As Pousadas foram criadas em 1942, por iniciativa de António Ferro, que dirigia o Secretariado de Propaganda Nacional. Representaram uma tentativa de dar realce a regiões do país com maior escassez de serviços hoteleiros, sublinhando a diversidade da gastronomia nacional e assim incentivando para essas áreas o turismo estrangeiro e um turismo interno mais exigente. As primeiras unidades dispunham de muitos poucos quartos, havendo mesmo uma limitação temporal à sua ocupação, a fim de assegurar a rotatividade dos utentes.
Em 1945, tinham já sido estabelecidas oito pousadas. Vale a pena dizer que os Paradores espanhóis, instituídos nos anos 20, foram os inspiradores das nossas pousadas, mas a expansão destas foi mais rápida e sustentada que o do (excelente, aliás) modelo vizinho, que só viria verdadeiramente a desenvolver-se mais a partir dos anos 70.
Ferro deixou bem claro o que pretendia das Pousadas, ao afirmar, na inauguração da primeira daquelas unidades, em Elvas: "o luxo e a ostentação, muitas vezes sem conforto nem bom gosto, não constituem, obrigatoriamente, a matéria-prima do turismo", pelo que as pousadas deveriam ser "pequenos hotéis que não se parecessem com hotéis". Embora isto possa chocar os espíritos de hoje, nada melhor para qualificar o seu objetivo do que esta sua frase: "se o hóspede, ao entrar numa destas Pousadas, tiver a impressão de que não entrou num estabelecimento hoteleiro onde passará a ser conhecido pelo número do seu quarto, mas na sua própria casa de campo, onde o aguardam os criados da sua lavoura, teremos obtido o desejávamos". E também: "o conforto rústico, bom-gosto fácil no arranjo das coisas e também no paladar, simplicidade amável, eis as grandes linhas do programa das nossas Pousadas", que se pretendiam "pequenos conservatórios da cozinha portuguesa". Os tempos mudaram muito e as pousadas também.
No início dos anos 50, foi iniciada a conversão de alguns edifícios históricos em Pousadas, sendo a primeira a Pousada do Castelo, em Óbidos, em 1951.
Após o 25 de Abril, o Estado entregou a gestão da rede de Pousadas à empresa pública Enatur.
Em 2003, o grupo hoteleiro Pestana entrou no capital da Enatur, passando a deter 49% do capital.
Muitas Pousadas, em especial de pequena dimensão, foram encerradas a partir de então (outras já tinham fechado no passado) e foi reforçada a transformação de alguns espaços monumentais em Pousadas Históricas (castelos, conventos e mosteiros).
Tenho ouvido pessoas perguntarem: desde 1942, ano da criação da primeira unidade, a Pousada de Santa Luzia, em Elvas, quantas Pousadas foram criadas? E quantas efetivamente existem, nos dias de hoje? Em que ano foi criada cada uma das Pousadas? E qual foi o ano em que as que encerraram deixaram de funcionar?
Por estranho que pareça, não encontrei nenhum registo centralizado desta informação. Por isso, deitei mãos à obra e decidi coletar esses dados. Deu algum trabalho!
Aqui fica o básico:
- Desde 1942, foram criadas 70 Pousadas.
- Foram encerradas 32 Pousadas.
- Hoje existem 36 Pousadas. Duas unidades, que estiveram incluídas na lista das Pousadas de Portugal, mudaram de estatuto, mas mantêm-se como estruturas hoteleiras no Grupo.
- Daa 32 Pousadas que foram encerradas, oito foram-no antes da chegada do Grupo Pestana (1942-2003) e 24 sob gestão Pestana (2003-2026).
- Após a chegada do Grupo Pestana foram construídas 16 novas Pousadas.
Façamos agora, em detalhe, a listagem de tudo isto.
Utilizarei, depois das localidades, os nomes originais das Pousadas. Em muitos casos, tinham designações de santos. Por qualquer razão, que imagino possa ter-se ficado a dever a motivos de promoção turística, muitas Pousadas perderam esses nomes católicos.
