sábado, setembro 26, 2026

António Guterres (1)

Não tenho comigo a data exata da reunião. Pela minha memória, terá sido logo no início de 2016. Augusto Santos Silva, então ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, reuniu na Sala dos Embaixadores, no MNE, um pequeno grupo informal de “conselheiros”.

Indicou que o governo estava a analisar a possibilidade de impulsionar uma candidatura portuguesa a Secretário-Geral da ONU, na pessoa de António Guterres, o qual, sondado para tal, teria manifestado a sua disponibilidade. O executivo português queria auscultar esse grupo de pessoas — todos com experiência política e diplomática no tema Nações Unidas — antes de tomar uma decisão.

O “brainstorming” terá durado umas boas duas horas. A adequação do nome de António Guterres à função era, para todos, mais do que óbvia. A questão era avaliar se havia condições da candidatura poder ter sucesso. Guterres havia informado estar disposto a correr o risco, se essa fosse a vontade do governo. Havia, contudo, condicionantes de natureza regional, para além da conhecida vontade internacional de ver pela primeira vez uma mulher no cargo. E havia diversos outros fatores limitativos a ponderar. Com tudo inventariado e debatido, o saldo do exercício foi inequívoco: valia a pena correr o risco.

Tempos depois, também em data que não sei precisar, passou-se a uma segunda fase. Com a candidatura lançada, realizou-se um ciclo de reuniões com António Guterres, envolvendo algumas das pessoas da fase anterior e outros participantes com diferente “background”, tentando prefigurar o que seria o exigente processo de seleção que iria ter início. Quem tinha experiência mais recente em Nova Iorque trouxe contributos muito úteis sobre o modo como essa experiência poderia ser relevante para Guterres. Ficou então patente a qualidade da “massa crítica” de que Portugal dispunha no campo multilateral — e das Nações Unidas em particular. Foram horas muito interessantes, com António Guterres a tomar as notas.

Nessas reuniões percebeu-se logo uma realidade que iria fazer toda a diferença. Essa diferença chamava-se … António Guterres! A sua extraordinária capacidade pessoal, inteligência e domínio dos grandes dossiês internacionais logo se evidenciaram. Qualquer contribuição ou conselho externo tinha um valor ínfimo, comparativamente com o seu valor pessoal.

Percebeu-se então que, numa competição séria e leal, dificilmente Guterres perderia a eleição. E assim aconteceu. Guterres foi escolhido para secretário-geral da ONU, numa verdadeira aclamação. Nessa noite, Augusto Santos Silva telefonou-me a partilhar o júbilo dessa vitória. Tinha sido uma excelente aposta! 

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