quinta-feira, julho 30, 2026

Jean Quatremer


Quem tenha passado algum tempo pelos corredores de Bruxelas conhece Jean Quatremer. Durante décadas, foi o correspondente do "Libération" junto das instituições europeias. Num meio relativamente pequeno, onde os jornalistas especializados nos assuntos comunitários acabam por formar uma espécie de tribo, Quatremer era uma figura incontornável. Tinha informação, conhecia os mecanismos, percebia os jogos de influência e escrevia com autoridade. Tinha um estilo muito próprio, muito vivo e um "boyish look" que era uma imagem de marca que nem o tempo apagou em definitivo.

Mas Quatremer nunca escondeu as suas convicções. Tinha uma agenda. Foi sempre um federalista assumido, embora sem o fervor quase religioso que, por vezes, se encontrava em setores europeístas. Publicou livros, criou o blogue "Les Coulisses de Bruxelles" e conquistou uma influência que ultrapassava largamente o universo dos leitores do seu jornal.

Entretanto, os tempos mudaram. Sentindo-se cada vez menos à vontade no "Libération", em particular por divergências relacionadas com a cobertura do conflito israelo-palestino, acabou por abandonar o jornal e vai integrar a redação do "Marianne". Um percurso que ilustra bem as transformações aceleradas que atravessam a comunicação social francesa. E que, de certa forma, acompanha também a própria evolução de Jean Quatremer.

No final de 1999, quando se caminhava para a presidência portuguesa da União Europeia, no primeiro semestre de 2000, Quatremer quis falar comigo. Já nos tínhamos cruzado no passado, mas sem tempo para conversar. Encontrámo-nos num bar de hotel. Meses mais tarde, voltámos a sentar-nos à mesa para almoçar. Curiosamente, a primeira conversa correu muito melhor do que a segunda.

Do primeiro encontro saiu uma pequena entrevista para o jornal. Pode ser lida aqui. A partir de então, porém, as coisas evoluíram de forma menos linear. Durante a presidência portuguesa, Quatremer foi-se tornando progressivamente mais crítico. Suspeito que não terá sido indiferente a essa evolução a influência de alguém do jornalismo português em Bruxelas, que então se empenhava em difundir a ideia de uma alegada divergência entre António Guterres e o secretário de Estado dos Assuntos Europeus que eu era. Como se isso fosse possível, num governo onde a hierarquia era clara.

As coisas eram bem mais simples. Com total cobertura de Guterres e do MNE Jaime Gama, eu procurava denunciar, através do modo como dirigia o grupo negocial da Conferência Intergovernamental que revia alguns pontos do Tratado de Amesterdão, o que entendíamos ser uma descarada tentativa francesa de relativizar o trabalho da presidência portuguesa, a fim de poder reservar para a presidência seguinte — a sua — o protagonismo da conclusão das negociações daquilo que viria a ser o Tratado de Nice. Os franceses desejavam chegar ao fim da nossa presidência com as mãos livres para virem posteriormente a moldar o resultado da negociação segundo as suas prioridades. Que não eram necessariamente as nossas. 

Foi nessa altura que comecei a ouvir, a meu respeito, a crítica da "falta de ambição" europeia. Em Bruxelas, esta expressão tinha um significado muito particular. Não se referia à ausência de objetivos, mas à insuficiente adesão aos "amanhãs que cantam" do federalismo. Quem não acompanhasse esse impulso era visto como excessivamente cauteloso, quando não como um obstáculo ao progresso europeu, no limite acusado de soberanista. Eu costumava usar então uma frase que irritava solenemente os euro-agitados: sou tão europeísta quanto os interesses portugueses o justificarem. Era uma frase discutível, mas a provocação fez sempre parte do meu "fond de commerce".

O almoço que tive com Quatremer — e que, dessa vez, foi da minha iniciativa — serviu precisamente para explicar essas diferenças. Não pretendia convertê-lo às minhas ideias. Também não procurava convencê-lo de que Portugal tinha descoberto uma nova teoria da integração europeia. O meu objetivo era mais modesto: era mostrar-lhe que a posição portuguesa não resultava de qualquer défice de visão estratégica, mas da consciência de que a União não podia ser construída ignorando os interesses dos Estados de menor dimensão e que se sentiam prejudicados na balança de poderes que se refletia no processo decisório em Bruxelas.

Entretanto, eu já tinha dito publicamente, numa declaração ao "Público", que a presidência portuguesa não se colocava ao serviço de uma agenda federalista. Essa declaração provocara alguma irritação nos meios mais entusiasticamente europeístas da época, tanto na nossa imprensa como em certos círculos intelectuais que orbitavam à sua volta. Havia então quem confundisse prudência com falta de convicção e quem visse qualquer resistência às soluções maximalistas como uma espécie de pecado político.

A conversa com Quatremer foi intelectualmente estimulante. Nenhum de nós saiu dela convertido às ideias do outro. O que eu pretendia, era fazê-lo compreender que a (sua) França não conseguiria fazer passar o novo tratado com o esmagamento institucional dos países de menor dimensão. Como não veio a conseguir em Nice.

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