso de quem, no precário exercício dessa fortuita e ocasional função, foi bem longe no usufruto das benesses logísticas a que a mesma dava lugar...

A prática europeia, pelo menos nos casos que conheço, parece ser bastante menos formal. Em Portugal, a um secretário de Estado que fica a chefiar um ministério na ausência do ministro não lhe passaria nunca pela cabeça intitular-se "ministro interino", do mesmo modo que - como uma exceção histórica que só confirma a regra - um presidente da Assembleia da República jamais seria tentado a mudar-se para Belém, durante a ausência do país do presidente da República. Cada terra com seu uso...

Vem isto a propósito de uma conversa que, há menos de uma década, um grupo de embaixadores na ONU (em rigor, deve dizer-se de "representantes permanentes", designação para os chefes de missões diplomáticas junto de organizações internacionais) estava a ter em casa do meu querido amigo e colega espanhol Inocencio ("Chencho") Arias, à volta de um almoço. Por qualquer razão, veio então à baila esta prática latino-americana. Alguns comentaram a profusão de "presidentes interinos" a que a mesma pode conduzir. Nem todos, porém, comungaram dessa visão ligeira.

Um dos colegas latino-americanos, aliás dos mais qualificados entre todos os colegas que cruzei em Nova Iorque, pediu a nossa indulgência e, um tanto embaraçado, revelou: "Também eu, um dia, assumi por três dias as funções de presidente da República. Era o ministro mais antigo e coube-me ocupar o cargo. E, devo confessar-vos, não resisti: coloquei a faixa presidencial e, com a família, tirei fotografia oficial, com constituição na mão e bandeira por detrás. Com os diabos: aquilo só acontece uma vez na vida!".

O quadro do colombiano Botero, com o título de "El Presidente", é talvez cruel de mais, mas não resisti a utilizá-lo a ilustrar este post. 

Decisão

Dizia-se que ela nunca decidia nada. Era injusto, não era verdade. Havia uma coisa em que era vertiginosa: na decisão de adiar.

sábado, agosto 28, 2010

Salazar

Filipe Ribeiro de Menezes, um investigador português residente na Irlanda, publicou uma biografia política de Salazar nos Estados Unidos, como aqui já se referiu, há meses. Essa obra está prestes a ser editada em português, pela Dom Quixote.

De uma entrevista que concedeu à última "Visão", acho interessante citar:

"Não encontrei nada que me fizesse acreditar que Salazar alguma vez pensou, a sério, e desejou, sinceramente, retirar-se da cena política e, sobretudo, da presidência do Conselho de Ministros."

"Salazar era mais dono do seu tempo do que qualquer seu sucessor o conseguiu ser. Não tinha de comparecer perante o parlamento, raramente reunia o Conselho de Ministros, não se tinha de preocupar em manter a liderança partidária, não tinha de ir a Bruxelas semana sim, semana não... Tinha a vida que queria e trabalhou como quis."

"Salazar desejava o poder, e convenceu-se que governaria melhor que qualquer outro português. Estou convencido de que ele acreditava ser (ou que a certa altura acreditou ser) uma figura providencial."

"Se o Estado Novo mal sobreviveu a Salazar não foi devido ao enorme vazio que este deixou e que Marcelo Caetano não conseguiu colmatar - foi porque, graças à guerra colonial, Salazar deixou o regime numa situação impossível de resolver."

"O homem que se orgulhava de ter 'nascido pobre' é insensível à pobreza extrema que se encontra no país, ou à emigração que a política económica dos seus governos provoca."

"O facto de Salazar nunca ter denunciado o Holocausto, mesmo depois de finda a guerra, conta contra ele."

"O 'orgulhosamente sós' foi muito mais perigoso para a soberania nacional, e o papel de Portugal no mundo, do que qualquer outra política desde então seguida."

Feiras & vaidades

Há dois anos, quando publiquei “Antes que me Esqueça”, sugeriram-me que, na feira do livro seguinte, lá estivesse umas horas, num dia a defi...