sábado, 24 de novembro de 2018

50 anos depois: maio em novembro


Os Campos Elísios, em Paris, estão hoje a ferro-e-fogo. O resto da França vive dias agitados, com centenas de milhares de manifestantes nas ruas. O que é que se passa? Que similitude tem isto com as manifestações de maio de 1968? Naquela altura eram os ”enragés”. Os novos “enraivecidos” são hoje estes “gilets jaunes”? Tal como há meio século, a pergunta coloca-se: o que é que, em concreto, querem os manifestantes?

Não parece haver uma resposta única. Aparentemente, a França é atravessada por um mal-estar generalizado, que não é de esquerda nem de direita. Várias das decisões governamentais, de natureza legislativa e administrativa, confrontaram-se com uma forte reação popular. Como resultado, o poder presidencial, que titulou essas decisões, é hoje contestado por muita gente, levando a figura de Emmanuel Macron a ter uma taxa de popularidade bastante mais baixa do que aquela que Trump tem nos EUA.

Quando foi eleito, a postura do novo presidente alimentou uma espécie de populismo “light”, pela deliberada vontade de criar uma espécie de ligação direta com as pessoas. Esse quase desprezo pelos corpos intermédios, dos partidos aos sindicatos, está agora a ter um elevado preço. Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon, respetivamente da direita e da esquerda radicais, têm agora as suas tropas na mesma trincheira. É uma surpresa? Nem por isso. A coincidência de agendas estava a tornar-se, a cada dia, mais evidente.

Macron quis ser o interlocutor único dos franceses, “à la De Gaulle”. Isso funcionou bem enquanto aqueles que o elegeram ainda colocavam as suas esperanças no novo presidente - cara jovem, ar enérgico, com todas as soluções (aparentemente) na ponta-da-língua.

Depois, um dia, surgiu a dura realidade: o discurso de “modernização”, a tentativa de ”racionalização” da imensa máquina pública (num país em que a despesa pública representa metade do PIB), começou a ter um preço visível na vida de cada um. A ideia de Macron, de que é preciso fazer alguns sacrifícios no presente para ganhar vantagens no futuro, não rima com um país tradicionalmente imobilista, que vive de direitos adquiridos, pouco sensível à ideia de que a França tem de ganhar competitividade, sem o que não pode continuar a fazer “papel de rico” pelo mundo, no sistema capitalista em que escolheu viver e que a eleição de Macron sufragou.

Muitas dessas medidas “de rigueur” (em França, esta expressão é sempre evitada no discurso político), estão a revelar-se, pela sua natureza, fortemente impopulares. Para as “vender”, Macron teria necessitado de as negociar previamente com a tal França intermédia, mas que ele desprezou e ajudou a fragilizar. Agora, ao tentar impô-las, de cima para baixo, soltou os demónios.

Hoje, o presidente que não era nem-de-esquerda-nem-de-direita tem nas ruas uma França que não é nem-de-esquerda-nem-de-direita. “Comment il s’en sortira? À suivre”.

13 comentários:

Anónimo disse...

Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon têm os seus partidos. Assim que surgiu um pretexto lançaram os seus nas ruas.
O que é que um PR eleito apenas por ser "o outro", sem partido mensurável, poderia esperar?.

Luís Lavoura disse...

Quando foi eleito, a postura do novo presidente alimentou uma espécie de populismo “light”

Como ouvi hoje numa conferência sobre populismo, Macron na sua eleição foi populista na forma, mas não no conteúdo. Ou seja, as suas ideias políticas nada têm de populista, porém a forma como ele encontrou para as fazer avançar foi típica dos grupos populistas.

Anónimo disse...

Engana-se, porque a sentença já foi dada pela comunicação social: isto é obra da extrema direita!

Quanto às medidas: lembram-se da frase da Ferreira Leite?

Fernando Correia de Oliveira disse...

Falta ainda na equação o factor islâmico. A França é um enorme problema. E isso não é bom para a Europa.

Anónimo disse...

Sr Embaixador...
Macron num paragrafo.
De Gaulle noutro paragrafo.
Mas nunca na mesma frase.

Quanto ao
"fazer alguns sacrifícios no presente para ganhar vantagens no futuro"

Talvez já não pegue por se fazerem sacrificios e mais sacrificio e nao se ve vantagem nenhuma.

