sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Verdade e confiança



Há uma batalha no mundo das notícias que parece não ter sido ainda percebida pela maioria dos meios de comunicação social. Essa batalha vai acabar por ter vencedores e vencidos. É a batalha pela verdade.

Poluída pelos vícios das redes sociais, empurrada para o terreno digital onde ainda não consegue gerir com eficácia a opção pelas assinaturas e os modelos de publicidade, muita da comunicação social deixou-se colonizar, da pior forma, pelo sensacionalismo, na busca dos títulos “espertos”, que convocam o “clickbait” para mostrar as visitas aos anunciantes. 

É impressionante como órgãos sérios e responsáveis parecem, no dia-a-dia, convertidos em adeptos de truques para iludir o leitor. Ao fazê-lo, ao “venderem gato por lebre”, esses meios de comunicação social não se dão conta de que estão a cavar a sua própria sepultura. É que, podendo ganhar algumas vantagens no domínio publicitário imediato, através de um público seduzido pelo sensacionalismo, perdem progressivamente crédito e bom nome. E isso, como é dos livros, dificilmente se volta a recuperar.

Como frequentador de muitos “sites” e espaços digitais, dou comigo a fazer, cada vez mais, uma separação do joio que está no meio do trigo. Porque alguns desses espaços me dão, por sistema, notícias ilusórias, me tentam iludir através de títulos “hábeis” e “leads” enganadores, vou tendendo, quase inconscientemente, a deixá-los de parte. Tenho a sensação de que, a cada dia que passa, crio uma espécie de “lista positiva” daqueles produtores de informação de onde saio com a sensação (porventura ilusória, dirão alguns) de que o produto que me é servido tem uma relação mais forte com a verdade. Estou perfeitamente convicto de que este será o caminho do futuro.

Com efeito, mergulhado num manancial de notícias, o leitor tende a apreciar cada vez mais a informação abalizada, com a apresentação equitativa da posição das partes, mesmo se acompanhada por uma opinião bem identificada, por uma assinatura prestigiada, em que o leitor sabe que pode acreditar, com vista a formar a sua própria opinião. O leitor do futuro - curiosamente, tal como o do passado confiava em que “se já saiu na imprensa é porque é verdade” – vai tender a aceitar que uma coisa é verdadeira se acaso a leu num orgão de comunicação em que, por amostragem cumulativa, se habituou a confiar. E, com toda a probabilidade, na lógica que fazia o sucesso dos “anchors” das tv anglo-saxónicas, vai olhar a cara da pessoa que lhe lê ou escreve as notícias e nela vai encontrar a empatia que credibiliza aquilo que ouve ou lê e em que acredita.

Os orgãos de informação devem entender que o seu sucesso, a prazo, passa por serem reconhecidos como “pessoas de bem”. A confiança vai ser a chave da informação no futuro.

8 comentários:

dor em baixa disse...

Não concordo. A informação é um produto como outro qualquer e como eles tem dono. A que prevalece não é a verdadeira mas a que os vendedores conseguem colocar no mercado. Não faria sentido que a mercadoria se submetesse às regras do mercado e a informação constituísse uma exceção.

Anónimo disse...

É por não ter confiança na violação do segredo de justiça que não posso acompanhar António, em Kinshasa, na sua afirmação de que 'A generalidade dos portugueses apoia a acção de Marques Vidal". Não apenas não apoia, como é duvidoso que ela detenha o saber e a competência no direito comunitário para incarnar uma sinecura de juiz no Tribunal de Justiça no Luxemburgo. Se assim for votarei PS - mas com esta atravessada...

Anónimo disse...

O "19 de janeiro de 2018 às 23:24" talvez mudasse de opinião se andasse a comer bife de vaca que, afinal se descobrisse ser de minhoca. Quando ele fosse reclamar, o comerciante diria "Sabe, isto o que interessa é que a pessoa goste. Sabe-lhe a vaca? Então, o que interessa que seja de minhoca?!".

Ele há com cada animalária!

Anónimo disse...


"Veritas filia temporis".

Custa a acreditar mas o tempo pode dar origem a compreender melhor uma verdade adquirida depois de algum tempo, apenas com elementos outros daqueles observados.


"Turning point"

Não há dúvidas algumas que a força da informação está cada vez mais exigente quanto à literacia do leitor. Tem de ser o leitor a escolher a sua fonte de informação e a acreditar o jornalista.
Já não serve uma fonte de informação pela sua ideologia como desde o século XIX acontecia.
As fontes de informação possiveis são tantas que nos podemos sentir como a primeira vez que fui a uma muito grande biblioteca nacional. Havia ali tanta informação sobre tudo que, se o leitor não soubesse o que pretendia, ficaria ali o resto da vida sem conseguir encontrar o que pretendia mas adquiria apenas "general knowloge".
Se não percebermos que "time will shape things" e a verdade de ontem pode não ser a verdade de hoje, vamos ficando sem compreender os desafios que temos de enfrentar não previsiveis e asimm reaccionários ou mesmo conservadores.[Oh!!! blasfémia empregar estes termos a reconhecidos, notarialmente, democratas sem mácula. Só isto já mostra a relatividade dos conceitos.]

Anónimo disse...

@ anónimo das 13:11

Parece que o produto das minhocas é tão nutritivo como a carne da vaca.
Bem se vê que nem na tropa nunca passou fome. Se não houver vaca, come-se o que há.

Anónimo disse...

A verdade é tão complexa que não dá para explicar por palavras.

É verdade que o terrorismo actual é condenável!!!! As suas razões também!!!

O terrorismo na Europa do Século XX era também condenável mas.... as suas razões eram válidas?? Se as razões de um terrorismo são válidas, serão válidas as suas acções também?
Se assim for a verdade sobre a condenação de qualquer terrorismo fica dependente das suas razões que costumam saber-se mais tarde.
Falo principalmente do terrorismo comunista e republicano nos principios do século XX

Isto está a ficar muito complexo mas nem por isso se deve perguntar porque razão o terrorismo é condenável agora e nem sempre foi antes para a conquista do poder actual.

dor em baixa disse...

Voltando à vaca fria (à minhoca). Então eu não consumi como boa notícia aquela que afirmava repetidamente que o Iraque dispunha de armas de destruição maciça! Então eu não consumi como boa notícia aquela imagem que mostrava uma ave marinha a escorrer petróleo em consequência do ataque dos iraquianos a uma plataforma, mas final tratava-se do desastre de um petroleiro ocorrido muito antes noutro mar! Então eu não creditei na declaração de Cavaco Silva que dava o BES como uma boa aplicação de capital num banco! Então eu...

Anónimo disse...

@ anónimo de 20 de janeiro àss 23.48

Como uma pessoa autónoma cada um só acredita no que lhe for possivel duvidar.

Se for apenas para consumir..... o problema será do próprio de comer gato por lebre de escabexe.
E será sempre necessário questionar-se o menos possivel.
Pensar dá muuito trabalho e tira tempo ao consumo desenfreado para demonstrar aos vizinhos o seu poder económico na competição social