quinta-feira, 16 de maio de 2019

Costa Braz


Nos anos 70, a Líbia de Kaddafi estava longe de ter a imagem negativa que, anos mais tarde, viria a adquirir, em especial pelo envolvimento com ações terroristas. O coronel e os seus colegas, recém-emergidos de um golpe militar que havia deposto a monarquia do rei Idris, eram vistos como um nasserismo modernizante, que pretendia colocar a riqueza do petróleo nas mãos do povo, nesses tempos em que o terceiro-mundismo fazia escola. Se os americanos estavam desagradados com o fim da base militar de Wheelus, que tinham mantido perto de Tripoli, os poderes europeus faziam então crescentes gestos de abertura ao novo regime, rico e fonte de negócios. 

Nas suas deambulações para promover o novo regime democrático português, Mário Soares deslocara-se à Líbia, em 1974, onde se encontrara com Kaddafi. Talvez daí tivesse ficado alguma ligação ao PS português.

Um dia de 1977, o nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros foi alertado para o facto de que uma delegação líbia, chefiada por um ministro, que se deslocava a Lisboa para um congresso do PS, pretendia ser recebida oficialmente. Ao que nos chegou, traziam propostas de cooperação económica interessantes. Nessa altura, tinha a meu cargo o pelouro das relações económicas com os países árabes e fui encarregado de montar toda a operação. 

Parte dela consistia em organizar os contactos para o chefe da delegação. Esta era presidida pelo ”ministro dos Municípios” da Líbia. Por esse tempo, o nosso Ministério da Administração Interna mantinha uma estrutura importante ligada ao nascente poder local. Assim, foi considerado adequado pedir uma audiência para ele ao seu “homólogo” português, o ministro Costa Braz.

A conversa entre os dois, a que assisti, acabaria por ser surreal. O ministro líbio era afinal uma espécie de ministro das Obras Públicas e o poder local, na Líbia, não era mais do que uma ficção. Enquanto Costa Braz falava das virtualidades do novo municipalismo português, gabando-lhe as vantagens e sublinhando o esforço da democracia para diluir o centralismo, o líbio elaborava sobre a necessidade de pôr termo ao poder tradicional das tribos, através de um poder central forte. As obras públicas, ordenadas por Tripoli, funcionavam como fator de legitimação do novo regime. Foi uma verdadeira cacofonia, entre chá e “misunderstandings”.

Acabada a audiência, Costa Braz pediu-me que ficasse para trás e, divertido, perguntou-me o que é que ele estava a fazer “naquele filme”. Eu, embaraçado, expliquei toda a confusão. Ela, contudo, iria continuar: Costa Braz ainda viria ser convidado, mais tarde, para ir à Líbia... 

Verdade seja que, no seu todo, aquela operação luso-líbia iria funcionar às mil maravilhas: uma missão portuguesa (que integrei) deslocou-se à Líbia semanas depois, voltámos para concluir o acordado no ano seguinte e isso seria o início de uma importante presença empresarial de Portugal naquele país, que durou décadas, empregando muita mão-de-obra portuguesa. Isso continuaria até ao fim do regime de Kaddafi, bem como da própria Líbia, enquanto existiu como um estado funcional.

Há dias, por um mero acaso, acabei por ter um contacto indireto com o coronel Costa Braz, um homem de abril que tem sido menos lembrado. Uma figura distinta e impoluta dentre os militares da Revolução, que, não por acaso, viria a ser Provedor de Justiça e Alto-Comissário contra a Corrupção. A sua saúde não andará famosa nos dias de hoje, mas aproveito para daqui lhe enviar um abraço de admiração e respeito. E esta singela recordação.

5 comentários:

Portugalredecouvertes disse...

votos de melhoras na saúde desse senhor

Luís Lavoura disse...

uma importante presença empresarial de Portugal [na Líbia], que durou décadas, empregando muita mão-de-obra portuguesa

... e que poderia ter continuado, caso a França e a Inglaterra não tivessem decidido, contra os nossos interesses e contra os interesses dos próprios líbios, derrubar Kadhafi.

Joaquim de Freitas disse...

Graças a Sarkozy, Hillary Clinton e Cameron. E BHL, o filosofo incendiàrio.

A Líbia era o pais mais desenvolvido do norte de África, o mais próspero, com o IDH mais elevado do continente, saúde e educação gratuitas para todos, subsídios do governo para ajudar casais recém-casados, etc.

Fui lá duas vezes em turista, visitar os vestigios romanos, pela estrada, a partir da Tunísia e não corri perigo nenhum.

Sem Gaddafi, a Líbia está em guerra civil, a economia deixou de funcionar e, agora, a escravidão foi reactivada, já havendo mercados de escravos, onde migrantes são comercializados como mão-de-obra para a agricultura.

Este é mais um resultado trágico do imperialismo ocidental. Não importa se o imperialismo tenta justificar com apelos humanitários, recorrendo à farsa dos "direitos humanos". Dá no mesmo. O resultado é igual.

Montanhas de corpos já foram acumuladas por esses bondosos altruístas que almejam falar em nome da "humanidade", e que estão, portanto, eternamente empreendendo "cruzadas civilizadoras" contra povos dos quatro cantos do mundo. Sem esquecer as centenas de desgraçados que se afogaram no Mediterrâneo.
E os que vagueiam nas estradas da Europa.

Gaddafi teve uma ideia que o condenou à morte, (como Saddam Hussein e que pagou o mesmo preço.) a de ter reservado alguns milhares de milhões de dólares em ouro, para criar a Banca da África e comercializar o petróleo com a nova moeda.

Era previsto que o novo banco central líbio associar-se-ia ao Banco de Compensações Internacionais, Veremos se os novos proprietários da Líbia e de sua indústria do petróleo será privatizada e vendida a investidores globais e se continuará a haver água, educação e assistência médica universais e gratuitas na Líbia.

Anónimo disse...

UUm grande homem o mesmo não se pode dizer "destes".......ler a Revista Sábado....mais um conjunto tipo Operação Marquês.......

Lúcio Ferro disse...

Na minha opinião, senhor embaixador, a sua vida, presente, passada e futura é que dava um filme (ou vários). Por favor continue a a dar-nos conta dos episódios deliciosos que a compõem. Grande bem haja.