Para quem nao sabe e apenas a 4a de 10 Estratégias de Manipulação em Massa

4. A estratégia de diferir

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária“, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura.

É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente.

Depois, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “amanhã tudo irá melhorar” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegue o momento.


1. A estratégia da Distração
2. Criar problemas e depois oferecer soluções
3. A estratégia da gradualidade
4. A estratégia de diferir
5. Dirigir-se ao público como crianças
6. Utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão
7. Manter o público na ignorância e na mediocridade
8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade
9. Reforçar a auto-culpabilidade
10. Conhecer aos indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem

Ainda não passou muito tempo em que passamos pelos passos destas estrategias ca em Portugal

Anónimo disse...

Há uma coisa que eu não entendo e que o senhor embaixador talvez me possa explicar. Há décadas que ouço falar da decadência da França, que é um país de "subsidiados", que é só Estado, não tem competitividade, etc. É um clássico. Como é que se explica então que esteja invariavelmente nas primeiras 10 economias do mundo, 6º ou 7º, sempre a par do Reino Unido?

arber disse...

Por cá ainda não chegámos a este ponto, mas…
Greves de professores, greves de enfermeiros, greves de juízes, greves de estivadores e, hoje, início de manifestações de bombeiros.
Com tanta insatisfação "popular", para quando devemos esperar o surgimento de um(a) qualquer Le Pen?!...

dor em baixa disse...

A sociedade tem grupos sociais e estes têm líderes que se fazem eleger, são os representantes dos cidadãos. É na dinâmica desta estrutura que a Política funciona. Se de repente um ator politico se faz representante de (quase)todos lá se vai a dinâmica, não sendo excessivo afirmar que lá se vai a democracia. Vitorioso, ele pensa que a estrutura está viva e que ele a faz funcionar mas a realidade há muito demonstra que não é assim.

João Cabral disse...

Não lhe parece que abusou dos hífenes neste texto, senhor embaixador?

ferro-e-fogo
ponta-da-língua
nem-de-esquerda-nem-de-direita
nem-de-esquerda-nem-de-direita

Arre! Tenha dó do leitor. Não se invente, por favor. Para invenções já basta o AO90 que, por sinal, até eliminou uma catrefada de tracinhos. O senhor embaixador agora coloca-os onde nunca existiram! Fica-lhe mal tanto descuido com o seu próprio idioma.

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador : Numa economia, onde os mais ricos são cada vez mais ricos, e o número de milionários aumenta sem cessar, o discurso do « esforço » sempre exigido daqueles que perderam 10% do seu nível de vida em 10 anos, não é aceite. Ontem lia-se no jornal económico que Pinault em 2017 ganhou 3 milhões de euros por hora…Estes números chocam tanto como os de Carlos Ghosn, o ex-presidente do Grupo Renault-Nissan , que não satisfeito de meter no bolso 15 milhões de euros em 2017, escondeu ao fisco metade dos ganhos no Japão . “ Trop, c’est trop,” Senhor Embaixador, mesmo se o Senhor escreve que a França vive acima das suas posses. Desculpe mas é menos verdade para alguns milhões de reformados e trabalhadores da indústria e sobretudo da agricultura.

Mas Macron é culpado dum discurso que incendiou a França: “ O “en même temps”, ou se me permite “ l’en même tempisme” que é promover uma coisa e ao mesmo tempo fazer o seu contrário.

Escrever um dia “ Estou convencido que o nosso país tem a força, o músculo, o desejo de avançar. Tem a História e o povo para o fazer” E desprezar na dia seguinte o mesmo povo, e tratar os seus concidadãos de preguiçosos, de iletrados.”

É dar, com a mão esquerda, um pouco para o mais desfavorecido, para retomar, sub-repticiamente com a mão direita, muito mais. É tirar dos bolsos quase rotos de muitos, para encher outros bolsos abarrotados.

É crer na virtude intrínseca dos ricos e, ao mesmo tempo, reduzir a luta contra a evasão fiscal.

Aliviar o chamado fardo dos ricos e esperar por eles para investir.

É taxando ainda mais os combustíveis e ao mesmo tempo suprimindo ajudas ao isolamento térmico. Ou seja, a sua preocupação com o ambiente e, ao mesmo tempo, reduzir os meios atribuídos à sua protecção.

