Sucumbi ontem a alguma nostalgia ao participar, aqui em Paris, na inauguração do Salão de Filatelia, no qual Portugal é o país convidado de honra.Por instantes, vi-me nos tempos da minha adolescência, durante a qual, sob a orientação do meu pai e a tutela profissional dos clássicos catálogos portugueses de Eládio de Santos e Simões Ferreira, bem como do francês Yvert & Tellier, apurei uma muito razoável colecção de selos (que inclui mesmo o que está na imagem, o célebre "5 reis D. Maria", o primeiro selo português). Até que, lá pelos anos 80, deixei de me interessar pelo assunto, nunca percebi bem porquê - mas, muito provavelmente, porque outros entusiasmos alternativos tenham suplantado a filatelia no meu mercado pessoal de interesses. Não deixou, contudo, de ser um tempo bem curioso, em que muito aprendi de geografia e de história do mundo através dos selos.
Hoje, fiquei com a sensação de que a filatelia tende a ser uma coisa de um outro tempo. Muito poucos jovens havia no Espace Champerret para apreciar a bela exposição aí instalada. A era do e-mail ou dos SMS's parece estar a fazer desaparecer a prática do coleccionismo filatélico e, em especial, a não conseguir conquistar para ela as novas gerações.
Curiosamente, os correios portugueses mantêm um dinamismo que pode ser considerado em contra-corrente com esse desânimo e continuam a imprimir, com grande regularidade, belas colecções de selos e de produtos editoriais que lhes estão associados, conseguindo mobilizar para esse trabalho excelentes artistas plásticos nacionais. Foi, aliás, muito agradável verificar o elevado prestígio que os nossos profissionais do sector disfrutam junto dos seus pares europeus.
Pela sua qualidade, pelo modo como projectam a estética e os valores portugueses, os nossos produtos filatélicos dão hoje uma contribuição para a imagem de Portugal que podemos quase qualificar como "diplomática". Pena foi que, no famoso escândalo da empresa filatélica ibérica Afinsa, tenha acabado por ficar um "selo" diplomático português...
Senhor Embaixador,
ResponderEliminarHá uma idade em que se coleccionam coisas. Bonitas, de preferência. Depois vem a idade em que se usam as coisas. De seguida a idade em que se coleccionam pessoas. Depois aquela em se usam as ditas. E, por fim, por fim, acaba-se sem umas e sem outras...
Embora pareça pessimismo, estou a sorrir, ao escrever isto!É que às vezes é uma sorte que isso aconteça...
Bom artigo e bom comentário anterior. Porém, talvez fosse conveniente acrescentarem-se dois pormenores.
ResponderEliminar1- A filatelia andava bem até que a especulação entrou na corrida, principalmente aqui na Peninsula Ibérica. Os interesses obscuros
deram no que deram. E houve muita gente a perder dinheiro a sério. E à nossa boa maneira os processos que vão decorrendo nunca mais chegam ao fim.
2- Também convém lembrar que a malta nova, e os menos antigos também, uns nunca aprenderam a escrever cartas e bilhetes postais. Vai tudo por SMS ou mail e os outros pelos mesmos motivos, já se esqueceram. Aliás, se alguém viesse a perguntar a pessoas com menos de 30 anos quantas vezes é que foram aos Correios comprar um selo, colá-lo numa carta e mete-la no marco, ficavamos todos admirados.
Mas os Correios e o seu Clube do Cleccionador, apesar de tudo isto, merecem os parabens pelo magnifico trabalho que continuam empenhados a fazer. Pode ser que a história, algum dia venha a dar público valor à filatelia. Era merecido e devido. Penso que é uma questão de tempo. Mas os vendilhões do templo não podem entrar de novo.