segunda-feira, junho 29, 2026

Taludes


Tenho uma amiga que é obcecada por taludes. Nas estradas, passa o tempo a olhar para as zonas laterais e a comentar, com o rigor solene de quem foi iniciada nos altos mistérios da engenharia civil, o modo — cuidado ou desleixado, nunca há meio-termo — como os taludes estão construídos e conservados. É uma vocação. Algumas pessoas encontram deus; ela encontrou os taludes.

Em viagens ao estrangeiro — e sou disso testemunha presencial, com as cicatrizes emocionais que isso me deixou —, recorda com prazer mal disfarçado os defeitos dos taludes nacionais e gaba qualquer declive que por lá veja, com o entusiasmo de quem avista uma catedral gótica. Eu próprio já tive de vir a terreiro, convocado por um primário orgulho pátrio que desconhecia possuir, defender a honra ferida dos nossos taludes, ao ouvi-la apreciar manhosas rampas suburbanas alheias como se fossem os jardins suspensos da Babilónia. 

É que ela no fundo pensa, com uma sinceridade que me deixa simultaneamente admirado e preocupado, que o grau de civilização de um país se mede pelo cuidado colocado no arranjo dos seus taludes. Não a educação, não a justiça, não a saúde pública — o que importa são os taludes. O Nobel de Saramago? Que é isso ao pé de um talude bem talhado, com a inclinação certa, a relva, o cimento ou o cascalho a preceito? 

Há não muitas semanas, numa daquelas estradas cinzentas através das quais os nórdicos adubam as suas frígidas angústias existenciais, era vê-la a gabar cada declive, a qualidade do revestimento da rampa e outras grandezas que eu, na minha ignorância crassa, tomaria por simples terra a descer para a berma da estrada. 

Sorte teve ela de a visita ser naquele período do ano em que, com generosa licença poética, esses lapões mais a sul julgam estar já num verão. É que, no seu longo e merecido inverno com neve, todos os taludes passam a ser iguais — brancos, mudos e indiferenciados. Essa é que é essa! 

Vivam os taludes portugueses, pim!

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