domingo, 25 de novembro de 2018

João Ladislau



O João Ladislau devia ser três ou quatro anos mais velho do que eu. Quando, ainda durante a minha escola primária, nessa Vila Real dos anos 50, coincidimos a viver no mesmo prédio, em andares contíguos, essa (então relevante) diferença de idades fez com que o nosso tratamento, estranhamente, se tivesse fixado num “você”, coisa que nunca mais se perderia.

O João que então conheci era um obsessivo fazedor de coisas, um incansável e imaginativo empreendedor de iniciativas, a um ritmo e com um empenhamento que surpreendia e causava admiraçã no miúdo que eu era. Na cave da nossa casa comum, na rua Alexandre Herculano, ele instalou um dia uma espécie de ringue de hóquei em campo, na realidade em cimento rugoso, que mais tarde viria a deslocar para o quintal, onde me recordo terem-se feito épicas partidas. Numa árvore que por lá havia, construiu uma elaborada casota de madeira, com um frágil “elevador” puxado a cordas, de cuja inauguração fui a infeliz cobaia. O ciclismo era outro dos seus “hobbies”. Vejo-o a passear, de costas muito direitas, boné de pala, com ar grave, numa bicicleta que, lá por casa, “afinava”, horas a fio. Da sua fértil imaginação saiu a organização, numa manhã de domingo, de uma histórica “volta ao circuito” em bicicleta, que reuniu uma dúzia de participantes, com várias metas “volantes” nesses apenas sete quilómetros. Ele próprio, aferida a ordem de chegada a cada meta, ia logo instalar adiante outra, enquanto os concorrentes descansavam. Uma coisa nunca vista!

A mais surpreendente iniciativa do João Ladislau foi, porém, uma célebre viagem pelas tubagens dos esgotos para águas pluviais, acabados de instalar, na nova avenida chamada então de “marginal”, hoje “Primeiro de maio”. De vela na mão, um grupo que ele dirigia e eu integrei, à revelia óbvia dos meus pais, percorreu largas dezenas de metros através dessa obra recém-inaugurada, entretendo-nos a lançar impropérios quando, junto das aberturas para a rua, ouviamos passar um transeunte, que ficava siderado com essas vozes vindas do além. Um dos mais conhecidos advogados da cidade de Vila Real deve lembrar-se bem dessa aventura...

Um dia, a minha família mudou de endereço. Deixei de encontrar com regularidade o João até que, uma noite, fui dar com ele, sempre com a sua consabida capacidade organizativa, como operativo “manager” de um grupo musical de amigos comuns.

E sei lá quantas outras coisas ele terá depois feito, numa vida a que, a partir de certa altura, perdi por completo o rasto.

O João Ladislau morreu hoje, dizem-me agora. Tinha-o cruzado, há meses, numa esquina da cidade, sempre no passo apressado que era o seu, com o sorriso largo e o abraço com que sempre selávamos essa nossa relação tão antiga e que, no entanto, persistia marcada pelo bizarro “você”. Envio um beijo de pesar à sua irmã, Mercedes, a minha primeira namorada de infância.

3 comentários:

Anónimo disse...


Excepto em cerimónias oficiais ou de Estado em que o protocolo é uma ciência , descrita em muitos manuais especialisados que os organizadores das cerimónias devem seguir sem falhas , Protocolo é boa educação , aprende-se no berço e a sua prática é um acto rotineiro que faz parte do dia a dia , que se pratica quase sem pensar , porque a ele se está habituado .
Cumprimentos

F.Barreira Braga disse...


Mais uma triste perda na galeria dos " notáveis" da Bila. Recordo dentro de todos os "misteres" inventados,o para mim mais extraordinário , o " paddock ". Lembram-se?Afixado na parede ao lado da Brasileira e do Nascimento.

F.Barreira Braga disse...

"João Ladislau".

As minhas desculpas Sr. Embaixador.
Reparei que falhou ao enviar o meu comentário a parte em que manifesto o gosto pelas suas crónicas e os meus cumprimentos ao Sr. Embaixador bem como a esposa.