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sábado, janeiro 13, 2018

A propósito de nada


Um amigo generoso dizia-me ontem da sua “admiração” pelo facto de, a propósito do quotidiano, eu conseguir recuperar por aqui muitas histórias. E verídicas. Com efeito, salvo algumas anedotas bem identificáveis, faço questão de tentar relatar apenas episódios que não sejam contestáveis no domínio dos factos, estando aberto a reconhecer o meu erro, no caso disso involuntariamente alguma vez não vir a acontecer. E, as mais das vezes, essas historietas surgem ligadas a algo do dia que passa.

Hoje, em homenagem a esse amigo, vou contar uma história que não vem propósito de nada, que simplesmente me veio à memória, há pouco.

Há muitos anos, no defunto “Diário de Lisboa” (ainda estou em estado de choque pela notícia, de há horas, de que o “Diário de Notícias” pode desaparecer também), li um texto muito curioso do seu jornalista e brilhante escritor Luís de Sttau Monteiro, sobre a sua infância em Londres.

Sttau Monteiro era filho do embaixador português na capital britânica, Armindo Monteiro, um político que Salazar ali colocara para defender a sua linha de neutralidade “habilidosa” e que, com o tempo, veio a afastar-se do ditador (não por dissidência ideológica, porquanto Monteiro continuou a ser um radical conservador da escola corporativa) e a colar-se às posições internacionais britânicas. Mas isso são outros contos.

No seu texto no DL, Sttau Monteiro referiu que, no período ainda anterior à guerra, costumava ir brincar com o filho do embaixador do Reich alemão, Joachim von Ribbentrop, que seria da sua idade, numa casa que o embaixador alemão tinha um pouco fora do centro de Londres. Julgo que nele se recordava de um terraço e da bela vista que daí se disfrutava, tendo notado outros pormenores que agora me escapam.

Um filho de um embaixador ir brincar com os filhos de outro não é facto digno de registo. Já a circunstância desse diplomata ter vindo a ser, anos depois, ministro dos Negócios Estrangeiros de Hitler, co-autor do pacto germano-soviético que também leva o seu nome (e que o nosso PCP então apoiou, num gesto menos glorioso para o seu historial de luta contra o nazi-fascismo) pode tornar o episódio de infância do escritor português um pouco mais interessante.

Li o artigo de Sttau Monteiro nos anos 70 e fiquei com o seu relato na minha memória.

Um dia dos anos 90, quando vivia em Londres, fui convidado para jantar uma noite na casa de uma amiga portuguesa, casada com um cidadão britânico. (Ela não levará, com certeza, a mal que diga aqui o seu nome: Graça Abreu). A casa era, julgo eu, em Dulwich, na zona sul da cidade. Ficou-me inclusivamente na ideia (mas, passado um quarto de século, posso estar errado) que, para chegar ao prédio se passava por uma espécie de portagem paga. 

Durante o jantar, comentámos o belo traço modernista da casa e, a certo passo, o marido da Graça revelou o curioso historial do local: ali tinha vivido Ribbentrop. Foi então que a história de Sttau Monteiro me surgiu, porque se tratava de uma coincidência curiosa. Lá fui ao terraço olhar para Londres, como Sttau Monteiro e o sinistro nazi haviam feito. Devo ter prometido tentar encontrar-lhes o texto do escritor. E não devo ter conseguido, pela certa.

Aqui fica a historieta (com os retratos de Sttau e de Ribbentrop). A propósito de nada. Boa noite.



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