quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Falar claro


Sou um radical defensor da democracia representativa, de base parlamentar. Voto em partidos que apresentam programas com os quais me sinto em sintonia, compostos por pessoas que me merecem confiança, que escolhem deputados que geram governos e tomam por mim todas as decisões legislativas. Repito: todas! Não voto em referendos, que acho uma caricatura simplificadora da democracia.

No passado, cheguei a ter um "tropismo" parlamentarista, pensando que o chefe de Estado deveria ser eleito pelo Parlamento. Mas há muito que não tenho essa opinião. O essencial da minha posição de considerar a Assembleia da República o centro do nosso sistema político mantém-se, contudo, inabalável.

Quero com isto dizer que não favoreço qualquer ato que funcione como debilitador da função parlamentar, que não apoio a menor deriva presidencialista, que procuro reagir diariamente ao denegrimento com que se procura atingir ilegitimamente a instituição Assembleia da República, órgão que, aliás, nestes últimos anos, tem vindo a ser dirigido por uma das figuras públicas portuguesas que tenho por mais íntegras e impolutas, em toda a nossa recente história democrática.

Se estivéssemos num país anglo-saxónico, aos parágrafos anteriores seguir-se-ia o tradicional: "Having said that...". E é isso! Dito isto, acho lamentável que a Assembleia da República dê mostras de não querer autoimpor regras de estrito rigor ético e irrepreensível transparência cívica. Não se deve tomar a parte pelo todo? Claro que não! Mas não consigo admitir que, perante o espetáculo que alguns deputados dão (estranhas faltas, moradas falsas, mutismo no plenário, ligações profissionais perigosas, etc.), muitos assumam um ar quase ofendido, como se o seu estatuto os colocasse acima de qualquer crítica, numa prateleira dourada de aristocracia republicana.

A culpa deste estado de coisas é - chamemos as coisas pelos nomes - o compadrio corporativo que faz com que ninguém pareça querer o odioso de impor um extremo rigor na atitude. Os partidos políticos são, como é óbvio, os principais culpados, porque são eles que se inibem de sancionar e afastar quem prevarica, num "porreirismo" que, lá no fundo, assume como praticamente inevitável o que vai acontecendo, na lógica de que "nós, os portugueses, somos assim, que se há de fazer?". Ora os portugueses sabem muito bem o que deveria ser feito e, enquanto os partidos e a AR o não fizerem, vão tendo os nossos deputados na conta em que os têm, a qual, como se sabe, não é lá muito boa.

13 comentários:

Luís Lavoura disse...

Os portugueses vêem mal os deputados que fazem as mesmas coisas que eles mesmos também fazem.
Os portugueses querem que os deputados cumpram regras muito estritas mas que eles mesmos se recusam a cumprir.
Os portugueses querem que os deputados dêem o exemplo no cumprimento de regras. Mas recusam-se a seguir o exemplo.

Luís Lavoura disse...

Não voto em referendos, que acho uma caricatura simplificadora da democracia.

O país mais democrático do mundo, que eu saiba, é a Suíça, que tem referendos a dar com um pau.

Os referendos são essenciais à democracia, diria eu. Há questões que só podem ser democraticamente dirimidas através do referendo. Como o aborto, a eutanásia, e outras.

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Muito bem!
A verdade é que os parlamentares são uma mole de pessoas como as outras com as mesmas virtudes e desvirtudes daí que se deve sancionar sem qualquer desvio todos os tiques menos éticos dos mesmos.
A graça no meio disto tudo é que a barracada estala do lado laranja da força, que sempre gostou muito de casos e casinhos para o seu exercício de politiquisse.

carlos cardoso disse...

Estou inteiramente de acordo consigo quanto à democracia representativa de base parlamentar. Já estou menos quanto aos referendos. Penso que nunca se deveriam referendar questões importantes como por exemplo a pena de morte ou o aborto, ou questões complicadas como o orçamento do estado ou a constituição europeia, mas não tenho nada contra - e até acho que pode ser positivo – que uma aldeia submeta a referendo, por exemplo, a localização de um cinema ou de um supermercado.

E já agora também estou completamente de acordo quanto às suas críticas sobre o que se passa na Assembleia da República. Acrescento só que esses comportamentos e a sua aparente impunidade contribuem para alimentar os discursos antidemocráticos.

Anónimo disse...

Lido com muito gosto.

Despacho

Temo que, com este texto, tenha morto esta República em todo o seu ser.

Mudar a mentalidade dos deputados que deveriam ser o exemplo para as populações será matar este regime.

Os compadrios entre políticos da mesma vizão do mundo combatendo os outros é o segredo de polichinelo.