Aplicar mais impostos e ao mesmo tempo baixar as ajudas aos mais necessitados.

É exprimir-se Urbi et Orbi sobre a paz e ao mesmo tempo vender armas para os mais altos licitantes. Como chefe dos exércitos, como um bom discípulo de Maquiavel, é empreender OPEX (operações externas) das mais aventurosas, como na Síria, para fazer como Trump, numa causa perdida.

É ouvir as reivindicações de todos aqueles que sofrem e, ao mesmo tempo manter a rota.

Finge romper com o velho mundo e, ao mesmo tempo, continua o neocolonialismo. Com relentos sempre paternalistas. Sempre com a França do capital.

Fala de "revolução democrática" e, ao mesmo tempo, ignora o povo, e, o que é mais grave, os poderes intermediários, maires, sindicatos, associações, que agora lhe fazem falta para aplicar a sua politica de austeridade.

É reconhecer "o divórcio entre o povo e os seus governantes” e ao mesmo tempo ameaçar com o chicote.
É, com o arsenal legislativo, querer abafar a contestação. É invocar a história e ao mesmo tempo limitar-se a comunicar.
É encenar a modernidade da "nação start-up" e ao mesmo tempo sobrestimar o monarca republicano.

Falar de territórios e, ao mesmo tempo, cortar as finanças às colectividades locais.

É honrar os “Poilus” e, ao mesmo tempo omitir as razões da carnificina.

É ser um homem jovem e ao mesmo tempo vestir o traje do passado. Até ao ponto de prestar homenagem àquele que foi promotor da "revolução nacional" e que foi condenado de indignidade nacional, autor da Milícia e da caça aos Judeus.

É discursar sobre a pobreza e, ao mesmo tempo, desmontar metodicamente, as conquistas sociais.

Joaquim de Freitas disse...

SUITE


Este homem, esqueçamos a sua entronização, esqueçamos os seus apoiantes, os seus ministros que o abandonaram; qual é o balanço de 18 meses de reinado? Olhemos para o seu poder, por um lado, por outro lado as suas acções. O que podia ter feito? Muito. O que fez de bem? Nada. Com este poder, uma maioria absoluta na Assembleia Nacional, em 18 meses, um humanista teria mudado a face da França, talvez a Europa.

Mas ele pegou na França e só sabe como desconstruí-la.: Ele mexe em tudo, ele corre atrás dos projectos. Ele decreta sem cessar. É o movimento perpétuo. Mas, infelizmente, graças a ele, a roda da fortuna acaba bem apenas para alguns privilegiados. (Como diria Napoleão Le Petit, capítulo "A Omnipotência", Victor Hugo)

Finalmente, não é Júpiter, mas Janus o petit: ele é o mau Presidente dos pobres e, ao mesmo tempo, ele é o bom Presidente dos ricos. Duas faces para o mesmo personagem. Ele crê ser essencial para um país "que se abriria e se vergasse à sua vontade, sem que nada lhe escapasse" .
Na verdade, por trás de "uma visão, uma narrativa, a vontade" há apenas um desejo de poder na missão. Imperial...

Finalmente, não é Júpiter, mas Janus “le petit”: ele é o mau Presidente dos pobres e, ao mesmo tempo, ele é o bom Presidente dos ricos. Duas faces para o mesmo personagem.
Na verdade, por trás de "uma visão, uma narrativa, uma vontade" há apenas um desejo de poder na missão.

E foi isso o que os “Gilets Jaunes’ de Paris e de França compreenderam. E mesmo se o governo tenta de pôr a culpa nos extremismos de esquerda e de direita, é para melhor apresentar aos franceses dentro de alguns meses, aquando das eleições europeias, que não existe outra alternativa, senão le Pen ou Macron. “ La ficelle est trop grosse”…

Anónimo disse...

Não se preocupem. A França já passou por crises maiores a ajustou-se sempre e continua grande, uma economia pujante e uma sociedade civil e uma cultura que quem dera a Portugal e à grande maioria dos países europeus. De cada vez que há uma crise em França é um ai jesus, um apocalipse.... A memória é muito curta. Isto passa.

alvaro silva disse...

O que os franceses querem é não manter chulos, que é o mesmo que queremos por cá.