sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Às armas?


Uma palavra pode fazer toda a diferença. Há dias, Emmanuel Macron disse o que não poderia ter dito: incluiu os Estados Unidos entre os adversários cuja existência poderia justificar a criação de um exército europeu. Trump reagiu e teve razão em fazê-lo: a França é um parceiro da NATO e, muito embora hoje seja tudo menos claro o que Washington quer fazer da organização que abertamente controla, nenhum cenário, por mais fantasista que seja, pode colocar a América do outro lado de uma qualquer trincheira oposta ao continente europeu. Quanto mais não seja por meridiano realismo, em termos de capacidades militares.

Macron tem no facto de ser um europeísta a sua maior qualidade. As propostas que fez, no sentido de um reforço institucional da governança da zona euro, foram muito ousadas e corajosas. Resta saber se, chegado a vias de facto, teria hipóteses de conseguir “vender” essas ideias a um país que já demonstrou, por mais de uma vez, que tem uma opinião pública e uma classe política bem mais recuada face à Europa do que as suas lideranças - recordo o fracasso da Comunidade Europeia de Defesa e o Tratado Constitucional Europeu, e também que foi por uma unha negra que Maastricht foi ali aceite.

A saída do Reino Unido vai deixar a França numa esplêndida solidão, no quadro integrado do continente, em matéria de capacidade militar, desde logo nuclear, bem como de afirmação política, no seio das Nações Unidas. Macron já percebeu que Paris tem aqui uma oportunidade soberana para se afirmar no centro de gravidade de uma Europa que, como é evidente para todos, pode ter de viver, por muitos e bons anos, bastante alheada do “amigo americano”, com o interesse em reconstruir uma parceria de novo tipo com o Reino Unido e que ainda não sabe o que vai fazer com Moscovo. A necessidade de uma dimensão europeia de defesa, quanto mais não seja “by default”, é algo que parece óbvio - embora me pergunte se falar em “exército europeu” não ajuda a espantar a caça.

Macron não está sozinho. Na terça-feira, Angela Merkel deu, no Parlamento Europeu, um claro sinal de querer ir a jogo. Em Berlim, vê-se Londres a afastar-se. Ecoando a ideia do “exército europeu”, Merkel terá querido dar, pelo menos, três sinais. E um silêncio.

Desde logo, pretendeu demonstrar que a narrativa alemã sobre segurança e defesa já não vive sob os velhos tabus. Isso vai-se sabendo, mas ela quis dizê-lo, uma vez mais. A Alemanha tem consciência de que, para servir de parceiro e contraponto à França, tem de pesar mais na Europa em termos militares. 

A chanceler também sabe que, para apaziguar as preocupações securitárias que adubam a fação mais conservadora do país, precisa de muscular a sua narrativa, quer em termos de defesa, por conta de inquietações internas face à deriva autoritária russa, quer nas questões de proteção da fronteira europeia comum e do sensível tema do asilo. 

Finalmente, Berlim quer deixar claro que partilhará a autoridade europeia com a França, o que é também um recado para os EUA, que começam a perceber que o “ticket” franco-alemão está para durar – e que a atitude de Trump pode a isso ter ajudado. 

Os discursos, porém, se são eloquentes no que dizem, também dão voz forte ao que silenciam: Merkel deixou em branco os apelos de Macron para a regulação da zona euro, nomeadamente o completar da União Bancária.

7 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Macron pensa ser o momento de tomar o comando da Europa, pois que Brexit existe, e que Angela Merkel está no caminho da partida, mais ano menos ano.

O problema é que Macron não sabe , nos 27 da EU, quantos estarão de acordo para abandonar o pára-sol americano da NATO. A Polónia e os países baltas preferirão sempre ter as divisões e as bases americanas à porta, que em Paris. São os menos “europeus” da EU, são a “Nova Europa,”.cara aos americanos.

A integração em 2004 e 2007 dos nove estados da antiga Europa de Leste na EU, marcou o fim duma história começada no fim da guerra de 1945. Se esta integração reuniu enfim a Europa, paradoxalmente também marcou o fim do projecto geopolítico europeu dos fundadores, duma Europa coerente e poderosa.

E mesmo se Ângela Merkel disse estar de acordo com o projecto dum Exército “dos Europeus”, creio que nunca haverá um Exército Europeu. Não é a mesma coisa. O sonho de Macron esbarra nesta evidência.

Por outro lado, creio que Macron tem razão noutros aspectos, no que diz respeito particularmente à ameaça dos Estados Unidos, que são um “inimigo” cibernético, que não hesita a espionar os seus aliados, como a Rússia, um adversário comercial que não hesita a utilizar a sua moeda para dominar os seus aliados, utilizando embargo e taxas alfandegárias.

Ou como garantir que a UE não seja nem um fracasso completo nem um sucesso. Sempre assim foi, desde Nixon : uma politica “ à la carte” , Para garantir que a Europa comunitária seja sempre forte o suficiente para apoiar os Estados Unidos, mas nunca forte o suficiente para competir com eles,.

