quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Sexo e diplomacia


Acabo de ler uma notícia num “site“ francês referindo-se à representante diplomática americana nas Nações Unidas como “l’ambassadrice de Trump”. 

Isso trouxe-me à memória um episódio e dá-me oportunidade de clarificar alguns conceitos básicos.

Um dia, em Paris, no final de um almoço em que estive presente, no período de perguntas e respostas, um secretário de Estado francês dirigiu-se a uma embaixadora de um país da União Europeia tratando-a por “madame l’ambassadrice”. A minha colega foi “aos arames”, interrompeu o governante e disse-lhe que considerava menos correto ser chamada de “ambassadrice”, termo que designa a mulher de um embaixador. “Madame l’ambassadeur” era como exigia ser tratada. O ministro replicou que aquela era a sua língua e que, ao utilizar essa palavra, sabia que estava a utilizar a expressão correta. A embaixadora sentiu-se ofendida e deixou a sala.

O ministro tinha razão... mas a embaixadora também. Na língua francesa, é vulgar designar as figuras femininas que desempenham cargos de chefe de missão diplomática por “ambassadrice”, expressão exatamente idêntica à que se utiliza para as mulheres dos embaixadores. Mas também há muito quem considere que devem utilizar-se palavras diferentes para as duas funções, o que implica não feminizar a palavra “ambassadeur”.

Na língua portuguesa, as coisas são bem mais simples. A mulher do embaixador é designada por “embaixatriz” e a diplomata que exercer a chefia de uma embaixada é designada por “embaixadora”. Não há, contudo, nenhum termo que possa identificar o marido de uma embaixadora ou de um embaixador. E refiro isto porque, desde há semanas, há um embaixador português casado com uma pessoa do mesmo sexo, facto já bastante comum em várias carreiras estrangeiras mas que julgo ser a primeira vez que acontece na diplomacia portuguesa.

13 comentários:

Anónimo disse...


Em francês também há uma outra escapatória:
O caracter diplomático do enviado quando é de Embaixador pode-se chamar ao femino desse mesmo cargo "Madame une telle, l'Ambassadeur de...."

Há também quem diga e escreva correntemente "Madame la Professeure".
Mas como se pode dar ao feminino de "Chauffeur"? La Chauffeuse?" Até parece mal.

Nestas últimas eleições presidênciais francesas também se pensou como se poderia dizer "Madame la Presidente de la République" ou apenas "Madame une-telle, le President de la République".
Há também o caso dos juízes. Pode-se ou não dizer "Madame la Juge"?

Isto são as feministas a quem em França por questões eleitorais deram trela a mais.

Outro caso para um pintor de arte: poderá haver feminino de "Artiste Peintre? ou mesmo de "Peintre de Bâtiment???

Há mais exemplos mas já é tarde para quem tem responsabilidades.

Anónimo disse...

Dúvidas para quê?

Obviamente o marido do embaixador é a embaixatriz!... O mesmo se passa com a mulher da embaixadora, evidentemente!...




Joaquim de Freitas disse...

Tema difícil! O embaixador francês é um homem público, como um deputado, um maire, etc. Se for do sexo feminino, “une femme pùblique” é um problema…

Um bom profissional, em não importa qual profissão, está bem, mas em francês, no feminino, “une professionnelle” põe problema …

La “maîtresse” et “la professeure” , pôe problema sobretudo quando o aluno esposa a « maîtresse »… La langue française é difficile...

Luís Lavoura disse...

Eu quando aprendi português aprendi que o feminino de "embaixador" é "embaixatriz", tal como o feminino de "imperador" é "imperatriz". Por exemplo, diz-se "a imperatriz Maria Teresa da Áustria", e não "a imperadora Maria Teresa da Áustria".
Visto isto, não vejo, a partir do português que aprendi na escola, de onde vem essa bizarria de que uma embaixatriz deve ser designada por embaixadora. Para mim uma embaixadora é uma embaixatriz, e a esposa do embaixador é isso mesmo - esposa do embaixador. Tal como o marido da embaixatriz não é embaixatrizo.

