quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Cruz de Cristo




Ao final da tarde de hoje, vou estar presente numa cerimónia oficial em que, por razões que não vêm ao caso, terei de usar, na lapela, a insígnia da Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, distinção com que orgulhosamente fui distinguido, há bem mais de uma década. Trata-se da mais elevada condecoração, na ordem e no grau, que, como servidor público, eu poderia ter recebido - a menos que, patetamente, me considerasse merecedor da Torre e Espada...

Um dia, em França, onde sair à rua sem a condecoração mais elevada que se possua é quase um ato de descortesia cívica, decidi colocar na “boutonnière” a insígnia dessa minha condecoração portuguesa. Fi-lo a título excecional, porque, em regra, usava o Grande-Oficialato da Ordem do Mérito francês, que me foi atribuída em 1986 - e que, à vista de um “maître” de restaurante, sempre me garante logo uma excelente mesa... Mas, nesse dia, por uma qualquer razão, decidi “pôr o cristo”, como no jargão diplomático se diz.

Entrei numa cerimónia pública francesa com roseta vermelha sobre uma fita amarela na lapela da Grã-Cruz de Cristo e reparei que as pessoas olhavam para mim com um ar estranho, entre o surpreendido e o perplexo. Foi então que um amigo, o embaixador polaco em França, um homem que havia sido chefe do Protocolo no seu país e, por essa razão, muito conhecedor dessa coisas, me observou, discretamente: “Francisco, você não deve usar essa sua Grã-Cruz da Ordem de Cristo em França, como sabe...”

Como dizem os brasileiros, nesse instante, “caiu a ficha”! Ele tinha toda a razão! Há mesmo uma legislação francesa, do século XIX, que proibe a exibição pública, no território francês, das insígnias da Ordem de Cristo portuguesa e da Ordem de Cristo da Santa Sé. Eu sabia disso, mas tinha-me esquecido!

Porque é que isso acontece? Por um motivo simples: essas condecorações são exatamente iguais, no tocante à roseta usada na “boutonnière”, à “Légion d’Honneur”, a mais alta condecoração francesa. E porque, em França, quem usar indevidamente condecorações está sujeito a uma potencial prisão, as distinções similares estrangeiras estão banidas. É claro que, cono embaixador, eu nunca poderia ser preso em França, mas, no limite teórico, poderia ser considerado “personna non grata”. se persistisse em usar publicamente a Ordem de Cristo portuguesa.

Retrospetivamente, posso imaginar o que pensou quem me viu com aquela condecoração: como era completamente implausível que eu tivesse a Grã-Cruz da Légion d’Honneur (até hoje, só vi os presidentes da República francesa usarem-na, porque é de atribuição raríssima!), devem ter julgado que estavam a ver mal ou que eu estava a usar um elemento decorativo de muito mau gosto. Fiquei contente, assim, com o aviso do meu amigo polaco.

Contava-se nas Necessidades que, um dia, a um importante diplomata português foi perguntado pelo embaixador francês, numa receção em Lisboa, se a condecoração que ele exibia era a Ordem de Cristo, embora num grau mais baixo do que a Grã-Cruz. O nosso diplomata, "modesto", terá respondido: "Non! Ce n'est que la Légion d'Honneur"!" (é apenas a "Légion d'Honneur")

2 comentários:

Mal por Mal disse...

Tal condecoração será atribuída e aceite por quem seja cristão e haverá alternativa logicamente.

Anónimo disse...

Condecorações
Curiosa esta insistência francesa, tendo por base uma condecoração napoleónica, criada no século XIX. Mais do que uma vez tenho tentado que Portugal puxe dos seus "galões", em matéria de Condecorações, dado que tem das mais antigas da Europa.
Naturalmente, as condecorações, na actualidade, têm um valor simbólico, devendo representar o reconhecimento dos Estados pelos serviços prestados pelos seus cidadãos ou por actos de cortesia protocolar em relação a cidadãos estrangeiros com projecção cultural ou representativa. As condecorações portuguesas, designadamente as antigas Ordens Militares (Cristo, Avis e Sant'Iago da Espada) têm origem bem antiga, designadamente a partir da Ordem Militar de Cristo, no século XIV, derivada da Ordem dos Templários do século XII. Por acordo com a Santa Sé, no reinado de D. Dinis, esta Ordem passou a ser partilhada entre o Papa e o Rei de Portugal, ficando o Papa com o privilégio de atribuir a insígnia do Colar de Cavaleiro da Ordem Suprema de Cristo (a mais alta distinção papal) e Portugal com a Ordem Militar de Cristo, meramente honorífica. No século XIX, D. João VI criou a Ordem Militar da Torre Espada, Valor, Lealdade e Mérito, que passou a ser mais alta condecoração portuguesa sem conotações tradicionais de carácter religioso. Ora numa época em que todos os países tentam dar relevo às suas raízes e tradições históricas, já vai sendo tempo de darmos a conhecer também esta nossa relevância secular, através de uma simples emissão de selos de Correio, reproduzindo as insígnias das nossas condecorações, até porque já houve uma emissão de selos de correio na então Província de Angola, em 1967.
Caberá certamente à Chancelaria das Ordens Honoríficas Portuguesas, da Presidência da República, em contacto com os CTT, avaliar do interesse em divulgar este assunto salientando factos da nossa História de quase 9 séculos.
J. Honorato Ferreira