Europa: que número de telefone? "," a UE, Dane-se! de Madame Nuland…Estas citações simbolizam somente a dualidade da percepção americana de Europa. Brutal, vulgar e desdenhosa.

Anónimo disse...

Joaquim de Freitas tem em grande parte razão. Mas conviria lembrar que a chamada Europa da Defesa é um velha estória que data dos finais dos anos 40. Dizia-se, na altura, que o exército alemão (embrionário) iria ser comandado pelo estado-maior gaulês, o que evidentemente nunca veio a aconcecer.
Conviria também recordar que, em 1966, De Gaulle decidiu retirar a França do comando integrado da Nato que foi transferido para a Bélgica. Isto porque o General não suportava muito o "protectorado militar" americano personificado por L.B. Johnson. A França voltou porém a integrar o dito comando integrado durante a presidência de Sarkozy, cujos sucessores (Hollande e Macron) nunca puseram em causa. Mas tanto o General como os que vieram depois sempre apreciaram o guarda-chuva nuclear estadunidense.
Atenciosamente

Anónimo disse...

"...Merkel deixou em branco os apelos de Macron para a regulação da zona euro, nomeadamente o completar da União Bancária....". Curioso.

A 1ª e a 2ª guerra mundial foram duas tentativas -via militar do espírito germânico- em dominar a França, a Inglaterra e, consequentemente, a Europa. Como sabemos graças aos vizinhos do lado de lá do Atlantico, o aprendizado do alemão foi descontinuado. “They were starting to learn German in Paris before the U.S. came along.”. Uma incómoda verdade.

Desta feita abandonaram pela via militar e optou-se pela via financeira. E com uma diferente Blitzkrieg, a moeda ÚNICA.

Visto que o Reino Unido, graças à estrelin(h)a resiste, via Brexit, só a França continua dominada, mas ainda não deu por isso. Mitterrand queria os votos dos eleitores agropecuários ...

Será que Macron, despeitado, ou o seu sucessor, ainda vão optar pelo salvífico (petro)dolar?.
A Itália está desagrada com esta versão do "Axis". Singra rapidamente para uma era pós-Mussoline. Aos Bancos?.
O titular do Min. dos Negócios Extrangeiros diz que a Velha Aliança vai continuar a funcionar....
Algo está para acontecer, com um estrondo ou com um suspiro.

Joaquim de Freitas disse...

Anónimo de 16 de Novembro de 2018 às 22:46
Escreveu:“A França voltou porém a integrar o dito comando integrado durante a presidência de Sarkozy,”” De Sarko, o Americano, não era de esperar outra coisa. De Hollande e Macron também não.

Escreve” : Mas tanto o General como os que vieram depois sempre apreciaram o guarda-chuva nuclear estado-unidense.” O General dotou a França da sua própria arma nuclear. Não precisava e não precisa da americana.

Joaquim de Freitas disse...

Anonimo 17 de novembro de 2018 às 18:49 , que escreve:

"Como sabemos graças aos vizinhos do lado de lá do Atlantico, o aprendizado do alemão foi descontinuado. “They were starting to learn German in Paris before the U.S. came along.”. Uma incómoda verdade".

Isto é a velha fábula que pretende que foram os americanos que ganharam a guerra contra Hitler.
E Trump não podia dizer outra coisa, porque “América First”….

Ambos foram importantes. Mas não tem como comparar a dimensão da guerra no front oriental, com o ocidental.

Todas as maiores batalhas da guerra ocorreram entre nazistas e soviéticos.
A Batalha de Berlim, a batalha de tanques de Kursk, Stalingrado, Moscou, todas entre as maiores da Segunda Guerra. Ao passo que o maior apuro dos americanos foi no máximo, a Batalha das Ardenas.

A guerra entre soviéticos e nazistas era entre dois pólos antagónicos, extrapolava e muito a “guerra romântica”, que era travada entre nazistas e aliados ocidentais. Fazia parte da ideologia nazista a ocupação do leste europeu por alemães puros (a busca pelo espaço vital). Para isso o extermínio ou escravização dos povos eslavos era uma possibilidade. Então os soviéticos lutavam pelo seu direito de existir. Assim como os alemães sabiam que o despertar soviético seria brutal.

O saldo soviético foi de mais de 20 milhões de mortos, entre civis e militares. A maior entre todas as nações. Entre os americanos foram pouco mais de 400 mil mortos, sendo 99% militares. Quem venceu a guerra???

Anónimo disse...

Joaquim de Freitas escreveu: "O General dotou a França da sua própria arma nuclear. Não precisava e não precisa da americana."

A bomba francesa de 1966 foi em grande parte o resultado da cooperação americana.

Anónimo disse...

Errata: Onde está "a bomba atómica francesa de 1966", devia estar "a bomba atómica francesa de 1960"