Devemos preprar-nos para futuro.
E isto não só se passa por cá mas principalmente nos países do sul da Europa. Porque será? Por tradição ou ganâncias enrustecida?

Deferido com desgosto

Luís Lavoura disse...

nunca se deveriam referendar questões importantes como por exemplo a pena de morte ou o aborto

Pelo contrário, essas são questões que, por serem ortogonais à ideologia partidária (a qual se centra na organização da economia), só podem ser democraticamente dirimidas através de referendo.

O que diferencia um deputado do PCP de um do PSD é a forma como eles querem que a economia esteja organizada. Já quanto à pena de morte ou ao aborto, é ao calhas: dois deputados do PSD ou do PCP podem discordar entre si. Não podemos de forma nenhuma supôr que uma votação entre os deputados, a respeito de um desses temas, reflete aquilo que o povo em geral votaria sobre eles.

Então, se queremos ser democráticos (e há muita gente que não o quer, por exemplo o Francisco), temos que dar a voz ao povo, e não aos deputados, uma vez que a voz dos deputados não reflete a voz do povo (sobre esses temas específicos).

Anónimo disse...

"por uma das figuras públicas portuguesas que tenho por mais íntegras e impolutas, em toda a nossa recente história democrática."

Refere-se a Ferro Rodrigues ......??

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das 9:47: claro!

carlos cardoso disse...

"Temos que dar a voz ao povo, e não aos deputados, uma vez que a voz dos deputados não reflete a voz do povo (sobre esses temas específicos)."

É aqui que divergimos: prefiro a democracia representativa à democracia directa (e não acho que a Suiça seja o modelo a seguir).

Ainda bem que a voz dos deputados não reflete a voz do povo. Tenho a certeza que se a pena de morte fosse referendada, seria aprovada em muitos países europeus, talvez até em Portugal. Isso basta para que não ache uma boa ideia esse tipo de referendo.

Luís Lavoura disse...

Tenho a certeza que se a pena de morte fosse referendada, seria aprovada em muitos países europeus, talvez até em Portugal. Isso basta para que não ache uma boa ideia esse tipo de referendo.

Estas frases mostram claramente, de uma forma totalmente transparente, que o Carlos Cardoso (tal como o Francisco) não é um democrata.

Como o povo votaria (supostamente, talvez) de forma oposta à que o Carlos Cardoso gosta, o Carlos Cardoso acha que não se lhe deve dar a oportunidade de votar.

Não dar ao povo a oportunidade de votar, de escolher, é a essência da anti-democracia. E a anti-democracia pode ser justificada de muitas formas, e a mais comum é precisamente aquela que o Carlos Cardoso escolhe: o povo escolheria de forma (de acordo com a minha opinião) errada.

Luís Lavoura disse...

não acho que a Suiça seja o modelo a seguir

A Suíça é o modelo a seguir, não somente em matéria de democracia como também em matéria de federalismo, e em muitas outras matérias políticas.

aamgvieira disse...

A geringonça provou que um governo em Portugal pode degradar os serviços públicos sem enfrentar mais do que notícias avulsas. Precisa é de ser de esquerda.......

Joaquim de Freitas disse...

Quando se fala da Suíça, país vizinho onde vou frequentemente, vem-me sempre ao espírito uma palavra que lhe cola desde há muitos anos: Democracia.

Que é uma democracia, não tenhamos dúvida. Mas outras palavras vêm logo a seguir: Fraude e Corrupção.

O que me impressiona, é que o conceito de “corrupção” é definido de forma a focar exclusivamente em determinados grupos de países (africanos, latino-americanos, mediterrâneos, muçulmanos etc.), mas nunca em outros.

Qualquer coisa abominável que seja cometida por um país europeu e americano, como
comissões ocultas na compra de submarinos, aviões, infra-estruturas, participações financeiras, evasões fiscais, tende a ser considerada um pecadilho.

Que a Suíça tenha oferecido o seu sistema bancário sigiloso para os nazistas guardarem o ouro roubado dos judeus mortos no Holocausto não é um facto lembrado como “corrupção” e a Suíça, apesar de servir há décadas como esconderijo de recursos roubados por políticos e ditadores de países pobres, não é considerada um país particularmente corrupto.

Porém, o mesmo grau de sigilo bancário oferecido pela Suíça a Mobutu Sese Seko é suficiente para manchar a reputação do Panamá — provavelmente porque os panamenhos não são brancos o bastante para poderem roubar impunemente.

Claro que a Suíça não é o único exemplo de país modelo da moral cristã que ergueu os seus templos à virtude sobre os ossos e a carne de negros e latinos. É apenas o mais emblemático, mas há muitos mais. Mas é um belo país…