Aqui fica a lista das 31 Pousadas encerradas, por ordem do ano de abertura:
- Elvas. Santa Luzia (1942-2012)*
- Marão. São Gonçalo (1942-2007)*
- Macinhata do Vouga. Santo António de Serem (1942-2002)
- Covão da Ametade, Santo António (1942-1967)
- Alfeizerão. São Martinho (1943-1967)
- São Brás de Alportel. São Brás (1944-2010)*
- Alijó. Barão de Forrester (1944-2013)*
- Santiago do Cacém. S. Tiago (1945-2001)
- Manteigas. São Lourenço (1948-2005)*
- Madeira, Pousada dos Vinháticos (1949-1967)
- Berlengas. Forte de São João Baptista (1953-1971)
- Tomar. São Pedro. Castelo do Bode (1954-2003)*
- Serpa. São Gens (1960-2003)*
- Miranda do Douro. Santa Catarina (1962-2002)
- Caramulo. São Jerónimo (1963-2005)*
- Setúbal. São Filipe (1965-2014)*
- Santa Clara a Velha (1969-2006)*
- Póvoa das Quartas. Santa Bárbara (1971-2003)*
- Torrão. Vale do Gaio (1977-2007)*
- Guimarães. Senhora da Oliveira (1980-2013)*
- Cerveira. Dom Dinis (1982-2008)*
- Sagres. Forte do Beliche (1982-1989)
- Batalha. Mestre Afonso Domingues (1985-2007)*
- Almeida. Nossa Senhora das Neves (1987-2005)*
- Santiago do Cacém. Quinta da Ortiga (1991-2008)*
- Sousel. São Miguel (1992-2010)*
- Condeixa. Santa Cristina (1993-2019)*
- Monsanto (1993-2011)*
- Mesão Frio. Solar da Rede (1998-2012)*
- Vila Pouca da Beira. Convento do Desagravo (2003-2017)*
- Proença a Nova. Amoras (2006-2011)*
- Braga. São Vicente (2007-2012)*
Com (*) assinalam-se as unidades encerradas sob gestão do grupo Pestana.
Atualmente (julho de 2025), como referido, existem 36 Pousadas. Aqui ficam, por ordem de abertura, assinalando-se com um # as criadas sob a gestão do Grupo Pestana:
- Óbidos. Castelo. (1951)
- Marvão. Santa Maria (1956)
- Bragança. São Bartolomeu (1959)
- Sagres. Infante (1960)
- Murtosa. Pousada da Ria, Santa Joana Princesa(1962)
- Valença. São Teotónio (1962)
- Évora. Loios (1963)
- Caniçada. São Bento (1968)
- Estremoz. Rainha Santa Isabel (1970)
- Viana do Castelo. Santa Luzia (1979)
- Palmela. Santiago (1979)
- Guimarães. Santa Marinha da Costa (1985)
- Alvito (1993)
- Beja. São Francisco (1994)
- Queluz. Dona Maria I (1995)
- Arraiolos. Nossa Senhora da Assunção (1995)
- Crato. Flor da Rosa (1995)
- Vila Viçosa. Dom João IV (1996)
- Amares. Santa Maria do Bouro (1997)
- Alcácer do Sal. Afonso II (1998)
- Belmonte. Convento de Belmonte (1999)
- Ourém. Conde de Ourem (2000)
- Horta . Forte de Santa Cruz (2004)#
- Lisboa. Praça do Comércio (2005)#
- Bahia, Brasil, Convento do Carmo (2005)#
- Tavira. Convento da Graça (2006)#
- Angra do Heroísmo. Forte de São Sebastião (2006) #
- Estoi. Palácio de Estoi (2009)#
- Porto. Palácio do Freixo (2009)#
- Viseu (2009)#
- Cascais. Cidadela (2012)#
- Covilhã. Serra da Estrela. (2014)#
- Obidos. Vila de Óbidos (2018)#
- Óbidos Lidador (2019)#
- Câmara de Lobos. Churchill Bay (2019)#
- Vila Real de Santo António (2020)#
- Porto - Rua das Flores (2021)#
- Lisboa. Alfama (2023)#
Para efeitos da listagem do Grupo Pestana, duas unidades que antes figuravam na lista das Pousadas de Portugal, deixaram de constar: a antiga Pousada Convento do Carmo, na Bahia (Brasil), e a antiga Pousada da Cidadela, em Cascais, agora com estatuto de hotel, para efeito de reservas.
Ficarei grato por quaisquer informações que permitam completar dados em falta, dúvidas ou a correção de eventuais erros detetados pelos leitores.
