segunda-feira, 27 de maio de 2019

Balanço ao correr da tecla


O PS teve um bom resultado. Não se pode dizer, contudo, que tenha sido um resultado excelente, porque denota que o partido começa a ter um teto que, mesmo em conjunturas bem favoráveis, o deixa longe de uma maioria absoluta. Mas, para quem lidera o governo, ainda que não tenha sido o partido mais votado nas últimas eleições legislativas, a noite de ontem garantiu um forte banho de legitimidade.

O episódio dos professores foi decisivo nesta campanha. Mário Nogueira, bem como as trapalhadas feitas pelo PSD e pelo CDS, na Assembleia da República, neste dossiê, deram uma sensível ajuda ao PS. Sem ela, talvez o resultado obtido por António Costa (porque a campanha passou a ser quase só ele, depois do incidente) se aproximasse mesmo do “poucochinho” (para utilizar a sua frase contra António José Seguro, há cinco anos). Mas Costa demonstrou ser um formidável jogador político e, tal como no judo, sabe utilizar em seu favor o menor desequilíbrio do adversário.

O PSD teve uma estrondosa derrota. Rangel optou por uma estratégia caceteira, a qual, no entanto, talvez possa ter travado um pouco os efeitos da fraca adesão do eleitorado do partido à pessoa de Rui Rio. Se não houver fortes fogos de verão ou algo de inesperado na área do governo (nunca subestimemos a capacidade do PS para dar tiros nos pés), as legislativas vão ser outro calvário para Rio. Se repetir uma distância face ao PS de uma dimensão idêntica a esta (mais de 11 pontos), a sua liderança cairá e Montenegro está já a preparar-se, ao virar da esquina. Nesse caso, poderemos dizer adeus, por muito tempo, a um PSD social-democrata, aberto a compromissos de regime.

É uma péssima notícia para o PS a subida do BE nesta eleição. Os números do Bloco são responsáveis, em parte, pela “travagem” da subida eleitoral do PS. A ala esquerda socialista sabe isto bem e, agora mais do que nunca, vai ser tentada a mostrar as credenciais “de esquerda” do partido, o que a fará contrapor-se aos “possibilistas”, que não são grandes fãs da Geringonça e preferem manter intocável o cumprimento estrito dos compromissos financeiros bruxelenses. António Costa vai ter de fazer a “quadratura do círculo”. Mas se o BE pensa que, com esta subida, fez aumentar as suas possibilidades de entrar para o governo, bem pode “tirar o cavalo da chuva”. 

Ainda pior que a subida do BE é, para as contas do PS, a quebra do PCP. A Geringonça, é sabido, tem fortes críticos no seio dos comunistas e o resultado por estes agora obtido fragiliza a aposta feita por Jerónimo de Sousa no apoio ao governo PS. Costa parece confiar bastante mais em Jerónimo de Sousa do que em Catarina Martins, no que tem toda a razão. O PCP, ficando agora mais fraco, fica também mais acossado, mais permeável ao radicalismo e, por isso, mais tentado a deitar mão, como arma política, das movimentações sindicais, que são a sua força de reserva. Um ainda pior resultado dos comunistas em outubro seria, assim, uma nova péssima notícia para António Costa. E, de caminho, para a Geringonça.

O CDS de Assunção Cristas deve ter percebido - mas talvez o não tenha - que o seu estilo trauliteiro de oposição, afinal, não lhe rende grandes apoios, num tempo em que o CDS parecia poder vir a beneficiar da quebra do PSD (mercado em que, também sem o menor êxito, procuraram pescar o Aliança, o Basta e a Iniciativa Liberal). Nuno Melo, apoiado numa juventude do partido que não está muito longe da extrema-direita, fez uma campanha radical, populista, a tocar, irresponsavelmente, agendas já perigosas para a ordem democrática. A sua derrota nesta eleição pode, no entanto, prefigurar um futuro desafio a Cristas para a liderança, com as “tropas” da Juventude Popular a seu lado.

O PAN é um fenómeno interessante e um sucesso, à sua escala. Se abandonar as agendas bizarras do combate ao mundo “antropocêntrico” e a colagem a teses a-científicas e charlatãs, concentrando-se nas questões ambientais, pode ter um nicho político a explorar, tanto mais que o PEV já provou ser uma bengala tipo MDP-CDE, mas sem história, que existe apenas para ajudar à diversidade na CDU.