Anónimo disse...

"Embaixarido", pronto!

Anónimo disse...

O que não se entende é a razão pela qual a mulher do embaixador deve ser chamada de embaixatriz. Que se saiba a senhora em questão não representa o país nem tem cargo oficial. Por esse andar a mulher do presidente seria a presidenta (!). Para mim uma representante diplomática feminina "chefa" da embaixada é embaixatriz. Mainada.

dor em baixa disse...

Muito bem, mas quanto a presidenta é de mais. Presidente é o particípio presente de presidir, não é masculino. Felizmente que ainda não vi ninguém chamar à gerente de uma loja ou de um balcão bancário, a gerenta. Um dia The Rolling Stones seriam As Pedras Rolantas.

Anónimo disse...

No passado recente e ainda hoje, em Portugal, ao marido da embaixadora chama-se embaixador, por serem de facto.

A irritação das chefes de missão ao serem chamadas de embaixatrizes, é tão só por considerarem uma ofensa. Não esqueçamos, o concurso "externo" de ingresso na carreira diplomática o mais exigente da função pública!?! ao qual só tiveram acesso, após o 25 de abril. Em 2015, para vinte e cinco vagas, entraram três mulheres! Em 2017/8, para trinta vagas talvez "deixem" entrar cinco ou seis...(estando neste momento em concurso 59 candidatos, sendo 17 do sexo feminino).

Em documentos oficiais, exemplo passaporte diplomático, o que consta é mulher do embaixador de Portugal em... A partir de agora talvez tenha de passar a constar conjuge...em todos.

Na monarquia, a mulher do rei é rainha, a do príncipe é princesa, tal como a filha dos reis. Mas, o marido da rainha nunca é rei, nem o marido da princesa, príncipe. Há exceções, Marrocos...


Para evitar confusões, e simplificar usem o português corretamente embaixatriz ou embaixador, para designar o chefe de missão.

As ainda denominadas embaixatrizes irão dar umas valentes gargalhadas.

Eu a mais sonora!!!

Luís Lavoura disse...

O que não se entende é a razão pela qual a mulher do embaixador deve ser chamada de embaixatriz.

Exatamente.

A mulher do ministro não é chamada ministra. A mulher do professor não é chamada professora. A mulher do juiz não é chamada juíza. Da mesma forma, a mulher do embaixador não é embaixatriz coisa nenhuma - é a mulher do embaixador.
A embaixatriz é a representante diplomática. Embaixadora é coisa que não existe, em língua portuguesa.

Anónimo disse...

"Embaixadora é coisa que não existe, em língua portuguesa"

Só é admissível se alguém tiver dores lá em baixo... nos dedos dos pés.

:)

Anónimo disse...

Pois gerenta, gerenta, ainda não ouvi. Mas a Dilma achava que era presidenta. E o partido dela também.

A.Teixeira disse...

No exemplo que mais acima é referido, respeitante a Maria Teresa de Áustria, convém corrigi-lo porque está errado. Maria Teresa teve apenas o título de imperatriz consorte enquanto esposa do marido, Francisco I. Aliás, quando Maria Teresa enviuvou (1765), foi o seu filho José II quem assumiu o trono imperial.

O assunto é de pormenor, mas tem piada por esta vez chatear quem se profissionalizou nessa actividade nas caixas de comentários dos blogues...

Anónimo disse...

Caro A.Teixeira,

Não chateia nada, só não percebeu bem.
Aliás o exemplo é péssimo.

Sabemos quem foi Maria Teresa de Áustria, mas, se não fosse consorte seria na mesma chamada de imperatriz (imperatriz Suiko a primeira mulher a ascender ao trono do crisântemo-nunca alguém se lhe referiu como IMPERADORA).

Se as acima mencionadas, tivessem vivido na mesma época, seriam ambas chamadas de imperatriz! E aposto, que, ninguém faria qualquer confusão...