(A título de curiosidade, deixo uma nota pessoal. Comecei a frequentar as Pousadas em 1973. Dormi em 58 das 70 Pousadas que foram criadas. Das 12 em que nunca me alojei, seis já desapareceram (Vinháticos (Madeira), Alfeizerão, Berlengas, Beliche (Sagres), Setúbal e Alijó) e seis permanecem abertas (Lidador (Óbidos), Câmara de Lobos (Madeira), Rua das Flores (Porto), Horta (Faial, Açores), Angra do Heroísmo (Terceira, Açores) e Alfama (Lisboa) )

Horta, Forte de Santa Cruz, aparece repetida (9 e 24).
ResponderEliminarUma publicação do meu agrado.
ResponderEliminarBragança. São Bartolomeu foi a única Pousada onde pernoitei.
Agradeço a nota de Manuel Teixeira
ResponderEliminarFoi uma surpresa ver que a da Caniçada foi inaugurada em 1968. Pensava que tinha sido antes.
ResponderEliminarA casa foi projetada pelo Arq. Januário Godinho para um amigo do meu pai e mais tarde vendida.
Há vários tipos de pobreza. Uma que se descobriu mais recentemente é a pobreza energética, quando as pessoas não tem dinheiro para climatização das casas mal construídas onde vivem. Hoje descobri que sou pobre em Pousadas.
ResponderEliminarEu experimentei várias pousadas hoje desaparecidas. Assim de memória, Castelo de Bode, Almeida, São Gens, Vale do Gaio, São Filipe, Batalha, São Gonçalo. Como escrevia o embaixador eram estabelecimentos pequenos com apenas alguns quartos e por isso de rentabilidade marginal mas funcionavam como emblemas da arte de bem receber e davam emprego a muitas pessoas nestas vilas perdidas por esse Portugal.
ResponderEliminarA lógica mudou radicalmente com a chegada do grupo Pestana. Houve um foco muito claro na rentabilidade que ditou o encerramento massivo destas pequenas unidades e a aposta em empreendimentos de dimensão maior.
Das minhas experiências posteriores sob a gestão do Grupo Pestana não guardo uma impressão especialmente positiva. Uma delas no extremo de sudoeste de Portugal foi ao ponto de me impedir novas visitas por um bom par de anos. Apesar de algumas melhorias acho que se perdeu muito do conceito original. A área que em meu entender mais sofreu foi a restauração. Enquanto antes havia uma expectativa duma excelente refeição hoje fica sempre um sentimento de incerteza. As vezes as coisas correm bem, outras vezes é uma desilusão. E já me aconteceu chegar a uma pousada e dizerem-me simplesmente ”hoje temos um evento não servimos outros clientes”
recordações pouco entusiasmantes. Uma em particular foi mesmo penosa.
Por lapso de edição as 2 ultimas linhas que deveriam ter sido eliminadas ficaram penduradas - as minhas desculpas
EliminarA Pousada de Alfeizerão-São Martinho funcionou nas mesmas instalações da atual Pousada de Juventude ou era noutro local?
ResponderEliminarÉ exatamente o mesmo edifício.
EliminarObrigado, Sr. Embaixador.
ResponderEliminarTem uma vista fantástica!
Afigura-se-me que foi um erro a privatização das Pousadas de Portugal. A decisão de Durão Barroso, então PM, baseou-se nos prejuízos então sentidos, mas a solução Pestana, que veio a ficar com 85% do capital das Pousadas, não foi a ideal. Perdeu-se em características, na gastronomia local, na identidade do que era uma Pousada. E o tipo de gestão adoptado daí para cá é igualmente uma das razões para essa perda de característica das Pousadas de Portugal.
ResponderEliminarJá em Espanha, os Paradores são geridos e bem por uma empresa estatal, “Paradores de Turismo de Espanha, S.A”, e nenhum governo, quer de Direita ou do PSOE, se decidiu pela sua privatização.
Barroso justificou a venda à gestão privada tendo em conta prejuízos de cerca de 1 milhão de Euros. Talvez, se houvesse vontade, se encontrassem outras soluções com vista a evitar a tal privatização. Curiosamente, quando se trata de prejuízos de milhares de milhões de Euros por parte da banca privada, já não custa acudir e solicitar que os contribuintes façam sacrifícios para a salvar.
Lamento o desaparecimento de muitas delas. Por mim, perdi, de algum modo, a vontade de as visitar. Já não têm o mesmo encanto. E sim perdeu-se também na qualidade e característica da gastronomia local.
a) P. Rufino