O Aliança de Santana Lopes, com um excelente e não merecido cabeça de lista, mostrou que a sua aposta falhou redondamente. Vai, com certeza, tentar ainda as legislativas, onde a imagem do líder pode ser residualmente apelativa para alguns PSDs desiludidos. Mas, sendo improvável que a Aliança venha a eleger qualquer deputado fora de três ou quatro grandes círculos eleitorais, os votos que obtiver no resto do país serão sempre retirados ao PSD, fazendo perder a este, para o PS, uma mão cheia de deputados. Não nos admiremos se Santana Lopes, dando-se ares de “rassembleur”, para esconder a fragilidade intrínseca da Aliança, vier a propor listas conjuntas, numa espécie de “frentismo” de direita, estendendo a mão à Iniciativa Liberal.

Tenho pena que Rui Tavares, uma das cabeças mais “frescas” na classe política portuguesa, não tenha sido eleito. A sua voz e a sua inteligência fazem falta em Bruxelas. Mas já se percebeu queo Livre, um partido unipessoal, não descola.

É uma excelente notícia o “espetanço” eleitoral da Iniciativa Liberal. A sua postura arrogante-agressiva e o seu anti-estatismo demagógico representaram do pior que esta campanha nos trouxe. Levados “ao colo” por alguma imprensa conservadora, deram-se ares de partido já com lugar na cena política. Espera-se que possam tirar conclusões rápidas do facto de 99,2% dos votantes os não terem escolhido, colocando-os ao lado MRPP e coisas políticas análogas.

André Ventura o o seu Basta/Chega não fizeram mossa. Mas convém continuar atento à sua demagogia e ao aproveitamento oportunista de futuras inseguranças urbanas.

Com calma, há que refletir sobre a imensa abstenção.

16 comentários:

Carlos Diniz disse...

Curioso, eu pensava que o pior desta campanha tinha sido o recurso à mentira de António Costa e Pedro Marques quando, respectivamente, acusou falsamente Paulo Rangel de ter pedido à Comissaõ Europeia para "pôr Portugal na ordem e quando PSD e CDS foram acusados de lançarem "bomba orçamental" de "800 milhões de euros de despesa".

Senhor embaixador, para si, isto não é uma maneira canalha de fazer política?

aamgvieira disse...

O Grande Elias e o seu Cirque de la Rose !

José Figueiredo disse...

No futuro, não muito distante, a decadência do PCP parece inevitável. Não sei quem vai herdar os activos da frente sindical. Ou sequer se o sindicalismo como braço da política vai durar muito mais. Com o crescimento dos verdes (PAN), começa a ficar apertado o espaço à esquerda do PS - três forças equivalentes é muito e uma recomposição parece inevitável. Não sei se era isso que Catarina Martins queria dizer.
José Figueiredo
Braga

Anónimo disse...

As eleições, sejam elas quais forem, têm servido, ano após ano, para garantir uma coisa. A população está farta de políticos profissionais que pouca confiança inspiram. Os mandatos deviam ser temporários e jamais renováveis ao longo da vida. Deveria ser entendido como um serviço que um cidadão faria ao Estado durante 4 anos e não mais que isso. Serviu também para verificar que a população não sabe nem o nome dos cabeças de lista às eleições, neste caso europeias, mas pode-se extrapolar para as outras. Os discursos são amorfos, com ideias muito pouco claras, ou mesmo sem ideias, daquilo que os candidatos querem para o bem estar do povo. Mais do que provável que as abstenções venham a aumentar.

Anónimo disse...

Lido a galope.

Despacho:

Digam como quiserem e o que quiserem ter-se-há de se negociar a partir de agora na Europa, com partidos novos e por isso não-enquadráveis tão cedo.
E em alguns países da União vai ter de se aturar alguns partidos muito não-desejados há longo tempo.
Vamos ver se esta Europa será mais democracia e menos democrática.

Difícil deferimento.

vitor disse...

Só uma pergunta? Qual foi o partido mais votado nas últimas legislativas?

Anónimo disse...

Sobretudo, deu-me imenso gozo ver o reaccionaríssimo e arrogante Iniciativa Liberal a esboroar-se, nem a 1% chegou.
Todavia, não me admira que, após Outubro, as Direitas comecem a pensar em unir-se todas num só Partido. Tal como estão não vão a lado nenhum. Nem com novas lideranças. Juntos, num só Partido, talvez sejam mais apelativos para os eleitores. Resta saber com que programa. Isto porque o Neoliberalismo puro e duro não parece convencer nem captar eleitores (sobretudo mais jovens - que preferirão a praia, ou o Ambiente).

vitor disse...

A pior notícia da noite foi mesmo a quebra da CDU. Mas ainda vamos ver se no fim do dia não elege os mesmos dois deputados que o Bloco. Infelizmente a percepção ocupa demasiado espaço na cabeça de muitos eleitores. Percepção, que como é sabido, nem sempre corresponde à realidade. Já dizia o Jerónimo, que o que uns juntam com o bico outras espalham com as patas. Já para não falar da rã que queria ser boi.

J.Barreto disse...

As oscilações de voto do BE e CDU nestas eleições não têm grande significado e podem ser reversíveis em outubro. O eleitorado que se dignou dizer de sua justiça deixou três indicações claras: nota negativa ao PSD e CDS, fragmentação da direita e reiterado chumbo do populismo. O PS não foi propriamente premiado pelos eleitores, mas saiu-se bem no contraste com o fiasco da direita.
Um abraço
Zé Barreto

Anónimo disse...

A queda da CDU afinal foi relativa - já que sempre acabaram por eleger 2 Deputados.
Quanto a Outubro, a ver vamos como serão os resultados, com uma menor abstenção, o que poderá fazer uma diferença significativa (não tanto para a CDU, que estagnou pelos 7,5%-8,5%), mas pelo que o PS, BE, PAN conseguirão, bem como a Aliança, Livre e até, quem sabe, o Basta/Chega, face aos resultados que obtiveram - perante uma abstenção de 68%.

Anónimo disse...

O PS subirá mais nas legislativas pois o pessoal vota sempre menos nas Europeias.
Se o PAN continuar a subir poderemos finalmente vermo-nos livres da geringonça embora seja difícil de contornar o carisma de Marisa. O PC definhará lentamente quando lentamente definharem, pela lei natural da vida, os seus militantes. Portas já está à porta e a fazer as malas da sua consultora-construtora do México. O passismo está bem acantonado no ISCSP e em companhia de Luís Amado. Et pour cause.

Luís Lavoura disse...

O Francisco deita, em minha opinião, foguetes antes do tempo a propósito do falhanço da Iniciativa Liberal. Esse partido espetou-se efetivamente a nível nacional, mas em Lisboa e Porto teve bons resultados e pode ser que, com um bocado de crescimento, venha a eleger um deputado pelo distrito de Lisboa nas legislativas. Bastar-lhe-ia duplicar a percentagem de votos que agora obteve nesse distrito, o que não me parece tarefa impossível para um partido ainda muito novo. Repare também o Francisco que, enquanto o Basta e a Aliança conseguiram o que conseguiram com uma boa ajuda dos media, a Iniciativa Liberal conseguiu tudo pelos seus próprios meios, o que mostra ser um partido bastante eficaz e potencialmente com ainda alguma margem de crescimento.
Portanto, Francisco, não deite foguetes agora, guarde-os para daqui a 4 meses.

Anónimo disse...

Por falar em calma: e a calma com que os independentistas limparam as eleições na Catalunha, hem? Eh pá, nem uma palavra. O Puidgemont venceu as europeias que foi uma beleza e está tudo calado... Os independentistas recuperaram Barcelona (!) e está tudo calado... As municipais foram ganhas pelos independentistas e está tudo calado...

JS disse...

Os resultados de uma eleição para serem lidos correctamente, têm que ser apresentados, em primeira análise, em número de votos em cada partido ou candidato, por círculo eleitoral. Por cá já foi assim.
Número de votos. Precentagens é uma análise secundária, posterior.

Exibir e tornar a exibir "precentagens" durante uma noite inteira, é a anedota com que a comunicação social, afecta, protege a imagem, em legítima representação, do poder político.
Representar, politicamente, vencendo com um milhão de votantes em 10 milhões é uma anedota.

Examinando e comparando as oscilações no número de votos, num partido (ou num andidato), percebe-se quem ganhou e quem perdeu, votos. Representatividade.

No Reino Unido, por exemplo, o Ecrutinador proclama números de votos, quer no Parlamento, quer nos círculos eleitorais.

Mesmo só com dois concorrentes as precentagens não têm significado em representatividade política.
Quem perdeu ou ganhou votos, perdeu ou ganhou REPRESENTATIVIDADE.
É o significado político de uma eleição. Representatividade política. Votos.

Será sugerir muito às TVs e aos Jornais que respeitem os eleitores e comecem a apresentar os números de votantes, por círculo eleitoral, à medida que estes vão sendo anunciados pelos escrutinadores ?.

Pedro Furtado Correia disse...

(...)nunca subestimemos a capacidade do PS para dar tiros nos pés (...)[!!!!!]

Anónimo disse...

FYEOnly Please

O Ventura adquiriu uma bela lista de nomes...